PAREM DE ROMANTIZAR HOMENS VIOLENTOS

Todos os anos, no Dia dos Pais, eu parabenizo minha avó. E sempre agradeço por ela ter me educado, alimentado, formado meu caráter e ter me ensinado o poder da liberdade e da autonomia. Agradeço por ela ter me ensinado como burlar o machismo do meu pai, que era filho dela, diga-se de passagem. Ela me ensinou a encarar de frente, levar minhas pancadas na vida e levantar mais forte, ela me moldou, me construiu.

Mas, apesar dela ser incrível e ter feito o papel triplo de pai, mãe e avó, ela ainda assim não é nem pai, nem mãe, mas sim, uma avó simplesmente foda (desculpe o palavrão, gente).

E mesmo que essa história pareça um conto de superação, eu acho que tenho a obrigação de tirar a capa de romantismo sobre pessoas que cresceram com pais traumáticos ou com a ausência deles. Meu pai era um homem ausente e agressivo. O pouco tempo que passávamos juntos gerou cicatrizes emocionais e físicas que me acompanhariam até hoje. Aos 30 anos, ainda tenho pesadelos e ele é razão das minhas terapias. Geralmente eu digo que sobrevivi ao meu pai, assim como todas as outras mulheres que foram agredidas e violentadas psicologicamente por ele.

É difícil reconhecer isso, não nego. Ainda mais porque existe um romantismo sobre isso e que me foi repetido a vida inteira: “ahhhhh você só é assim porque passou por tudo isso”, dizem. Mas a verdade é que nenhuma menina deveria aprender a duras penas como se impor em uma sociedade e nem deveria ter que apanhar para “aprender” algo. “Puxa, esse era o jeito dele demonstrar amor”, eu ouvi diversas vezes. Mas a questão é que a violência não é amor, não é um modo de amar e não tem desculpa. Nunca, em nenhum momento, em nenhum cenário. Não, eu não me tornei uma mulher independente, livre e autônoma porque eu apanhei do meu pai. Eu me tornei assim, porque eu fui amada pela minha avó. Entende a diferença?

Outro ponto romântico de tudo isso, é quando dizem: “ahhh mas a sua avó supriu o lugar dos seus pais”. Não. A lacuna está aqui, todos os dias sendo vivida e sendo superada dia após dia. Não existe isso de que uma mãe solo, uma avó, ou qualquer outra figura preencha a lacuna que pais ausentes deixam. Nem apagam as violências. Nem resolvem as questões. O amor nos fortalece, mas a cura de tudo isso é um processo longo e que pode durar uma vida, como é o meu caso. Isso é algo que nos acompanha para sempre e que é um fator determinante para muitos pontos da nossa história. Seja nas nossas relações, nos nossos comportamentos, nas escolhas de todos os dias, cada palmada está lá num subtexto que a gente precisa de muito autoconhecimento e coragem para encarar.

Eu acreditei por muitos anos que meu pai tinha razão quando dizia que eu não merecia ser amada. Acreditei por muito tempo que ele estava certo quando dizia que eu era uma mulher que jamais iria ser valorizada. Discursos assim aconteciam na hora do almoço e as surras eram a resposta dele por eu não ter aberto o portão quando ele chegava de carro ou não ter conseguido ouvir ele chegar 4h da manhã, bêbado, para abrir a porta de casa para ele entrar. Isso tudo afetou minha auto confiança, auto estima, minhas escolhas sexuais e muitas vezes me acovardou diante a vida. Parem de romantizar homens que batem em suas filhas e mulheres, que destroem o emocional dessas meninas que irão crescer e serão reflexo dessa violência para sempre. Parem, apenas parem.

Parem de chamar de heroínas as mulheres que são sobreviventes de homens agressivos. Nós sangraremos pela vida inteira e ninguém é capaz de entender a intensidade dos danos desse “jeito de amar”.

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