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Operação destruiu 131 dragas de garimpo ilegal no Rio Madeira; Mourão diz que criminosos já foram dispersados

Operação destruiu 131 dragas de garimpo ilegal no Rio Madeira; Mourão diz que criminosos já foram dispersados
Foto: Greenpeace

A Operação Uiara, da Polícia Federal (PF), destruiu 131 dragas usadas pelo garimpo ilegal no Rio Madeira, no Amazonas. Três pessoas foram presas na operação, que teve apoio do Ibama e da Marinha e foi realizada depois de centenas de garimpeiros ilegais invadirem o rio em busca de ouro. Nesta segunda-feira (29), o vice-presidente Hamilton Mourão afirmou que o garimpo no Rio Madeira “já foi devidamente dispersado”.

“O garimpo já foi devidamente dispersado, vamos dizer assim. Mas tem que manter vigilância constante, porque tem ouro lá. Se não houver vigilância constante, o pessoal volta”, disse Mourão. “Tinha que ter feito da forma como foi. Quem está ilegal, tem que ter equipamento destruído ou apreendido”, acrescentou o vice-presidente.

Em nota, a Associação Nacional de Servidores da Carreira de Especialista de Meio Ambiente (Ascema Nacional) criticou a atuação de Mourão e das forças de segurança no episódio envolvendo o garimpo ilegal.

“As dragas do Rio Madeira começaram a dispersar na sexta-feira (26), após a Polícia Federal (PF) informar que preparava uma operação contra os crimes por ele cometidos na região. Mesmo assim, parte deles, crentes na impunidade, continuaram na região. A Ascema também reforça que a atividade de fiscalização teria sido mais efetiva se os garimpeiros não tivessem sido alertados de sua iminência. O vice-presidente Hamilton Mourão chegou a dizer à imprensa que uma operação estava em ‘processo de planejamento’ para fiscalizar a atividade no Madeira. O anúncio deu tempo suficiente para que os criminosos com mais capacidade organizassem a fuga”, dizem os servidores ambientais.

Garimpo ilegal no Rio Madeira

A movimentação no Rio madeira começou há cerca de duas semanas, quando surgiu a informação de que haveria ouro na região. Áudios obtidos pelo jornal Estadão mostram um suposto garimpeiro falando em montar um “paredão” de balsas, com pessoas ao redor dos equipamentos, para reagir a qualquer tipo de abordagem para fiscalização. O grupo também ameaça órgãos de proteção ambiental, como o Ibama e o ICMBio.

Para obter ouro, as balsas e dragas revolvem o fundo rio, sugam o material para filtrar o ouro e devolvem a água em seguida. O processo é danoso ao meio ambiente e as atividades de exploração mineral naquela região não estão licenciadas, segundo o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam).

A Ascema Nacional também destaca o estrago causado pela contaminação por mercúrio, metal utilizado na busca pelo ouro. “Para obter ouro, as balsas e dragas utilizadas pelos garimpeiros revolvem o fundo do rio, sugam o material para filtrar o ouro e devolvem a água contaminada em seguida. O processo é danoso ao meio ambiente, causando inclusive exposição das comunidades próximas à região ao mercúrio, usado no processo de garimpo”, explicou a associação. “Por ser um metal altamente tóxico, o mercúrio causa danos graves e permanentes, como falta de atenção, alterações de linguagem, na coordenação motora e formigamentos. A intoxicação por mercúrio também pode causar perda de visão, doenças cardíacas entre outras debilidades”, completou.

O garimpo ilegal acontece de forma recorrente na região do Baixo Madeira até o estado de Rondônia. Em janeiro de 2021, Rondônia autorizou e regulamentou a prática em seu território, além de revogar um decreto que proibia a extração de minério no Rio Madeira, no trecho da divisa com o Amazonas, no qual a prática continua sendo ilegal.

Em agosto deste ano, a Justiça Federal condenou o Ipaam a anular diversas licenças concedidas de maneira irregular para a extração de ouro no Rio Madeira. A Justiça alegou falta de estudos que apresentem o impacto ambiental antes da concessão de autorizações, principalmente sobre os danos ambientais causados pelo uso de mercúrio nestas atividades.

Bolsonaro incentiva o garimpo ilegal

Segundo a Ascema Nacional e o Greenpeace Brasil, o discurso do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) incentiva a prática do garimpo ilegal no país. “Esse é mais um reflexo do discurso de Bolsonaro, que fala em legalizar o garimpo em áreas de preservação ambiental e em terras indígenas, incentivando a grilagem de terras e as atividades ilícitas nessas regiões”, diz a associação. A Ascema lembra que, em outubro, o presidente chegou a visitar a região de garimpo ilegal na terra indígena Raposa Serra do Sol, no município de Uiramutã, em Roraima. “Na ocasião, Bolsonaro defendeu a legalização do garimpo em terras indígenas. Trata-se de uma mensagem clara de apoio à criminalidade”, diz a nota. 

Na semana passada, o Greenpeace realizou um sobrevoo na região para analisar a situação. “O que vimos no sobrevoo é o desenrolar de um crime ocorrendo à luz do dia, sem o menor constrangimento. Isso tudo, óbvio, é referendado pelo presidente Bolsonaro, que dá licença política e moral para que os garimpeiros ajam dessa maneira”, declara Danicley Aguiar, porta-voz da campanha Amazônia do Greenpeace.

“Trata-se de um reflexo do discurso pró-garimpo e, portanto, pró-crime muito difundido pelo presidente Jair Bolsonaro, que ao invés de prezar pela legalidade viola sistematicamente a lei e persegue servidores públicos que buscam fazer seu trabalho”, denunciou ainda a Ascema Nacional.

Garimpo ilegal e tráfico de drogas

A Ascema Nacional também ressaltou as evidências de ligação entre o garimpo ilegal e o tráfico de drogas comandado por organizações criminosas, como o PCC. Segundo a associação, “já é público e notório o envolvimento de facções criminosas com o garimpo ilegal. Facções que têm como atividade principal o tráfico de drogas, como PCC, têm migrado para a atividade garimpeira”.

No início deste mês, uma reportagem do jornal O Globo revelou a presença de narcotraficantes nas terras indígenas dos Yanomamis, em Roraima, e dos Mundurukus, no Pará.  

“Há muito tempo estamos alertando autoridades do governo federal de que havia a incursão do crime organizado dentro das áreas garimpeiras”, disse o deputado federal Edio Lopes (PL-RR) em uma entrevista ao Correio Braziliense em maio deste ano. 

Eline Carrano

Jornalista por profissão, cronista por opção e neta coruja. Escrevo porque preciso justificar as ansiedades que o tarja-preta não dá conta.

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