DECISÃO FAVORÁVEL A PAZUELLO PODE GERAR INSUBORDINAÇÃO NOS QUARTÉIS

As Forças Armadas acabaram de dar um passo que pode resultar na realização do sonho de Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), de invadir o Supremo Tribunal Federal (STF) com um cabo e um soldado. Ao permitir que o ex-ministro da Saúde, general três estrelas da ativa, Eduardo Pazuello, vá a uma manifestação nitidamente política e elogie o presidente da República, sem que nenhuma punição seja aplicada, o recado que passa aos quartéis é de que nenhuma regra mais precisa ser obedecida.

Eduardo Pazuello
General de Divisão, Eduardo Pazuello (Foto: Alan Santos/PR)

O Regulamento Disciplinar do Exército, além do próprio Estatuto das Forças Armadas, são claros ao proibirem a participação de militares da ativa em manifestações políticas. Na teoria quem descumprir esta norma deve sofrer punições que vão desde advertência à prisão e perda da patente. Mas, verdade seja dita, a instituição Forças Armadas não tem mais a autonomia que já teve, nem mesmo lida com as transgressões de seus quadros como deveria.

Hoje o comandante do Exército, general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, afirmou que Pazuello, ao ir a uma manifestação política e falar nos microfones, não transgrediu nenhuma norma. Ora, se ir a uma manifestação com o presidente da República, com pautas políticas, falar no microfone e exaltá-lo não é manifestação política, nada mais é.

Surpreende tal decisão? Infelizmente não, mas causa consternação. O senhor Paulo Sérgio foi nomeado recentemente como comandante do Exército, justamente porque seu sucessor não deixava com que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) ditasse as regras na instituição. Além dele, Bolsonaro trocou abruptamente, algo inédito na história do Brasil, o ministro da Defesa e os comandantes da Marinha e Aeronáutica. Foi amplamente noticiado que isso se deu porque Bolsonaro desejava aparelhar as Forças Armadas o que, pela decisão de hoje do general Paulo Sérgio, parece estar dando certo.

Ainda nesta semana um policial militar prendeu um professor por imputar a Bolsonaro a alcunha de “genocida”. Já são dezenas de processos contra civis que criticaram o chefe do Executivo Federal. No último fim de semana a PM de Pernambuco agrediu, ao ponto de arrancar os olhos, manifestantes. O motivo? Estavam nas ruas gritando contra o presidente. Já vimos motins policiais na gestão Bolsonaro, que contaram com o silêncio ou mesmo com apoio do presidente ou dos seus aliados.

O presidente já anunciou, sem meias palavras, que não aceitará o resultado das próximas eleições caso venha a perde-las. Diz semanalmente que as Forças Armadas são dele e que, se ele assim decidir, vão às ruas cumprir suas ordens. Consciente ou não, ao fingir não entender o óbvio e não punir Pazuello, o recado que o comandante do Exército passa aos soldados, policiais militares e até mesmo civis é que está liberada a transgressão, desde que ela seja para defender Jair Messias Bolsonaro.

A democracia no Brasil está por um fio de cabelo pouco hidratado e cheio de tintura verdade e amarela ressecada.

*Esta é a opinião do colunista.

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