O QUE AINDA FALTA ESCLARECER SOBRE O CASO LÁZARO?

Após 20 dias de buscas pelo assassino Lázaro Barbosa, 32 anos, nesta manhã de segunda-feira (28) o governador do Estado de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), anunciou por meio das redes sociais a, até então, prisão de Lázaro pela polícia em Águas Lindas de Goiás (GO). A morte do criminoso foi anunciada minutos depois que ele foi enviado ao hospital da cidade. Mas o caso ainda tem muitas pontas soltas que precisam ser esclarecidas.

Lázaro Barbosa é dono de uma longa ficha criminal contendo assassinatos, sequestros, estupros e roubos. A caçada contra o criminoso, que contabiliza crimes desde de 2007 e já fugiu de três presídios, se intensificou no início deste mês após ele ser apontado como autor de uma chacina em Ceilândia (DF).  

Reprodução/PMDF

Em 9 de junho, ele invadiu uma chácara no Incra 9, em Ceilândia, manteve em cativeiro e matou quatro pessoas da mesma família: Cláudio Vidal, 48 anos, e os dois filhos, Carlos Eduardo Vidal, 15 anos, e Gustavo Vidal, de 21. A mãe e esposa, Cleonice Marques de Andrade, 43, foi sequestrada e encontrada morta no Córrego da Cascalheira entre a BR-070 e a DF-180.

Ao longo de 20 dias, policiais civis e militares do Distrito Federal e de Goiás se mobilizaram nas buscas com o auxílio de câmeras de sensor de movimento, helicópteros e cães farejadores. As investigações começaram na cidade de Cocalzinho (GO) e mudaram de ponto algumas vezes após denúncias de moradores que afirmaram terem visto Lázaro nas redondezas do distrito de Girassol (GO).  

O que se sabe até o momento sobre o caso Lázaro?

De acordo com o governador Ronaldo Caiado, em entrevista à GloboNews, a captura de Lázaro foi feita por agentes da Secretaria da Casa Militar do Governo do Estado de Goiás. O criminoso foi baleado em troca de tiros com policiais em Águas Lindas de Goiás, mas morreu antes de chegar ao hospital da cidade.

Caiado também afirmou que foram encontrados no bolso de Lázaro R$ 4.400, o que indica possível tentativa de fuga. Em coletiva de imprensa, o secretário de Segurança Pública do Estado de Goiás, Rodney Miranda, disse que Lázaro havia visitado a ex-sogra e a ex-esposa. “Ele foi para se encontrar com elas [ex-esposa e ex-sogra]. Nós estávamos monitorando e tentamos pegá-lo ali. Ele chegou a ameaçar policiais e dizer que se fossem atrás dele na mata iria dar tiro na cara”, disse o secretário. O confronto aconteceu na mata. Segundo Miranda, Lázaro “descarregou uma pistola contra os policiais”. 

O que acontece a partir de agora? 

A morte de Lázaro Barbosa não significa o fim das investigações e sim, o começo de muitos questionamentos ainda sem respostas. Cássio Thyone, membro do conselho do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e perito criminal da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) aposentado, explica que agora, após esse desfecho, é preciso uma averiguação para entender como se deu o confronto que resultou na morte do acusado. 

“Primeiro que tem que haver uma transparência em relação a tudo que tem sido dito que envolve a própria morte do Lázaro, porque, por exemplo, é preciso construir toda uma tese probatória para sustentar a declaração que foram feitas [sobre o confronto]”, diz o conselheiro. 

Em coletiva de imprensa, o secretário de Segurança Pública, Rodney Miranda, afirmou que Lázaro atirou nos agentes e que os policiais revidaram a ação. Thyone explica que é preciso uma investigação na arma utilizada pelo criminoso. “Essa arma tem que passar primeiro pela apreensão; depois é encaminhada para a perícia e depois para a balística. Tem que ser feito nessa arma o exame de eficiência e depois, se tiver algum elemento que possa confrontar os projéteis da arma contra os projéteis do estojo, você vai fazer confronto balístico. Isso são as provas técnicas”, detalha. 

Thyone pontua que antes das declarações que estão sendo feitas é preciso que haja uma apuração e análise de todos os acontecimentos. Além dos exames na arma, outros materiais encontrados com Lázaro também precisam ser periciados e isso inclui a quantia em dinheiro encontrada no bolso dele e as roupas que ele usava.       

“Tem um vídeo em que aparentemente Lázaro, não sei se é ele, foi capturado por uma câmera de segurança, de chapéu e vestindo um agasalho. O agasalho com o qual o corpo chega na ambulância parece o mesmo que o da imagem, só que tem um detalhe: ele está vestindo um agasalho da Polícia Militar do Distrito Federal. Ele também está com uma roupa camuflada por baixo do agasalho, como a gente vê no vídeo”, diz. 

De onde veio o dinheiro que estava com Lázaro?

Para o conselheiro, é preciso investigar a origem dos materiais encontrados com Lázaro. “Ora, esse valor monetário encontrado com ele é estranho. Se ele não foi objeto de um furto ou de um furto ou roubo nessas invasões dele, isso é muito esquisito”, desconfia Thyone. Durante esse tempo de fuga, foi descoberto que Lázaro estava com um telefone celular e que, inclusive, criou um perfil falso em uma rede social. Thyone chama atenção para este fato, para ele isso pode ter contribuído para que a polícia tenha chegado a Lázaro.   

Thyone explica que a morte do Lázaro esgota as investigações da autoria dos crimes que são atribuídos a ele, como a chacina da família em Ceilândia. No entanto, as buscas agora voltam-se para quem estava contribuindo para a fuga e quem pode estar por trás desses crimes, já que a polícia aponta a existência de uma rede de apoio. “Se por trás da morte da família na chácara houver uma motivação que não for exclusiva do Lázaro?”, questiona o consultor.    

Durante as duas semanas de caça ao Lázaro, a polícia encontrou pelo caminho alguns rastros que poderiam ser de Lázaro. Um deles foi uma carta supostamente escrita pelo assassino em folhas de caderno e deixada junto com uma mochila em uma residência de Águas Lindas de Goiás. 

Nos escritos, há relatos da infância e da vida no interior da Bahia, estado de origem de Lázaro. Thyone, ex-perito criminal da PCDF, conta que há formas da perícia analisar se a caligrafia é a mesma do acusado. “Ele não ficou preso um tempo na Papuda [Complexo penitenciário localizado no Distrito Federal]? Será que não tem nada escrito dele lá para confrontar? Isso pode, poderia, ser buscado pela polícia para confrontar com o grafismo da carta eventualmente atribuída a ele”, analisa.     

O ex-perito criminal explica que agora é possível coletar amostras de sangue e digitais e confrontar com provas encontradas pela polícia em algumas residências. O corpo de Lázaro chegou ao Instituto Médico Legal (IML) de Goiânia (GO) no início desta tarde. 

Investigações e possível rede de apoio

Na última semana, a polícia prendeu o proprietário da Fazenda Caetano, localizada em Girassol (GO), Elmi Caetano Evangelista, e o caseiro do local Alain Reis de Santana, acusados de ajudar Lázaro na fuga. A prisão deu um novo rumo nas apurações e apresentou uma nova dúvida, a participação de Lázaro em uma organização criminosa da região. 

Alain Reis, após a audiência de custódia, foi solto e começou a ajudar a polícia na procura por Lázaro. Segundo o caseiro, o fugitivo tinha livre acesso a casa da fazenda e permaneceu lá por cerca de cinco dias. Durante a estadia, Lázaro ameaçou Alain e a família caso ele denunciasse o criminoso à polícia. 

Em matéria publicada no jornal Correio Braziliense, Alain revelou que o patrão ordenou que ele não deixasse a polícia dormir e muito menos fizesse buscas na fazenda. No entanto, policiais estiveram na fazenda no mesmo momento que Lázaro estava lá, mas não o encontraram na ocasião. Por medo, Alain disse que não revelou aos agentes o que de fato estava acontecendo.  

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