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Não tenha medo da solidão

Não tenha medo da solidão

Schopenhauer ao enaltecer o amor à solidão talvez não cogitasse que essa é uma relação ambígua. No meu caso, seu dito famoso de “quem não ama a solidão, também não ama a liberdade”, pode até ser verdade. Eu amo a solidão que me gera liberdade, mas minha história é munida de muitos abandonos e lutos, o que me fez sempre pensar: será que não é meio injusto comigo?

Depois do falecimento da minha avó, eu fiquei me perguntando se é normal uma pessoa com 30 anos não ter mais ninguém da família de base: pai, mãe e possíveis irmãos. Hoje, se minha família fosse aquela de propaganda de margarina, só estaria eu e meu irmão dividindo o café da manhã. Meu pai morreu quando eu tinha 17 anos, minha mãe não tem contato comigo e todos os meus avós agora são falecidos. Claro, eu tenho uma família enorme por parte de pai, que jamais irá me abandonar ou virar as costas, mas eu penso naquela família nuclear, que era composta por mim, vó e Mano. Agora, sou eu e o Mano, e a gente sabe que a vida do meu irmão não pode se condicionar à minha e vice-versa. Ainda sobre o Mano, vale lembrar que ele também perdeu uma avó e, caso você me leia há algum tempo, não era uma “avó”, era A vó. Ou seja, somos dois jovens enfrentando o luto, cada um de sua maneira, mas ainda assim, sem nosso pai. Meu irmão ainda tem a mãe dele que, diga-se de passagem, é maravilhosa. Contudo, nós demos a mão um para o outro e a gente prometeu ficar juntos.

Eu confio no meu irmão. Confio mesmo.

Mas aí, obviamente, a gente cai num machismo básico de muitos me perguntarem se eu irei me casar agora. Afinal, eu estou “sozinha”. E eu volto a me impressionar com a humanidade – coisa que, segundo minha avó, é muito comum – ao ver que as pessoas condicionam as relações em seu medo de ficarem sozinhas. Um medo que muitos acham que é incontrolável, mas acreditem, ele é totalmente compreensível e dominável. Por mais que eu tenha feito ali uma crítica e até questionado o universo sobre ser justo eu, jovem, já ter perdido quase todos os membros da família de base, ainda assim, não tenho medo da solidão. Até porque, eu já convivo com ela há muito tempo. Muito tempo mesmo. Aos 30 anos, apesar de não ter um colo de pai para me socorrer ou uma mãe para me acalentar nesse momento, eu acho que minha avó criou a mulher que ela queria. Uma mulher livre.

Hoje eu tenho o mundo ao meu redor e infinitas possibilidades que eu analiso e cogito, repenso, volto, paro. São apenas 21 dias de luto. Para uma história de amor de 30 anos, é pouquíssimo tempo. Ainda preciso avaliar meus caminhos e me encontrar de novo. E nada disso pode ser feito por ninguém além de mim. Sou imensamente grata ao apoio de amigos e família, das pessoas que eu amo e estão comigo o tempo todo. Mas existe uma parte que é minha, que ninguém consegue tocar e que só eu posso definir, ressignificar, restaurar e talvez curar. Sim, talvez curar. Há feridas que nos acompanham a vida toda e reconhecê-las é um modo de aprender a dominá-las.

Por isso, volto ao ponto de me casar, e digo que esta não é a minha primeira opção e talvez não esteja no top 10 da lista, simplesmente porque eu não acho justo jogar em alguém a responsabilidade de suprir um possível medo de ficar sozinha. Medo este que, repito, não tenho. Tampouco posso me casar ou morar junto com alguém, correndo o risco de nos questionarmos para sempre se foi amor ou foi conveniência. Não me sujeitaria ao momento de ter que refletir duas vezes se fiz a coisa certa. Eu não sou assim, nunca fui e não vai ser agora que eu irei decepcionar minha avó tomando decisões irracionais. Ela detestaria.

Sigo aqui, vezes chorando e vezes respirando fundo com a consciência que é difícil seguir sem os olhos de dona Maria que ficavam azuis e depois verdes, nunca soubemos explicar. É difícil não ver ela fazendo piada do amor, da crise, do Bolsonaro. São 50mg de sertralina pela manhã e um bocado de café que aquece essa sensação de que logo ela volta. Não volta. Sigo aqui amando a solidão e ao mesmo tempo a liberdade que ela sempre me disse que não tinha preço. Não tem mesmo, não tem nada que me faça trocar a liberdade de poder escolher meu destino.

Por fim, sigo aqui tentando manter a promessa que fiz à ela durante toda a vida: não recuarei, vou me cuidar, vou cuidar de nós. Prometo.

Eline Carrano

Jornalista por profissão, cronista por opção e neta coruja. Escrevo porque preciso justificar as ansiedades que o tarja-preta não dá conta.

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