O QUE É MAIS CRINGE DO QUE NÃO SER CRINGE?

Hoje me dei o trabalho de entender uma nova definição dessa máquina social progressiva que são os tempos que vivemos: o cringe.

Segundo algumas explicações que colhi nas redes sociais, o cringe é a mistura da pessoa que passa vergonha e é considerada velha pela geração Z. Velha no caso, eu, com 30 anos. Eu não vou usar os termos genZ, millenials e os afins, você dá um google aí e entende, porque eu vou direto ao assunto, porque eu simplesmente sou cringe e debato as coisas. Sabe? Eu passo a vergonha de divagar sobre as coisas que eu sinto e penso. Me julguem.

O cringe tem uma lista de coisas que supostamente faz e que as classificam como tal. Em um tweet de uma dessas pessoas que acham que sabem tudo da vida aos 18 anos (ou menos, ou 2 anos a mais), elas dizem que nós, os trintões (risos), estamos passando vergonha por: “Amar Disney, café, raça negra (nossa, esse é demais), não entender piada da gen z e por isso achar a gente tapado, Harry Potter, skinny jeans (uso as vezes mas acho vibes calça legging)”, segundo o tweet de uma filósofa contemporânea que eu optei por não expor.

Mas aí eu resolvi falar do ser não-cringe, né? Porque se a gente é cringe, eles não são:

O ser não-cringe vive num vale encantado onde não há fome, boletos, pandemia e nem a necessidade de flertar. Nasceram sem estômago e sem contas- essa última eu queria muito, não nego. Aglomeram para fazer dancinha no aplicativo de dancinhas, mesmo com mais de 500 mil mortes por covid-19. O não-cringe, esse ser iluminado, não sabe nada sobre a loucura que é você sair com R$20 no bolso e voltar bêbado de litrão, porque ele não toma litrão e não passa a vergonha de tomar cerveja. Cerveja, meus caros! A marca registrada do brasileiro e o alívio das mazelas da vida. Não tomam, é coisa de velho que passa vergonha.

Não se sentam no meio-fio da calçada com seu copo- pasmem geração Z- de PLÁSTICO, com aquele chopp geladinho e batem um papo com um amigo ou, pasmem de novo: NÃO PAQUERAM. Geração Z não dá aquela piscadinha e diz “e aí, cê vem sempre aqui?”, não mandam emoji- só se for por ironia, mas pelo visto não conhecem ironia- e eles tiraram o direito de rir de uma das melhores coisas dos últimos tempos: do vídeo da Pfizer! Mas você sabe o motivo dessa falta de amor ao vídeo da Pfizer? Porque obviamente eles não estão rindo (de desespero) da situação atual.

Tá passada?

A geração Z que critica o boleto que nós, os cringe assumidos, pagamos, não sabe o que é pagar uma conta/um código de barra/um o quê que eles chamam boleto, afinal? Eles não dão risada com “rs”, porque aparentemente existe um padrão de risos via escrita. Mas eles riem? De alguma coisa? Eles vivem além do padrão de uma geração que é sobre o presente, com a confiança de que não ficaram defasados em algum momento? Aguardo respostas.

Essa geração não teria emocional para receber as críticas que fazem e não têm história para sustentar um futuro, porque simplesmente não tomam café. Café, meus caros, o líquido sagrado de qualquer pessoa que precisa trabalhar 12/13 horas por dia. O que não é o caso deles, obviamente.

O não-cringe também não aceita quem não sabe mexer no celular, ok? Então, eu, que não me submeti à vergonha pública de usar um tal aplicativo de dancinhas, coitada de mim… Claro, cringe. Bebo minha cerveja gelada e choro. Você e sua mãe que não sabem usar o zap- ah, não pode falar zap também, tá? – não se encaixam na geração z super antenada e que domina a tecnologia do mundo inteiro. Mas aí, eu achei o ápice do não-cringe: a roupa monocromática. E eu até gostei, porque eu adoro usar preto 100% no look. Porém, se usar um pontinho de cor, hummmm, cringe. Sinto muito. Combinações com duas cores no mesmo look? Jamais, seu idoso, vai tomar um dorflex pro ciático e sai da roda da gen z.

O não-cringe não usa bolsa passada pela cabeça, ou seja, é roubado. O não-cringe não tem fotos de corpo inteiro, então ele nunca vai passar pelo trauma de comparar seu corpo de 10 anos atrás- até porque eles eram bebês- com o corpo que enfrentou a vida e chegou aos 30 anos com cicatrizes, celulite e sinais de história. Não gostam da Disney, não viram a Mulan salvar a China e não choraram na morte do Mufasa. Na roda do churrasco- se é que eles fazem/vão e comem churrasco- eles não cantam “cheia de manias, toda gostosa…”, nunca. Nem conhecem. Mas o k-pop que traduz a brasilidade do país, eles sabem decor.

O não-cringe nos colocou num quadradinho com pagodinho, cervejinha e café preto. A gente agora é old school porque gosta de jeans confortável e sapatilha de bico redondinho. Eu amo, confesso. E aí a gente ficou defasado, ultrapassado, em desuso, porque está acompanhando a CPI da Pandemia e vendo o Randolfe chamar os colegas de “senhor fake News” e “campeão de asneiras”- eu assisto comendo pipoca, confesso. Os cringe viraram o grupo mais legal que eu poderia ocupar, uma casa de Hogwarts só para nós, com a magia do boteco de litrão e com o Stitch ensinando o significado de Ohana.

Os não-cringe, por sua vez, não veem jornal, não sabem que a Pfizer poderia ter vacinado milhões de brasileiros e evitado o número absurdo de meio milhão de mortes por covid-19. De todas as definições de “cringe”, de vergonha alheia, eu não vi em nenhum momento a maior vergonha de todas que foi não responder mais de 50 e-mails de ofertas de vacina e superfaturar R$1,6 bilhões em contratos superfaturados na Covaxin. Ninguém comentou o quão cringe é ser machista, homofóbico e usar Deus como desculpa para ser um tremendo de um babaca. Ninguém falou que feminicídio, estupro e desigualdade, é cringe pra caramba e a gente vive isso bem antes dos anos 90 que eles tanto têm vergonha. Olha só, que coisa, né?

Assim, o que é mais cringe do que não ter noção da realidade atual e ficar preocupado com café da manhã alheio? Desconheço.

Cringe é não dizer: Fora Bolsonaro.

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