NINGUÉM PRECISA (E NEM DEVERIA) SABER SOBRE TUDO

As duas últimas semanas me ensinaram algumas coisas que eu creio que irei levar como aprendizado de vida. E escrever sobre esses dias pode ser um caminho de organizá-las na minha mente e pode me ajudar na terapia da semana que vem.

Tivemos a perseguição ao serial killer, Lázaro Barbosa, que não vai ser esquecida tão cedo e nós estamos aqui ansiosos pelo documentário da Netflix. Teve CPI da Pandemia que nos fez aprender o que significa “prevaricação”, que trouxe de volta ao vocabulário cotidiano a palavra “propina” e, mais do que nunca, a gente se viu obrigado a aprender de uma vez por todas a palavra IMPEACHMENT, porque, né? Será que agora vai? Sigo ansiosa agora pelo documentário da Petra Costa no melhor estilo “Democracia em vertigem” e não espero menos do que aquela obra prima. Além disso, as demandas cotidianas de cobrir as tantas mil coisas que acontecem nesse Brasil, nas pautas ambientais que vão passando igual uma boiada (oi Ricardo Salles, turubom?), nas declarações do presidente da República e assim por diante.

A minha sorte é de ter uma jornalista 100 mil anos luz melhor do que eu como colega e melhor amiga e que, felizmente, tem muito mais talento do que eu em tudo isso. Até porque, já diria alguém, eu sou jornalista de mentirinha: assessora de imprensa que volta e meia solta um texto meia boca por aí. Ok.

Mas não é sobre nada disso que eu quero falar. Mas também quero. Eu preciso desabafar que: simplesmente não dá para acompanhar! A vida está num ritmo que só com boas doses de vitamina C e cafeína no sangue para conseguir dar conta de tudo. E olha, ainda por cima tem duas cobranças que eu acho simplesmente violentas. Primeiro: você precisa saber tudo o que está acontecendo. Segundo: você tem que ter uma opinião sobre tudo o que está acontecendo. Essas duas exigências também nos colocam diante de uma cobrança pessoal: será que eu tenho razão em tudo isso que eu acho e será que tudo isso que está acontecendo, está acontecendo como eu vejo mesmo?

Aí vem a aquela famosa pergunta: como assim você não leu sobre isso? Não assistiu sobre isso? Não tem uma opinião formada sobre isso? Você deveria falar mais sobre aquilo… sabia?

Sabia.

E essas duas semanas me despertaram essa consciência de que eu queria muito mesmo ter uma opinião concreta sobre tudo, saber sobre tudo, falar sobre tudo e ver tudo. Mas é que, infelizmente, o dia tem 24h. Entre as 8h que eu trabalho, as 8h que eu deveria dormir (risos, não tem como), somado ao tempo que tento dedicar aos meus projetos paralelos e, sei lá, 2h que eu teria de “lazer” (ou seja, comer e tomar um banho decente), não cabe mais tempo para que eu possa suprir a necessidade de algumas pessoas de me cobrarem como pessoa, ou como comunicadora, a função de uma máquina de opiniões que lhes agradem. Até porque, eu raramente agrado alguém com as minhas opiniões, diga-se de passagem.

E nessa saga de conseguir dar conta de tudo e saber sobre tudo e ter uma opinião sobre tudo, a gente acaba não sabendo de nada, não entendendo nada e não conseguindo ver a vida como ela é. Porque a vida é sobre o tempo.

Então, esse texto é só para dizer que a gente não precisa estar tão antenado assim, ok? Tudo bem você não saber o que é cringe, qual empresa o Elon Musk é presidente ou se há probabilidade do ser humano evoluir a ponto de ser biônico. Não tem problema. Tá tudo bem a gente saber o básico, conseguir conversar medianamente e saber mais sobre o que a gente gosta do que a gente deveria gostar. Tudo bem você entender todos os episódios de Star Wars e não ter certeza do partido qual o Randolfe pertence. Ok?

Só o que você não pode é acreditar que está tudo bem com a saúde pública e que a vida vai voltar algum dia a ser normal, porque não vai. Você não precisa saber os crimes que o Bolsonaro é acusado, não tem problema. Mas você precisa saber que ele matou mais de 200 mil vidas por negligência. E, conforme a vida vai passando, você vai aprendendo com ela e com os seus ciclos. Vai criando consciência coletiva, porque evoluir é sobre isso. É muito bom não saber tudo, para ser sincera. Porque isso nos permite aprender com o outro sobre coisas muito preciosas. Saber tudo só faz com que as pessoas se tornem mesquinhas e pedantes, na verdade. Elas se tornam irredutíveis e autorreferenciais, a ponto de acharem que ninguém chegará ao seu nível. Pessoas assim ferem e não sabem nada do que é amor.

Então, é isso, não quero saber tudo, porque não quero correr o risco de um dia nunca mais me permitir aprender algo novo com alguém. Eu acho que esse texto é sobre se respeitar um pouco mais, sobre se permitir ver mais filmes e desenhos no lugar de tantas notícias tristes. É coisa demais mesmo, não dá para levar tudo assim na cara e na coragem e sem um pouco de floral de Bach debaixo da língua.

Então, talvez eu não tenha uma opinião formada sobre algumas coisas importantes na sociedade, mas das poucas certezas que eu tenho, uma delas eu aprendi nessas duas semanas: eu não preciso saber tudo, por mais que eu quisesse. E tá tudo bem. Sempre vai ter alguém 100 mil anos luz melhor do que eu como colega de trabalho e que, felizmente, tem muito mais talento do que eu em tudo isso.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: