fbpx

PARE TUDO O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO E LIGUE PARA SEUS AVÓS

PARE TUDO O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO E LIGUE PARA SEUS AVÓS
Eline Carrano - Sonhos do Avesso

Hoje de manhã minha avó me disse a seguinte frase: “sabe, vó é coisa importante, até Jesus tinha uma…” E eu ri, obviamente, mas eu concordei. Vó (e avô) é coisa importante mesmo, coisa única, coisa rara. Então, eu começo minha coluna hoje dizendo: pare o que você está fazendo agora e, se você ainda tiver seus avós, ligue para eles. Mande uma flor, cartinha, bilhetinho, qualquer coisa, mas faça isso agora. Não somente porque hoje é Dia dos Avós, mas pela vida.

Em tempos de pandemia o índice de depressão em idosos aumentou cerca de 14%, segundo dados das pesquisas da Universidade de Chicago. O isolamento social provocou um aumento do risco de morte nas faixas etárias mais avançadas, pelo fato de que idosos geram em seu organismo a reação de estresse ao se sentirem solitários, o que reduz a produção de leucócitos que são responsáveis por defender os organismos de infecções. Além disso, se antes da pandemia idosos já sofriam com a solidão, agora a situação parece ter tomado uma projeção ainda maior.

Vó Maria

Essa pesquisa é muito coerente e, para mim, muito pessoal. Há alguns anos Dona Maria (ou Vó Maria se você for de casa) sofreu uma broncopneumonia que a deixou em coma por 12 dias. O motivo da doença foi início de depressão. Sim, minha avó ficou em coma com sintomas psicossomáticos de tristeza profunda, devido a morte de sua irmã. Eu lembro que nesta época, pela primeira vez, tive a noção de que a minha avó pudesse morrer. Existem pessoas no mundo que a gente nunca imagina que irão morrer um dia e, até então, minha avó era uma delas. Eu os chamo de “imorríveis”. Mas a gente é um acúmulo de fragilidades, no final das contas. E ela precisou passar por isso para entender que talvez não fosse preciso ela se manter sempre tão sólida perante a vida e que demonstrar suas fraquezas era um grande sinal de força. E eu precisei passar por isso para entender que era hora dela ter em quem repousar e pode ser mais acolhida, ao invés de só acolher. A doença que deixou ela perto da morte por tristeza, a transformou em um ser humano feliz e doce. O mais doce do mundo. Tá, talvez sejam as balinhas de goma que ela come o dia todo, mas ela é um docinho azedo que volta e meia solta um palavrão vendo a CPI da Pandemia.

Minha avó evoluiu para um nível de ser humano que eu me deslumbro todos os dias. Viu seu filho morrer, enfrentou todo tipo de machismo porque optou por ser uma mulher “juntada” com o marido e não “casada no papel”, como ela diz. Foi uma mulher que se doou e se doa até hoje por quem ama e até por quem não conhece. Ama Che Guevara, sonha em soltar uma bomba em algum lugar importante do mundo e adora armas de fogo e queimar matinho no quintal quando está entediada.

Eu sou expectadora da vida da Vó Maria, acho graça e beleza em todas as coisas que ela faz e todas as coisas que ela conquista diariamente. Porque aos 84 anos ela se permitiu aprender a conhecer novas comidas e mexer em smartphones, porque ela acredita fielmente que a gente precisa aprender todos os dias algo novo “para o cérebro da gente não ficar atrofiado e a gente acabar ficando burro”. Porque ela faz 1h de bicicleta ergométrica por ordem médica e tem os remédios organizados, porque ela quer viver. Ela quer viver bem e muito. Admiro a humildade dela de dizer que talvez não consiga fazer algo e me olhar nos olhos com uma pontinha de vergonha por entender que já não consegue fazer algumas coisinhas que fazia antes, mas tudo bem, ela sabe que tem gente ao redor sempre para protege-la e mimá-la. E nessas horas eu percebo que os olhinhos dela são verdes com azul e que ela tem insegurança e medo, sendo que eu sempre achei ela a pessoa mais forte do universo, e eu volta e meia digo “tá tudo bem, vó, eu também tenho medo às vezes” e ela diz “tudo bem, né?”. E tenho vontade de dar umas broncas vez ou outra- principalmente quando ela come 12 paçoquinhas vendo televisão e eu tenho que lembrar ela que o fato de não ter diabetes não a libera para comer todo açúcar do mundo.

Talvez eu memorize cada segundo da minha avó, porque eu não sei como vai ser a minha vida sem ela vindo na minha cama, meia-noite, perguntar o que é “perecível”, porque ela não pode dormir sem saber o significado da vida. E vou levar para sempre a pergunta que ela me fez quando voltou do coma: eu tenho problema de coração porque eu sofri demais? Pode ser, vó. Mas eu prometo que nunca mais você vai sofrer de novo se eu puder evitar.

Por isso, se eu posso aconselhar vocês de alguma coisa: amem e estejam com seus avós. A vida ainda não terminou para eles. Enquanto houver ar em seus pulmões, eles ainda estão descobrindo esse mundo maluco que a gente vive. Não os inutilizem como se eles fossem um objeto que perdeu a utilidade, não os menosprezem, não os deixem esquecer das suas capacidades. Eles são únicos, eles são gigantes e eles não são para sempre. Infelizmente. E se você não tiver mais seus avós, eu te dou outro conselho: ame-os mais ainda. Seja pra onde for que avós tenham que seguir depois que morrem, eu tenho certeza que eles sempre ficam olhando para nós e esperando esse amor emanar da gente. E, por fim, deixo o conselho diário da minha avó: toma um café que depois tudo se ajeita.

Feliz Dia!

Eline Carrano

Jornalista por profissão, cronista por opção e neta coruja. Escrevo porque preciso justificar as ansiedades que o tarja-preta não dá conta.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: