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600 mil mortos: Pandemia vai deixar cicatrizes físicas, psicológicas e econômicas

600 mil mortos: Pandemia vai deixar cicatrizes físicas, psicológicas e econômicas
Foto: Enriquelopezgarre|Pixabay

Em março de 2020 o Brasil se deparava com o desafio de evitar uma tragédia causada pela pandemia de coronavírus. Cerca de 15 meses depois do alerta gerado pelas primeiras infecções, alcançamos a marca de meio milhão de mortes por Covid-19. Agora, chegamos a 600 mil vidas perdidas para o vírus. Um desastre humanitário que vai deixar profundas cicatrizes físicas, psicológicas e econômicas, tanto individualmente quanto como nação. 

Desde o ano passado, o brasileiro se acostumou a normalizar números absurdos de mortes diárias por Covid-19. Em 15 meses de pandemia, o coronavírus já havia matado cinco vezes mais gente no Brasil do que dez anos de Guerra no Iraque. É como se praticamente a cidade inteira de Florianópolis, capital de Santa Catarina, que tem 508 milhões de habitantes, tivesse sido varrida do mapa entre março de 2020 e junho de 2021. Os bombardeios atômicos em Hiroshima e Nagasaki deixaram 214 mil mortos. Assim como os estragos causados pela bomba atômica, a Covid-19 vai deixar cicatrizes e efeitos colaterais a curto, médio e longo prazo. As sequelas físicas são apenas um exemplo disso. 

Foto: Enriquelopezgarre|Pixabay

A fisioterapeuta e pós-doutoranda em saúde pública, Lívia Pimenta Bonifácio, desenvolve um projeto no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto com pessoas curadas da Covid-19 e acompanha de perto as sequelas deixadas pela doença. 

“O que a gente percebeu é que mesmo depois de muito tempo eles ainda tinham sintomas que acabavam atrapalhando, limitando a vida desses pacientes”, conta. “Os principais [sintomas] que a gente vê são a fadiga, esse cansaço, essa falta de energia para suas atividades. Coisas que eles faziam com muita facilidade hoje em dia eles já não conseguem fazer com tanta facilidade. Em relação a parte respiratória, a dispneia, que é a falta de ar, ainda é um sintoma persistente, ou seja, para fazer uma atividade um pouco mais extenuante você já sente falta de ar, tem que interromper a atividade. A dor de cabeça também é um sintoma persistente nos pacientes e a perda de força muscular. Esses foram o que a gente viu que tiveram maior prevalência na amostra que estamos estudando”, completa a fisioterapeuta. 

O projeto Recovida fez uma análise preliminar com 175 pacientes recuperados da Covid-19 desde maio do ano passado. A média de idade dos pacientes é de 53 anos, segundo Bonifácio. 

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Ela ainda destaca que mesmo pacientes mais jovens, sem nenhuma comorbidade prévia, apresentam efeitos colaterais persistentes após a infecção por Covid. Entre as sequelas diagnosticadas pela equipe do projeto Recovida, estão inclusos problemas na visão. “Alguns pacientes relataram dificuldade para enxergar, um incômodo nos olhos, um embaçamento que aparecia ao longo do tempo, depois de uns três meses de acompanhamento”, afirma a fisioterapeuta.

Segundo Bonifácio, as sequelas da Covid-19 pegaram profissionais da saúde de surpresa, assim como a doença em si. “A gente viu uma evolução ao longo do tempo muito diferente, que a gente não estava acostumado. A gente achou ‘ah, vai ter um acometimento pulmonar importante e vai ser isso, depois que passar 60 dias ele vai estar bom’ e não era assim”, conta a fisioterapeuta. “A primeira coisa que a gente achou estranho foi relacionada a parte dermatológica, a perda de cabelo, ressecamento da pele. E agora, depois de mais tempo, os pacientes com mais de seis meses do início dos sintomas começaram a relatar os sintomas que a gente chama como brain foc, como se fosse um enevoamento. Eles relatam perda de memória recente, questões relacionadas à letargia, que é um raciocínio mais lento que o normal. A perda de concentração também é uma queixa. A própria dor de cabeça está relacionada a esse aspecto também. São esses o que a gente tem percebido”, completa. 

Pandemia também deixa marcas psicológicas

Além dos efeitos colaterais físicos, a Covid-19 também deixa marcas psicológicas em sobreviventes e em quem não adoeceu, mas perdeu amigos e familiares para o vírus. Os quadros psiquiátricos começam a aparecer nos ambulatórios clínicos. “Tem alguns casos descritos já relacionados a possível demência ou aspectos psicológicos, como depressão, ansiedade. Isso a gente está começando a perceber”, conta Bonifácio. 

“A gente tem percebido que o aspecto psicológico afeta muito. O próprio luto de companheiro, de pai, mãe, a estrutura familiar fica mexida”, diz a fisioterapeuta. “Isso é muito pesado”, completa. 

Além da perda de entes queridos, a Covid-19 nos fez encarar o luto de outra forma. Sem a possibilidade de velórios tradicionais, estamos nos despedindo das pessoas que amamos de forma abrupta e sem passar por rituais tradicionais, o que também nos afeta de alguma forma. 

A psicóloga Simone Lavorato, especialista em terapia cognitiva e comportamental e neuropsicóloga, já identificou os efeitos colaterais da Covid no consultório. “A gente já sabe que temos um aumento muito grande de pessoas que ficaram com saúde mental comprometida, sejam pessoas que passaram pela doença, sejam pessoas que tiveram parentes, amigos próximos, perderam muitas pessoas. Essas pessoas também estão passando por um adoecimento psíquico”, diz. 

“Temos dados que evidenciam que durante a pandemia aumentou muito a questão da depressão, a melancolia, assim como outros casos também, como a violência doméstica, separação”, diz a psicóloga. 

Em 2020, o Brasil registrou 105.821 denúncias de violência contra a mulher, segundo um relatório do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. O dado corresponde a cerca de 12 denúncias por hora. 

Uma pesquisa do Instituto Datafolha encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) mostrou que uma em cada quatro mulheres acima de 16 anos afirma ter sofrido algum tipo de violência no último ano no Brasil, durante a pandemia de Covid. Ou seja, 17 milhões de mulheres sofreram violência física, psicológica ou sexual no último ano. 

O número de divórcios durante a pandemia também aumentou. Um levantamento realizado pelo Colégio Notarial do Brasil (CNB) identificou um aumento de 15% no número de divórcios em 2020, se comparado a 2019. No total, foram 43.859 pedidos de dissolução matrimonial no ano passado, frente a 38.174 no período anterior. Para fins de comparação, desde 2010, o total de dissoluções matrimoniais em cartório apresentou crescimento médio de 1,6% ao ano.

Efeitos da pandemia em crianças

Apesar de não estarem imunes ao vírus, há poucos casos de crianças que contraíram Covid-19 e ficaram em estado grave. Mas isso não quer dizer que elas não sofram com os efeitos da pandemia. Um dos prejuízos para as gerações mais novas estará na socialização, segundo a Lavorato. 

“Muitas crianças que nasceram nesse período estão convivendo com a família, mas não tiveram ainda essa experiência de estar com outras crianças, de brincar com outras crianças. Com certeza isso vai afetar muito na qualidade de socialização dessas crianças. Elas vão ter outra visão acerca da interação”, diz a psicóloga. 

A demora na sociabilização, causada por mais de um ano de isolamento social durante a pandemia, pode trazer prejuízos. “Com certeza essas crianças vão passar por esse processo de integração com outras mais tardiamente. Muitas vezes pode acontecer delas perderem o tempo desse processo de interação e vai ficar mais difícil para essas crianças conseguirem estabelecer relações e desenvolverem competências socioemocionais que são essenciais, como por exemplo a empatia, a gestão de conflitos, o respeito à diversidade. Tudo isso a criança só aprende interagindo com outras”, ressalta. 

O economista Carlos Alberto Ramos ressalta que o fechamento das escolas também trará consequências a longo prazo. “As escolas teriam que ter continuado abertas o máximo possível. É uma inversão de prioridades ter aberto shoppings”, diz. “Você está penalizando as gerações futuras porque esse problema de educação de mais de um ano vai ter impactos no longo prazo”, completa. 

Obesidade digital

Outro efeito colateral da pandemia é o que Lavorato chama de obesidade digital. “A gente tem passado por um processo de desgaste tão grande que tem se utilizado um termo que é obesidade digital. As pessoas estão cansadas, estão utilizando em excesso a questão da tecnologia e isso acaba fazendo mal para essas pessoas. Essas pessoas precisam de uma dieta, deixar um pouco o digital de lado”, avalia. 

Com as medidas de isolamento social, muitos passaram a trabalhar em casa. Com isso, as reuniões de trabalho, o bate papo com os amigos e até jantares e encontros como aniversários passaram a ocorrer através de plataformas digitais. Essa rotina, segundo a psicóloga, causa um esgotamento e pode provocar mudanças profundas na sociedade. 

“Uma das coisas que a gente tem tentado estudar é como vão ficar essas relações a partir de agora. Será que as pessoas vão realmente se afastar umas das outras? Será que vai ter um esfriamento nas relações humanas, que a gente demorou tanto tempo para construir, para desenvolver? Essa é uma grande preocupação. E a tendência é se a gente continuar insistindo nesse mesmo modelo de exaustão por uso da tecnologia a gente vá se afastando cada vez mais das pessoas”, alerta. 

Além disso, há sobrecarga de trabalho em regimes de home office. Em um debate na Comissão de Trabalho, Administração e Serviço Público da Câmara, em maio, a representante do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Patrícia Toledo, apontou aumento na carga de trabalho. “70% dos trabalhadores afirmam que, em 2020 e 2021, estão trabalhando mais do que a jornada contratada. Existe aí uma tensão, inclusive, em manter o nível de rendimento diante dessas novas exigências, causando uma série de doenças”, afirmou.

“As pessoas começaram a achar que por estar em casa elas tinham a obrigação de 100% do tempo estarem produzindo ou estarem trabalhando”, diz Lavorato. “Assim como os chefes se achavam no direito de mandar whatsapp meia noite, de madrugada, sábado, domingo. Ou seja, nós entramos num ciclo vicioso em que você não separa mais o que é trabalho, o que é pessoal, o que é da família. Você está ali produzindo o tempo todo”, completa a psicóloga. 

Efeitos de longo prazo da pandemia

Ramos lista ainda efeitos que permanecerão mesmo depois da pandemia. “Os sistemas de saúde vão estar mais pressionados porque a Covid tem consequências sobre a saúde da população a longo prazo. Então você terá um sistema de saúde pressionado a longo prazo e demanda por recursos públicos e privados para o sistema de saúde”, exemplifica o economista. 

Além disso, Ramos reforça ainda que o Brasil pode enfrentar problemas como desemprego, aumento da pobreza e da desigualdade como consequências da pandemia. Junto com a queda do PIB tem aumento do desemprego, aumento da pobreza e, de alguma forma, o aumento da desigualdade”, explica. 

Mas Ramos ressalta que esses desafios não são novos para o Brasil e não podem ser atribuídos apenas à Covid-19. “Mesmo que você saia da crise pandêmica, o Brasil vai enfrentar problemas que já tinha em 2019. Você não pode atribuir a crise estrutural do Brasil à pandemia. A pandemia acentuou, inclusive não foi tão profundo o efeito econômico. Se você ver o nível de pobreza do país. Mas depois da pandemia vai voltar uma situação que tinha em 2019, de pobreza, desigualdade, falta de crescimento econômico, estagnação. Você vai enfrentar os velhos fantasmas brasileiros”, diz. 

*Colaborou Wanessa Alves e Eline Carrano

Kelli Kadanus

Kelli Kadanus, jornalista, cronista, tia coruja. Escrevo para tentar me entender e entender o mundo. É assim desde que aprendi a juntar sílabas. Sonho em mudar o mundo e as palavras são minha única arma disponível.

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