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O quinto mandamento

O quinto mandamento

Eu sempre me senti muito culpada sobre como eu não conseguia fazer o link emocional entre mim e meus pais. Sempre achei que o tal do quinto mandamento seria o grande responsável por eu não entrar no reino dos céus e acabar sendo queimada no fogo do inferno, porque eu não honrei meu pai e minha mãe.

Mas eu cresci e a vida foi me mostrando o quanto meus pais eram narcisistas. Uma das minhas maiores ilusões da vida aconteceu com meus pais. Olhando agora para meu passado, faz sentido algumas coisas que eu fiz durante a vida e as outras ilusões que eu alimentei. Eu sempre achei meu pai um artista muito criativo e um intelectual, mas agora vejo que ele tinha todo potencial para ser um Bolsonarista conspiracionista, que defende a família e bate na filha (no caso, eu apanhei muito mesmo). Quanto à minha mãe, acho que nunca me iludi muito. Mas por muito tempo eu carreguei dentro de mim a responsabilidade de salvá-la de si mesma, devido seus vícios e falta de vontade de fazer um tratamento anti drogas de verdade. Depois, entendi que ela ama a vida que leva e ninguém nunca irá tirar isso dela.

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Mas o momento em que eu mais me iludi não foi na infância, foi aos 25 anos. Eu tinha conseguido o emprego dos meus sonhos e estava indo morar em São Paulo sozinha. Era meu voo, meu momento de crescer realmente. Enquanto eu fazia as malas, minha avó me ajudando em tudo, sempre me apoiando… e então encontrei uma carta do meu pai. Era uma folha de blocos de anotações, com sua letra desenhada e de uma caligrafia inconfundível. Ele dizia algo sobre achar que nunca acreditou que alguém o superaria, mas sabia que os filhos poderiam fazer isso- e eu estava no caminho. O momento da carta tinha sido uns 12 anos antes, quando eu ganhei o campeonato estadual de xadrez. Na hora, relendo as linhas, achei que era um sinal. Meu pai amava SP e eu estava indo para lá, viver a minha nova história, que realmente foi muito marcante e dividiu a minha vida. Eu achava que era um recado, uma forma dele dizer que aprovava minhas escolhas, era ele se comunicando de outro plano. Eu chorei, me senti amada pela primeira vez pelo meu pai. Depois de morto, ele me amou. Que triste.

A vida passou, SP passou, voltei para casa da vó, vida nova de novo. Nós duas contra o mundo, vivendo uma fase super bacana, viajando e comendo o que a gente quisesse- e a parte de comer o que a gente quiser é uma conquista muito grande para quem passou anos e anos contando moedinha para poder comprar carne. Enfim. Semana passada encontrei a carta de novo, misturada com umas memórias que eu guardo em uma caixa. “Eu nunca achei que alguém me superaria”, diz a carta. Aos 25 anos eu ainda não tinha noção do quanto meu pai era machista, violento, cruel. Eu dizia “era o jeito dele amar, agredindo”. Imagine, acreditar que a violência é um modo de amor. Que bênção é o tempo. Um homem que acha que nunca pode ser superado é a coisa mais narcisista do planeta.

Usar o momento em que eu ganhava uma medalha de ouro em um esporte tão lindo como o xadrez para dizer o quanto ele era fabuloso e que, quem sabe um dia, eu pudesse chegar “ao nível dele”, hoje me soa como uma arrogância e auto referencialismo que me embrulha o estômago. Meu pai nunca olhou nada e nem ninguém além dele mesmo. E a dor, os traumas e toda a raiva dele eram maiores do que qualquer altruísmo, empatia e amor. Ele amava demais a si mesmo para conseguir amar mais alguém.

Depois de ver essa carta, comecei a pensar na minha mãe. As pessoas geralmente ficam meio em choque quando eu digo que eu optei por não falar mais com a minha mãe pelo fato dela ser uma pessoa manipuladora, tóxica e egoísta. Aí fica aquela coisa: não consigo ver o comportamento agressivo, narcisista e auto referencial do meu pai como algo bom. Não consigo ver minha mãe com seus vícios, ironia e mentiras sociopatas como algo bom. E eu virei o que? Uma pessoa livre, emancipada. A única pessoa que eu realmente admiro e almejo ser parecida (nunca conseguirei realmente chegar ao nível dela) é a minha avó. Minha avó tem medo de não conseguir aprender coisas novas, mas vai lá, tenta e consegue. Minha avó já me perguntou se ela estava obsoleta por causa da idade, mas ela jamais conseguiria ser obsoleta, porque todos os dias ela tem uma nova concepção sobre a vida. Enquanto meus pais se acham- no caso do meu pai, se achava- o centro do universo, minha avó tem a filosofia de que a gente precisa ser o melhor para o mundo, porque o mundo é uma casa coletiva.

E o quinto mandamento foi ficando mais forte. Porque eu não somente me desprendi das violências dos meus pais. Eu me tornei uma pessoa muito diferente deles. Dos meus pecados, esse eu posso tirar da lista.

Eline Carrano

Jornalista por profissão, cronista por opção e neta coruja. Escrevo porque preciso justificar as ansiedades que o tarja-preta não dá conta.

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