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NEM SÓ DE HÉTERO VIVE A HISTÓRIA

NEM SÓ DE HÉTERO VIVE A HISTÓRIA

Olá querides leitores e leitoras desse nosso Brasil plural e diverso. Hoje vamos inaugurar uma série de episódios que relatam a importância de personalidades LGBTQIA+ em todas as áreas profissionais e históricas. Há relatos de personagens em diversos âmbitos da história da humanidade, então vamos dar visibilidade a estes que também tiveram seu papel de importância, mas que quase ninguém lembra.

ALAN TURING (1912-1954)

Foto: Divulgação super interessante

Matemático e cientista da computação, Alan Mathison Turing também foi filósofo e biólogo teórico britânico. Considerado o pai da ciência da computação, o jovem britânico nunca foi reconhecido em seu país de origem unicamente por ser homossexual. Isso mesmo que você está lendo, independente da importância e relevância que ele teve na história, o fato de ser homossexual virou motivo suficiente para que ele fosse praticamente esquecido.

Turing desempenhou um papel crucial na quebra de mensagens codificadas interceptadas que permitiram aos Aliados derrotar os nazistas em compromissos cruciais, na segunda guerra mundial. Após este período ele trabalhou na área de mecanismos de computação automática, o que o levou a projetar um primeiro protótipo de computador de programa armazenado.

Alan formou uma amizade significativa com um colega chamado Christopher Morcon que foi descrito como o “primeiro amor” de Turing. O relacionamento deles inspirou todos os empreendimentos futuros de Turing, porém com a morte de Morcom em 1930 por complicações de uma tuberculose bovina, os projetos foram deixados em segundo plano. Mas para lidar melhor com essa dor ele resolveu trabalhar ainda mais com os tópicos de ciência e matemática.

Em uma carta para a mãe de Morcom, Frances Isobel Morcom, Turing escreveu: “Tenho certeza de que não poderia ter encontrado em lugar nenhum outro companheiro tão brilhantee, ao mesmo tempo, tão charmoso. Eu sei que devo colocar muita energia e interesse pelo meu trabalho como se ele estivesse vivo, porque é isso que ele gostaria que eu fizesse”

No período de setembro de 1936 a julho de 1938, Alan passou a maior parte do tempo estudando na Igreja da universidade de Princeton, em seu segundo ano como bolsista. Além de seu trabalho matemático, ele estudou criptologia e  também construiu três dos quatro estágios de um multiplicador binário eletromecânico.

Ele executou seu primeiro programa em 10 de maio de 1950 e vários computadores posteriores até hoje devem muito a ele. Em 1941, Turing propôs o casamento com Joan Clarke, matemática e criptoanalista, mas o noivado durou pouco. Depois de admitir a sua homossexualidade à noiva, que teria ficado abalada pela revelação, Alan decidiu que não poderia continuar com o casamento.

Naquela época, assumir sua orientação sexual nada heteronormativa era crime e Turing ainda sofreria diversas punições por ser quem ele era. Em 1952 Turing, com 39 anos, iniciou um relacionamento com Arnold Murray, um homem desempregado de 19 anos. Pouco antes do Natal, Alan estava caminhando quando conheceu Murray nos arredores do Regal e o convidou para almoçar.

Em 23 de janeiro do mesmo ano, a casa de Turing foi assaltada. Murray disse então a Alan que conhecia o ladrão, que denunciou o crime à polícia. Durante a investigação, ele reconheceu um relacionamento sexual com Murray e isso culminou na sua condenação pelos atos de indecência grosseira, ele teve de fazer uma escolha entre prisão ou liberdade condicional, onde teria que se submeter a uma espécie de castração química com injeção de hormônios para diminuir a libido.

Ele aceitou a opção de injeções do que era então chamado estilbestrol, um estrogênio sintético, que ele utilizou por cerca de um ano deixando o totalmente impotente sexual.

No dia 8 de junho de 1954 a governanta de Turing encontrou-o morto, ele havia morrido no dia anterior e a causa da morte foi estabelecida como intoxicação por cianeto. Há diversas teorias da conspiração sobre sua morte, desde suicídio a perseguição comunista por ser de homossexual e ter trabalhado sempre em serviços ultra secretos e considerado por muitos um espião dentro da Europa. De fato sua condenação por práticas homossexuais foi o que levou Alan Turing a um estágio de extrema degradação pessoal.

Ser condenado por ser quem é, e de nada importar sua história e contribuição efetiva para o progresso de sua nação, levou Turing diretamente para o buraco de onde não saiu mais. Somente em  2009 houve uma petição oficial para que ele fosse inocentado de sua condenação e reconhecido formalmente como pai da computação antiga e atual.

Em setembro de 2016 o governo britânico anunciou a intenção de expandir essa exoneração retroativa para outros homens condenados por crimes semelhantes de indecência histórica, no que foi descrito como “Lei de Alan Turing”

Sabemos que até hoje toda e qualquer importância que se dê para o trabalho de um LGBTQIA+ é duramente questionável, naquela época Alan era o maior gênio do século, com diversas habilidades e sempre estando ao lado da sua nação nos serviços diretos da Pátria Britânica. Em troca, o condenaram por ser quem ele era, deixaram que um gênio morresse à mingua por ser quem nasceu pra ser.

 É reflexivo que pensemos à respeito disso, não somente para dar visibilidade e voz a estas histórias, mas também para mostrarmos que de fato não é a sua, a minha e a nossa orientação sexual que deveria importar, mas o caráter e singularidade de sermos quem verdadeiramente somos, por isso vamos relatar muitos outros casos nesta nossa série semanal, porque nós LGBTQIA+ somos muito mais do que siglas.

Até mais.

Jhey Borges

Jenifer Borges, publicitária, colunista e ativista das causas das mulheres, negros, jovens e LGBTQIA+, escrever é um ato político desde que suas palavras sejam condizentes com igualdade social e sua própria índole

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