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Mercado machista e preconceito: mulheres representam apenas 20% dos profissionais de tecnologia no Brasil

Mercado machista e preconceito: mulheres representam apenas 20% dos profissionais de tecnologia no Brasil
Foto: Agência Brasil

Produtos tecnológicos e sistemas computacionais avançados sempre foram demandados por diversos setores da economia, porém, com a pandemia de covid-19, a necessidade do ser humano por tecnologia aumentou vertiginosamente, uma vez que boa parte da população precisou adaptar a casa para continuar o trabalho ou os estudos de forma remota. De acordo com a Revelo, plataforma de recrutamento especializada em profissionais de tecnologia, houve um aumento de 25% nas contratações do setor durante 2020. Mas esse mercado ainda é muito restrito para as mulheres no Brasil.

Ainda que com uma alta procura por profissionais em tecnologia, o mercado de trabalho ainda é muito masculinizado e machista. De acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), apesar do aumento significativo de 60% da participação de mulheres na área entre 2014 e 2019, elas representam apenas 20% dos profissionais de tecnologia. 

Segundo estimativas feitas pela Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) e de Tecnologias Digitais (Brasscom), até 2024 serão abertas cerca de 420 mil vagas no setor das tecnologias. No entanto, mesmo com previsões tão positivas, a pergunta que surge é: há mão de obra suficiente para suprir essa demanda?

“Eu acho que não tem mão de obra suficiente para isso se formos pensar na questão de qualidade, mão de obra qualificada. Sempre precisou de muita gente na área de TI, é um setor que sempre precisou de pessoal. Agora, na pandemia, muito mais. A gente vê que é um mercado específico. Em um cenário para 2024, é pouco tempo para suprirmos esse mercado”, avalia Elisangela Strangetti, analista sênior da empresa alimentícia BRF.

Mulheres são minoria no mercado de trabalho tech

Em 2019, segundo um levantamento feito pela Revelo, as mulheres foram minoria na hora de se inscrever em vagas para cargos em empresas de tecnologia. Em BI, por exemplo, apenas 30%. BI, é a sigla em inglês para Business Intelligence, profissional responsável por coletar e analisar dados para ajudar nas tomadas de decisões das empresas. 

O baixo percentual se repete nas inscrições para postos vagos de desenvolvimento (13%) e TI (11%). No entanto, cargos de marketing (61%), negócios (39%) e design (38%) apresentam maior tendência a receberem cadastros de mulheres. Em relação a 2018, os dados de desenvolvimento e design permanecem iguais. Em BI  a diferença era de 34% de mulheres para 66% de homens. Já em marketing era de 56% de mulheres para 44% de homens, ou seja, houve um crescimento no número de mulheres nessa carreira. 

Uma das hipóteses apresentadas no estudo para essa distribuição desigual na escolha de carreiras entre os gêneros são as pré-determinações do que é para menino e o que é para menina, impostos pela sociedade desde a infância. 

“Por trás desse fenômeno, talvez ainda existam estereótipos sócio-culturais sobre as carreiras de exatas mais técnicas, consideradas como ‘carreiras de meninos’ (enquanto as carreiras de humanas são ‘de meninas’). Essa pré-concepção surge desde o início do percurso educacional de meninos e meninas, e passa adiante ideais profissionais enviesados e antiquados”, avalia o estudo. O relatório analisou mais de 212 mil candidatos e 27 mil ofertas feitas por empresas feitas na plataforma durante 2019.

Minoria no mercado tecnológico

Antes de ingressar na área de TI, Elisangela Strangetti pensou em cursar direito, mas embora a área jurídica ainda chame muita a atenção da analista, o que fez o coração dela bater mais forte foram as diversas possibilidades que a ciência da computação traria para ela. “Comecei a gostar de TI e pensei ‘acho que é esse caminho que vou seguir’. Principalmente banco de dados”, relembra.

O primeiro estágio da Elisângela foi no setor de banco de dados de uma empresa especializada na produção de bebidas, há 10 anos. Naquela época, desde o momento da entrevista até o momento da atuação na empresa, ela era a única mulher. “Quando eu cheguei na minha área, trabalhei na área de automação lá, eram sete pessoas e só tinha eu de mulher”, relembra. Ela conta que apenas três anos depois que entrou outra mulher no mesmo setor em que ela trabalhou. 

Atualmente, aos 41 anos, Elisangela comanda uma equipe de 12 homens na BRF. Ela analisa que nos últimos anos houve um avanço, ainda que mínimo, na inserção das mulheres no mercado de trabalho tecnológico, porém acredita que ainda é preciso que mais mulheres ingressem no mercado. “Naquela época já era bem restrito, a mulher era minoria. E muito porque as mulheres não se interessavam tanto, hoje em dia eu vejo que tem mais mulheres [na TI], mas ainda acho que não melhorou como deveria”, avalia. 

Para Elisangela, uma das iniciativas que as empresas podem adotar para mudar esse cenário e atrair mais mulheres para cargos de tecnologia é o investimento em treinamentos para os funcionários, principalmente para aqueles que estão entrando agora no mercado de trabalho.

“Somos muito estigmatizadas”

A trajetória de Susana Florêncio na tecnologia começou um pouco antes de 2014, ano em que ela ingressou no curso de análise e desenvolvimento de sistemas. Até então, ela era auxiliar administrativa, mas sempre que possível conversava com os amigos do setor de TI sobre curiosidades ligadas à profissão. Com o incentivo de pessoas próximas ela iniciou os estudos na área tecnológica e atualmente, é analista de qualidade (QA – sigla em inglês para Quality Assurance). O profissional de QA é responsável por testar sistemas de computador e/ou aplicativos para verificar se eles estão funcionando da forma esperada e sem erros.  

Ainda nos primeiros anos na profissão, ela trabalhou em uma empresa de fornecimento de internet, onde vivenciou diversas experiências de preconceito de gênero. Ela relata que os homens que trabalhavam no mesmo espaço costumavam dizer que para uma mulher ser de TI ela ou era “feia” ou lésbica. “Então você imagina, trabalhando ali na área de suporte e ouvindo isso. A gente era julgada. Então quer dizer que a mulher para ser inteligente ela não pode ser bonita?”, questiona. 

Mesmo após sair da empresa antiga, Susana diz que é frequente ouvir críticas em rodas de conversa, vindas de homens, à qualidade do trabalho de mulheres apenas por essas profissionais serem mulheres. “Eu vejo que eles estigmatizam as mulheres. Esses dias, eu participei de um curso e senti uma grande dificuldade de falar. Eu era a única mulher no meio de um monte de homem. Eles pareciam que estavam em um bate-papo e eu tinha sempre que levantar a mão para ser ouvida”, relembra.

Para Susana, apesar do mercado de TI estar com uma demanda muito grande de mão de obra, há alguns problemas que precisam ser resolvidos a fim de trazer mais igualdade e, principalmente, diversidade. “O mercado de TI, apesar dele estar aquecido, em crescimento, é preciso abrir um pouco os olhos para ser humanizado”, aponta a analista de qualidade.

O estigma de quem pode ou não trabalhar com TI é algo enraizado na sociedade e também reflete no mercado de trabalho. Susana ressalta que é preciso acabar com esse preconceito contra as mulheres e com o público LGBTQIA+. “Tem que ter um crescimento [na contratação] de transexuais, tem que acabar as ‘piadinhas’ do público hétero com quem é homossexual”, diz

Desigualdade salarial entre homens e mulheres

De acordo com a pesquisa da Revelo “Pessoas Desenvolvedoras no Brasil em 2020”, há outro fator que implica na entrada e permanência de mulheres no mercado de trabalho tecnológico: a desigualdade salarial. Em 2020, os dados coletados pela Revelo mostram que os homens receberam em média 20% a mais que as mulheres. Em 2019, o percentual era de 15,8%. Neste mesmo ano, a média de salários oferecidos para mulheres era de R$ 5.200, e para homens é de R$ 6.200.

No gráfico abaixo é possível observar que com exceção de data scientist, product design, diretor de arte e publicidade e propaganda, todas as outras subcategorias têm salários mais baixos oferecidos a candidatas mulheres. As principais diferenças estão nos grupos de product owner (22,3%) e desenvolvimento mobile (20,1%).

Imagem: Gráfico do estudo “Desigualdade de Gênero As diferenças de tratamento entre gêneros no mercado tech”. 2019. Fonte: Revelo/Reprodução

Independente dos anos de experiência na profissão, a disparidade salarial se mantém.

Imagem: Gráfico do estudo “Desigualdade de Gênero As diferenças de tratamento entre gêneros no mercado tech”. 2019. Fonte: Revelo/Reprodução

Profissão do futuro

Há cerca de um ano, Elisangela Strangetti conta que começou a buscar mais conhecimento na área de ciências de dados. O interesse surgiu no mesmo período em que a empresa para qual ela presta serviços começou a investir mais nesse setor. “Eu trabalhava na área de analytics, e já estava procurando cursos para trabalhar na área de data science, e veio o convite da BRF para trabalhar no setor de data science, casou muito com o que eu queria”, relembra. 

Para Elisangela Strangepti, as empresas estão investindo muito no setor de dados, o que pode gerar uma demanda de profissionais para este setor.  “Acho que o futuro é isso, é data science. É você trabalhar com dados, com informação, que é o que move a companhia. A empresa vende, por exemplo, mas ela precisa da informação para saber como estão os resultados dela, o plano de ação que ela precisa fazer, as análises. Vale muito apena correr atrás para entrar nessa área”, aconselha.     

“Lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive na programação” 

Para quem deseja iniciar os estudos em alguma área da tecnologia, há alguns cursos virtuais que podem auxiliar quem está buscando mais informações ou se especializar em alguma área. A PrograMaria – empresa que organiza eventos com mentorias e oferece cursos com o intuito de contribuir para uma maior diversidade na tecnologia – disponibiliza cursos on-line de iniciação à programação voltados a todos que tenham interesse em aprender mais sobre o tema, conforme explica a jornalista tech da PrograMaria, Larissa Vitoriano.

“Nossa tripulação, forma como chamamos as turmas do curso online Eu ProgrAmo, e as astronautas, as pessoas participantes, são muito diversas e fazemos questão que sejam inclusivas e acolhedoras. Já formamos pessoas em todos os estados do Brasil e também no exterior”, diz. 

As aulas são totalmente on-line e ficam disponíveis para os alunos durante 28 dias. Por serem gravadas, os horários das aulas são definidos pelas próprias estudantes. “Há um time de pessoas mentoras que auxiliam as alunas, de forma com que a jornada rumo à programação seja facilitada e imersiva”, explica Larissa Vitoriano. 

Há três valores para o curso: o valor mínimo, R$ 74,90; o valor ideal R$ 104,90; e o de R$ 149,90 que, automaticamente, custeia uma bolsa 100% gratuita para outra pessoa. O aluno escolhe o valor e independente da quantia paga, o acesso ao conteúdo é o mesmo. Para aqueles estudantes que desejam fazer o curso, mas não podem arcar com os custos, a PrograMaria disponibiliza bolsas de 100%.  

“Na PrograMaria, acreditamos que a tecnologia deve ser cada vez mais diversa e inclusiva, e queremos garantir o acesso às nossas iniciativas por pessoas que sejam vítimas de opressões por condições de gênero, raça, sexualidade, deficiência, idade, classe socioeconômica, entre outros fatores e suas interseccionalidades. Por isso, oferecemos bolsas de estudo para pessoas que contemplam esses critérios, não tenham como arcar com os custos do curso e queiram aprender programação. Mulheres e pessoas de gênero não-heteronormativos, negras, indígenas, LGBT+, trans e travestis, e residentes de zonas periféricas: suas inscrições são mais que bem-vindas! A inscrição acontece através do nosso formulário para bolsas”, conta. 

Até o momento, mais de seis mil pessoas já participaram do curso Eu ProgrAmo. As inscrições para a última turma deste ano já encerraram, mas você pode acompanhar o PrograMaria nas redes sociais e ficar de olho nas datas de inscrições das próximas turmas.

“Mais mulheres tech” 

Além da PrograMaria, há outras plataformas que oferecem cursos em diversas áreas da tecnologia. O Regra dos Terços separou alguns sites de cursos voltados para inserção de mulheres em mais áreas das ciências exatas por meio de cursos, debates e palestras. 

  • Minas que Programa: fundado em 2015, o projeto oferece de forma gratuita cursos de introdução à programação, oficinas, treinamentos e debates, todos são gratuitos e ministrados por professoras e instrutoras mulheres; 
  • Cresça com o Google: mulheres na tecnologia: a iniciativa busca por meio de palestras on-line, apresentar oportunidades e dar dicas a quem está no setor da tecnologia. O programa é dividido em cinco partes: As oportunidades na área de tecnologia para elas; Mulheres na Tecnologia: quebrando estereótipos; Processo seletivo: como aplicar em vagas de tecnologia; Por onde começar a minha carreira; e A tecnologia a favor da produtividade;
  • Mulheres na Tecnologia: carreira, capacitação e empregabilidade: com o objetivo de capacitar mais de 100 mil mulheres em todo o país, a Microsoft em parceria com a WoMakersCode, comunidade de tecnologia formada por mulheres, lançou a plataforma MaisMulheres.Tech. Por lá é possível acessar seis trilhas de capacitação gratuitas e on-line, nas áreas de computação em nuvem, infraestrutura, segurança da informação, DevOps, desenvolvimento,  ciência de dados e inteligência artificial;
  • Udemy: é uma plataforma de cursos on-line que fornece aulas em diversas áreas do conhecimento, dentre elas, em TI.

Regra dos Terços

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