fbpx

Falta de representatividade no Oscar: qual é a influência na cultura mundial?

Falta de representatividade no Oscar: qual é a influência na cultura mundial?
Imagem divulgação

Em 2016, o movimento #OscarSoWhite evidenciou a falta de representatividade negra no Oscar, principal premiação do cinema internacional há 94 anos. A discussão sobre a prevalência de atores e atrizes brancos, cisgêneros e heterossexuais entre os indicados ao prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood repercutiu na imprensa e na sociedade somente dois anos após Steve McQueen tornar-se o primeiro homem negro a ser premiado na categoria de Melhor Filme por ’12 Anos de Escravidão’, em 2014. Com mais de 90 anos de história, o Oscar precisou de movimentos e boicotes dos artistas para repensar os critérios de representatividade da premiação.

Na época, artistas negros como o cineasta Spike Lee e a atriz Jada Smith estimularam um boicote ao Oscar em suas redes sociais, posicionando-se publicamente contra as indicações de apenas atores brancos para a premiação da Academia pelo segundo ano consecutivo.”Como é possível que, pelo segundo ano seguido, todos os vinte candidatos na categoria de ator [melhor ator, melhor atriz, melhor ator coadjuvante e melhor atriz coadjuvante] sejam brancos?”, protestou Spike Lee em suas redes sociais.

Os protestos de Spike Lee, Jade Smith e outros artistas se justificam na composição da Academia: em 2016, 93% dos 6 mil membros do conselho da Academia eram brancos e 76%, homens. Considerando que o conselho é responsável por definir os indicados de cada categoria, fica clara a necessidade de estimular a pluralidade não só nas indicações, mas na própria equipe responsável pelo Oscar.

Como a falta de minorias no conselho do Oscar prejudica a diversidade na premiação?

Em 2015, menos de 30 dentre 305 filmes elegíveis ao Oscar foram dirigidos por mulheres, pessoas negras ou latinos. Caso a indústria cinematográfica acompanhasse a distribuição da população norte-americana, cerca de 45 longas deveriam ser dirigidos por negros, 152 por mulheres e 50 por latinos. A distância em relação à indústria do cinema é ainda maior para membros da comunidade LGBTQIAP+ e deficientes físicos, visto que ainda não existem estatísticas disponíveis sobre a participação ativa deles na Academia.

Em resposta aos protestos dos artistas, a Academia anunciou planos para dobrar o número de mulheres e outras minorias sociais entre seus membros, ainda em 2016. Para isso, foi preciso expandir o número de votos no pleito interno, alcançando 9 mil pessoas. No entanto, mesmo após a mobilização, a Academia permaneceu majoritariamente masculina (68% dos integrantes) e branca (84%).

Outra alteração foi o tempo de participação na Academia. Antes de 2015, a participação dos conselheiros era vitalícia; porém, a nova condição revoga os privilégios de voto caso o ator ou atriz permaneça dez anos sem trabalhar na indústria cinematográfica. O voto vitalício só é garantido aos atores que permanecerem ativos durante três auditorias, isto é, três períodos de uma década cada. 

No ano seguinte, ‘Moonlight’ tornou-se o primeiro filme com um elenco exclusivamente negro a vencer como Melhor Filme. Porém, o prêmio foi entregue por engano pelos apresentadores Warren Beatty e Faye Dunaway ao musical ‘La La Land – Cantando Estações’, devido à uma troca de envelopes feita pela produção do Oscar. O erro só foi percebido e anunciado após dois minutos de discurso da equipe de La La Land. 2019 foi o ano em que mais negros foram premiados no Oscar, com destaque para filmes como ‘Infiltrado na Klan’, ‘Green Book: O Guia’ e ‘Pantera Negra’. Além disso, foi apenas em 2020 que ‘Parasita’ tornou-se o primeiro filme fora da categoria ‘Internacional’ que venceu o Oscar de Melhor Filme.

História do Oscar é marcada pela reprodução de privilégios e padrões sociais no perfil dos indicados

A falta de representatividade do Oscar é sintomática e evidente. Até os anos 2000, 95% dos atores e atrizes indicados à premiação eram brancos e apenas 5% eram negros, latinos ou asiáticos. Desde sua estreia, em 1929, passaram-se 73 anos até que a primeira mulher negra ganhasse o Oscar de Melhor Atriz, quando Halle Berry foi premiada por sua atuação em ‘A Última Ceia’, em 2002. Em seu discurso, a atriz dedicou o prêmio a “toda mulher de cor sem nome e sem rosto que agora tem uma chance porque esta porta foi aberta hoje à noite”.

Ainda em 2002, o discurso de Halle Berry apontou diretamente para a necessidade de revisar e desconstruir o perfil de indicados e a imagem do Oscar. Porém, essa necessidade só veio à tona 14 anos após sua declaração. Em 2016, o ator George Clooney apontou a presença do racismo estrutural até mesmo na distribuição de papéis nos filmes. Das 34 mulheres negras indicadas ao prêmio de Melhor Atriz, 20 foram por papéis de escravas ou empregadas, representando quase dois terços das indicações.

Já na categoria de Melhor Direção, apenas sete mulheres foram indicadas até 2021, e apenas Kathryn Bigelow ganhou o prêmio, em 2010. Isso ocorre porque as indicações são feitas em blocos no conselho da Academia, isto é, só diretores indicam diretores e assim por diante. Por isso, enquanto não houver mais mulheres ou membros da comunidade LGBTQIAP+ nos 17 blocos que compoēm a Academia, o perfil dos indicados ao Oscar permanecerá majoritariamente masculino, branco, héterossexual e cisgênero. Por isso, em 2022, a Academia implementou novas regras de representatividade para os indicados ao prêmio de Melhor Filme, estabelecendo padrões que se tornarão obrigatórios a partir de 2024. 

Esses padrões obrigatórios incluem:  padrão A: representatividade de temas e narrativas na tela, com protagonistas, coadjuvantes e tramas com atores pertencentes a etnia grupo racial pouco representado (negro, nativo-americano, latino/hispânico, norte-africano, nativo havaiano, asiático, mulheres, LGBTQIAP+, grupos raciais ou étnicos e pessoas com deficiência); padrão B: liderança criativa e equipe do projeto diversa para criar conteúdos audiovisuais, incluindo posições de liderança e chefes de departamento; padrão C: quando a empresa responsável pelo filme ou documentário oferece oportunidades de emprego para grupos pouco representados, além de ampliar o acesso a esses espaços por meio de estágios remunerados aos profissionais em início de carreira; padrão D: quando os executivos das equipes de marketing, publicidade e distribuição devem fazer parte de grupos sociais pouco representados.

Letícia Fortes

Estudante de Jornalismo na PUCPR e estagiária do Regra. Escrevo para evidenciar e esclarecer assuntos que exigem nossa atenção, pois essa é minha forma de defender uma comunicação humanizada, acessível e engajada socialmente.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: