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MUITO MAIS QUE ESPORTES: AS REFLEXÕES TRAZIDAS PELAS OLIMPÍADAS

MUITO MAIS QUE ESPORTES: AS REFLEXÕES TRAZIDAS PELAS OLIMPÍADAS

A 32° edição das Olimpíadas começou oficialmente em 23 de julho, com a cerimônia de abertura dos jogos em Tóquio, capital japonesa sede das competições. Ao todo, estiveram presentes mais de 11 mil atletas de 204 países e dois comitês olímpicos de atletas refugiados e russos. Os jogos Olímpicos vão além da competitividade entre atletas e inúmeros debates são levantados junto com eventos de grande porte como este, dentre eles: investimento em atletas, saúde mental, representatividade, história dos participantes, dos torcedores, pandemia e tantos outros assuntos que entram em pauta. 

Ao declarar que não participaria das provas de salto e solo, modalidades em que a brasileira Rebeca Andrade conquistou a medalha de ouro e prata, respectivamente, a ginasta norte-americana Simone Biles alegou que precisava cuidar da saúde mental levantou um debate importantíssimo: o cuidado com a saúde mental dos atletas. 

“Temos que proteger nossas mentes e corpos, não é apenas ir lá [competir] e fazer o que o mundo quer que façamos. Nós não somos apenas atletas, no fim do dia nós somos pessoas, e às vezes temos que dar um passo atrás”, afirmou a  ginasta.

Em todos os esportes muito se fala no treinamento físico, no preparo com bons técnicos, mas pouco se diz sobre o preparo emocional. Os atletas geralmente são vistos, em tempos de competição, principalmente, como deuses invencíveis e inabaláveis. No entanto, pouco se fala dos efeitos que as cobranças internas e externas podem causar no psicológico dessas pessoas. 

“Os transtornos emocionais em atletas são tão frequentes quanto às lesões. E eles se manifestam por vários motivos: pressão por resultados, distância da família, exposição na mídia, vários fatores podem propiciar isso. Os mais comuns são a síndrome de Burnout, o estresse pós-traumático, os transtornos de ansiedade e a depressão. A cobrança pessoal e pública por vitórias e pela perfeição em competições, tudo isso pode contribuir diretamente para o surgimento dessas doenças”, explica a psicóloga Juliana Gebrim, especialista em neuropsicologia pelo Instituto de Psicologia Aplicada e Formação de Portugal (Ipaf).

Um estudo realizado pela Universidade de Stanford (Estados Unidos) analisou a resposta de 131 esportistas norte-americanos que utilizam a plataforma esportiva Strava, parceira da pesquisa, entre 12 e 25 de agosto de 2020. De acordo com a pesquisa, antes da pandemia de covid-19, 3,9% dos atletas disseram se sentir depressivos. Após a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretar estado de pandemia de coronavírus em março de 2020, a porcentagem aumentou para 22,5%. 

Nas respostas sobre ansiedade, dos entrevistados 27,9% relataram que se sentem nervosos ou ansiosos durante mais da metade da semana, o percentual anterior a pandemia era de 4,7%.

Para Juliana Gebrim, as restrições sociais impostas pela pandemia acentuaram a sensação de depressão e ansiedade em muitas pessoas. “Muitos atletas precisaram diminuir ou até mesmo interromper os treinos e isso impactou no emocional. Isso sem falar que, antes da pandemia, muitos atletas treinavam juntos com suas equipes, o que não foi possível durante o período pandêmico que tornou esses momentos mais solitários”. 

“A preparação física e o equilíbrio emocional precisam caminhar juntos, especialmente no momento das competições. A pressão externa, seja do treinador, do público, da família e dos amigos dos atletas pode levar a quadros de ansiedade e depressão que certamente irão interferir no rendimento e, consequentemente, nos resultados dos atletas nas competições”, explica a psicóloga.

Juliana Gebrim afirma que em competições de grande porte, como é o caso das olimpíadas, a tensão do atleta é inevitável e por esse motivo é preciso que os esportistas tenham um bom acompanhamento psicológico. “É preciso dar mais atenção à saúde emocional dos atletas e investir em programas de cuidados com a saúde mental desses profissionais é algo urgente e essencial”.

O tema da saúde mental dos atletas foi parar no pódio. A americana Raven Saunders ergueu os braços e os cruzou em forma de X na foto após ganhar a medalha de prata no arremesso de peso feminino. Saunders tem 25 anos, é negra e lésbica e tem falado abertamente sobre sua luta contra a depressão. 

Representatividade nas Olimpíadas

A discussão sobre o racismo estrutural brasileiro também teve espaço nas Olimpíadas de Tóquio. A medalha de prata de Rebeca Andrade na ginástica artística fez Daiane dos Santos se manifestar sobre as dificuldades dos negros nos esportes no Brasil. 

“Durante muito tempo as pessoas disseram que não poderia ter uma ginasta negra. Que as pessoas negras não poderiam fazer alguns esportes. E a gente vê hoje a primeira medalha na ginástica para uma menina negra. Tem uma representatividade muito grande atrás disso”, disse Daiane. “Agora a gente tem a primeira medalha do Brasil na ginástica artística com uma negra. Isso é muito forte. Até pouco tempo os negros não podiam competir em alguns esportes. É uma menina que veio de origem humilde, criada por uma mãe solo, veio de várias lesões para ser e a segunda melhor atleta do mundo”, completou.

Rebeca Andrade garantiu a segunda posição após o solo, no qual se apresentou ao som instrumental da música Baile de Favela. 

O sexismo dos uniformes nas Olimpíadas

Outra discussão levantada durante as Olimpíadas de Tóquio é o sexismo dos uniformes dos atletas. As jogadoras de handebol de praia da Noruega foram punidas por trocar a parte de baixo do biquíni por um short na hora de disputarem os jogos. 

A federação norueguesa de handebol apoiou as atletas, mas teve que pagar uma multa de cerca de R$ 9 mil porque a decisão delas viola a regra da Federação Internacional de Handebol, que é quem define as regras dos uniformes. 

A equipe de ginástica feminina da Alemanha também inovou no traje para a competição. Em vez dos tradicionais collants, as ginastas usaram um macacão cobrindo braços e pernas durante as apresentações. A atitude trouxe o debate sobre a submissão feminina e a superexposição do corpo. Atletas homens, por exemplo, não são obrigados a usar sunga nos jogos de handebol. 

Skate: de esporte proibido a nova modalidade das Olimpíadas

O Skate, esporte recém chegado nas Olimpíadas, já rendeu duas medalhas aos esportistas brasileiros Kelvin Hoefler, Pedro Barros e Rayssa Leal, todos medalha de prata. A modalidade ainda é alvo de preconceito no Brasil, apesar da conquista. 

Em 1988 a prática do esporte chegou a ser proibida em São Paulo, durante o mandato do então prefeito Jânio Quadros (PTB), em 1988. Inicialmente, a prática havia sido proibida apenas no Parque Ibirapuera, mas depois de um protesto, foi proibida em toda a capital. Jânio chegou a afirmar em memorando que os “garotos tomariam a lição que o pai não lhes deu”. A proibição durou alguns meses e só foi revogada no ano seguinte, quando Luiza Erundina, então no PT, venceu as eleições e virou prefeita da capital. 

Agora deputada federal, Erundina comemorou a medalha de prata de Kelvin nas redes sociais e relembrou o episódio. “E a nossa primeira medalha na Olimpíada de Tokyo veio justamente do Skate, com o atleta Kelvin Hoefler. Hoje, um esporte olímpico, no passado, discriminado e proibido em São Paulo, que Erundina liberou! Parabéns Kelvinho!”, escreveu em seu perfil oficial no Twitter. 

Brasil: falta investimento nos esportes 

O professor em políticas públicas do Ibmec/DF, Jackson de Toni, aponta que o investimento do governo federal na área de desporto e lazer vem decaindo desde 2016, ano em que o país foi sede das Olímpiadas. “Em 2020, por exemplo, a maior parte das verbas federais dependeram de emendas parlamentares. A Secretaria Especial do Esporte do Ministério da Cidadania recebeu R$ 225 milhões em 2020 em emendas parlamentares”, diz. 

“Em relação ao Orçamento da União, por exemplo, a função “desporto e lazer” executou aproximadamente R$ 316 milhões em 2017, de uma dotação total de R$ 1,51 bilhão. A mesma função em 2020 recebeu R$ 600 milhões, mas registra uma execução de apenas R$ 98 milhões”, explica o professor. De acordo com o Portal da Transparência, o orçamento da União destinado para o setor de esportes em 2021 é de R$ 837,38 milhões, porém, o total de despesas até este mês é de R$ 42,73 milhões.

Para Jackson de Toni, a prática de esportes não é só atividade cultural típica das sociedades urbanas desde a antiguidade, mas também meio econômico e uma estratégia de saúde pública é bastante relevante para a  socialização de crianças e jovens. “A importância é tão grande que o artigo 217 da Constituição Federal estabelece como dever do Estado o fomento às práticas desportivas, formais e não formais, incluindo a distinção de recursos públicos”, explica. 

Em 1998, o então presidente, Fernando Henrique Cardoso, sancionou a Lei n° 9.615, popularmente conhecida como “Lei Pelé”, que regulamentou as normas, por exemplo, para a contratação de atletas de futebol de campo que passou a ter contrato formal de trabalho com o clube e registro junto a Confederação Brasileira de Futebol (CBF). ”Um marco importante foi a criação da “Bolsa Atleta” em 2004 pelo governo federal. Outros dispositivos legais estabelecem incentivos fiscais para estimular o patrocínio ou doação ao setor”, relembrou Jackson de Toni. 

O professor de políticas públicas analisa que, no geral, há uma concentração dos investimentos apenas em esportes competitivos de alto rendimento, pois podem ser facilmente monetizados e rentabilizados, mas que é preciso olhar com atenção para os demais esportes. “Outro ponto é a diversificação das opções, o Brasil não pode ser só o ‘país do futebol’. Falta investimento para democratizar e universalizar a prática esportiva de forma massiva, por exemplo, nas escolas públicas, nos equipamentos de uso público e gratuito”.

O investimento em políticas públicas sérias para o esporte, principalmente nas escolas, é uma das formas de melhorar o rendimento esportivo do país. Para  Jackson de Toni, é preciso uma estratégia e de planejamento de longo prazo, articulação inter-federativa entre Estados e Municípios com o governo federal, sistemas de gestão eficientes e recursos públicos no volume e ritmo necessário. 

“A experiência de países muito mais pobres que o Brasil, como Cuba, revela que o investimento na popularização do esporte gera muitas externalidades positivas, multiplicadoras dos benefícios imediatos. Portanto, a dimensão de recreação, de esporte como rendimento e de esporte como um direito social precisam ser mais bem calibradas”.

Os protestos políticos nos jogos

Os jogos de Tóquio também ficaram marcados pelos protestos políticos de diversas delegações. A corredora bielorrussa Krystsina Tsimanouskaya recebeu um visto humanitário para se refugiar na Polônia depois das Olimpíadas. A atleta temia ser presa por razões políticas quando retornasse a Belarus, seu país natal. Ela criticou publicamente a delegação de seu país e passou a temer represálias. 

Houve também outros protestos, como no caso da equipe de futebol feminino da Austrália, que ao invés de levantar a bandeira do país antes de uma partida, levantou a bandeira aborígene, em prol dos povos nativos. 

A equipe canadense também protestou a favor dos povos indígenas durante os jogos de rugbi. As atletas incorporaram elementos de cor laranja ao uniforme, em um reconhecimento aos abusos sofridos por crianças indígenas em escolas católicas do Canadá. 

Vários atletas também protestaram com um joelho apoiado no chão em um gesto associado ao movimento Black Lives Matter. 

Primeiras Olimpíadas em tempos de pandemia

A data programada para as Olimpíadas de Tóquio era julho de 2020, no entanto, devido a pandemia de covid-19, os jogos foram suspensos e posteriormente remarcados para julho deste ano, 2021. Em maio de 2020, em entrevista à rede britânica BBC News, o presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), Thomas Bach, disse que havia a possibilidade do evento ser cancelado caso a pandemia não fosse contornada a tempo da competição. 

A confirmação da realização dos jogos foi bastante criticada por médicos e especialistas em saúde pública, mas mesmo assim o evento segue acontecendo cumprindo uma série rigorosa de exames diários para averiguar a saúde de todos os participantes e envolvidos na realização das Olimpíadas. Esta é a primeira vez que os jogos acontecem sem público. A decisão foi tomada após o decreto de Estado de Emergência em Tóquio.  

Os jogos olímpicos tem origem na Grécia Antiga por volta do século VIII a.C, nesse período as competições eram entre cidades e aconteciam na cidade de Olímpia, por isso o nome Olímpiadas. De acordo com artigo “Jogos Olímpicos da Era Moderna: uma proposta de periodização”, escrito por Kátia Rubio da Escola de Educação Física e Esporte, Universidade de São Paulo (USP), o formato das Olímpiadas atual, foi recriado por Pierre de Coubertin e teve a primeira edição em 1896. 

“Respeitando o calendário grego, no qual foi espelhado, os Jogos Olímpicos de Verão realizaram-se de quatro em quatro anos, período de uma Olimpíada, e atravessaram o século XX sofrendo de perto toda intensa dinâmica de um momento histórico marcado por profundos conflitos sociais de ordem mundial”, relata no estudo. 

Desde a primeira edição na Era Moderna, apenas três Olimpíadas foram canceladas: as Olimpíadas de Berlim em 1916, devido a 1ª Guerra Mundial.  Olimpíadas de Helsinque em 1940 e de Londres em 1944, ambas pelo mesmo motivo, 2ª Guerra Mundial. As Olimpíadas de Tóquio 2020, são a primeira edição adiada na história. 

O evento de abertura dos jogos é marcado pelo acendimento da pira olímpica e outras atrações, pelas cidades repletas de torcedores de vários lugares do mundo, porém, esta edição é diferente. Durante a abertura deste ano, apenas alguns representantes das delegações puderam participar. O Brasil, por exemplo, levou apenas quatro atletas para representar o país na cerimônia. De modo geral, durante toda a competição, apenas atletas, comissão técnica e membros da equipe organizadora podem estar nas instalações da competição.  

Além das restrições para a cerimônia, outros critérios de segurança também foram adotados: testagem constante, restrição de deslocamento pela cidade, distanciamento social e uso obrigatório de máscara de proteção individual. No momento de subir ao pódio para receber as medalhas, o próprio atleta deverá pegar a medalha e colocá-la no pescoço. Mesmo assim, de acordo com informações do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de Tóquio, até esta quarta-feira (4) foram registrados 322 casos de testes positivos para  a covid-19. 

Brasil nas Olimpíadas

A primeira participação do Brasil nas Olimpíadas foi em 1920, quando a delegação composta por 21 atletas brasileiros participaram dos jogos em Antuérpia, na Bélgica, disputado em cinco modalidades: natação, polo aquático, remo, saltos ornamentais e tiro esportivo, que rendeu ao país três medalhas, uma de ouro, uma de prata e uma de bronze. 

Desde então, o Brasil participou de 23 Olimpíadas e conquistou, ao todo, 128 medalhas: 30 de ouro, 36 de prata e 62 de bronze. 

Neste ano, de acordo com o Comitê Olímpico do Brasil, foram enviados 302 atletas às Olimpíadas, 177 são novatos no evento, 162 homens e 140 mulheres, que disputaram em 35 das 46 modalidades: atletismo (52), badminton (2), boxe (7), canoagem slalom (2), canoagem velocidade (3), ciclismo BMX (2), ciclismo MTB (3), esgrima (2), futebol (36), ginástica rítmica (5), ginástica artística (7), handebol (24), hipismo (7), judô (15), levantamento de peso (2), maratonas aquáticas (1), natação (26), pentatlo moderno (1), remo (1), rugby sevens (12), saltos ornamentais (4), taekwondo (3), tênis (7), tênis de mesa (6), tiro com arco (2), tiro esportivo (1), triatlo (3), vela (13), vôlei (24), vôlei de praia (8), wrestling (3). 

Nesta edição há dois novos esportes entre as modalidades skate e surfe. Representado o país, foram 12 skatistas que disputaram nas modalidades park e street. Já no surfe, quatro atletas participaram dos jogos. As disputas continuam até sábado, 7 de agosto. No domingo, acontece o encerramento das Olimpíadas. 

Na 24° participação, os atletas brasileiros já conquistaram 16 medalhas, confira o ranque:

Wanessa Alves

Estudante de jornalismo na Universidade de Brasília (UnB) e estagiária no Regra dos Terços. 

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