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Polarização chega ao auge em 2018 e Ciro Gomes falha ao tentar emplacar terceira via

Polarização chega ao auge em 2018 e Ciro Gomes falha ao tentar emplacar terceira via
Foto: Mário Miranda/Amcham/Divulgação

Conforme a eleição de Jair Bolsonaro (PL) foi ficando mais clara ao longo da campanha de 2018, cresceu na sociedade alguns movimentos que buscavam evitar a vitória do então deputado federal. As falas autoritárias e as ameaças à democracia e às minorias ascenderam um sinal de alerta em parte dos eleitores, que tentou buscar uma alternativa. Com a candidatura de Geraldo Alckmin (então no PSDB) longe de decolar, as pesquisas de intenção de voto mostravam que o candidato que chegava mais perto de quebrar a polarização entre Bolsonaro e o candidato do PT, Fernando Haddad, era o ex-ministro Ciro Gomes (PDT), que tentou emplacar seu nome como a terceira via da disputa. Nas pesquisas, Ciro aparecia como único capaz de derrotar Bolsonaro com certa folga em um eventual segundo turno. Só tinha um problema: o pedetista não tinha votos suficientes para disputar o segundo turno.

Apesar do movimento Vira Voto pró-Ciro e da luta feminina contra a eleição de Bolsonaro em 2018, representada pelas manifestações com o mote #EleNão, a primeira pesquisa eleitoral do Datafolha após os protestos mostrou que Bolsonaro contrariou as expectativas de seus adversários e cresceu cinco pontos percentuais nas pesquisas, passando de 28% para 32%. Enquanto isso, seu adversário Fernando Haddad (PT) recuou de 22% para 21% das intenções de voto. Mesmo nesse contexto de manifestações contra a eleição de Bolsonaro, o avanço inesperado do então candidato ao Planalto pelo PSL se justificava pelo fortalecimento do antipetismo e a defesa da moralidade. Com o apoio de líderes religiosos influentes, Bolsonaro “lutou contra a ameaça vermelha” representada por Haddad e a volta do PT à presidência, sobretudo após as revelações feitas pela Operação Lava Jato sobre os esquemas de corrupção na Petrobras durante o governo Dilma Rousseff (PT).

terceira via
Terceira via: A busca por um nome viável

Desde o início da campanha eleitoral, Bolsonaro aproveitou duas circunstâncias importantes em 2018: o crescimento do antipetismo entre os eleitores de centro e a resignação de setores mais conservadores da sociedade com esquemas de corrupção na Petrobras e com políticas públicas inclusivas implementadas ao longo das gestões petistas, como a lei de cotas nas universidades e a legalização do casamento homoafetivo. 

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Os principais apoiadores de Bolsonaro foram os líderes religiosos Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, e Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus. Devido ao protagonismo de ambos na imprensa, em canais e redes sociais próprios das respectivas igrejas, Silas e Edir auxiliaram Bolsonaro a descredibilizar os movimentos #EleNão e Vira Voto Pró Ciro com a propagação de fake news. 

Além do apoio de pessoas influentes na sociedade civil, o cientista político da Uninter Doacir Quadros afirma que o cenário eleitoral em 2018 não favorecia a oposição a Bolsonaro, que era o candidato que representava o crescente antipetismo da população brasileira. “Se pensarmos hoje, na campanha política de 2022, o cenário político, social e econômico se coloca mais favorável a estratégias que tentem atacar o atual presidente”, afirma.

Bolsonarismo: da ascensão à queda
Bolsonarismo: da ascensão à queda

Ao analisar os movimentos Ele Não e Vira Voto Pró-Ciro, Doacir ressalta que não adquiriram a relevância social necessária para frear o crescimento da popularidade de Bolsonaro. “Na verdade, essas manifestações populares foram tentativas da oposição, e acho que quem está na disputa eleitoral de fato deve tentar convencer o eleitorado do adversário, desde que utilizando meios limpos e legais. Dentro de um contexto em que se desenhava a projeção do então candidato Bolsonaro, eu entendo que de fato foi uma estratégia interessante, mas não foi eficiente naquele contexto específico”, explica o cientista político.

Por que o movimento #EleNão não derrubou Bolsonaro?

A manifestação feminina contra a eleição de Bolsonaro, por exemplo, foi classificada pelos apoiadores do então candidato à presidência como “Marcha das Vadias”. Com a propagação de fake news em grupos de WhatsApp e Telegram, capitaneada pelo filho Carlos Bolsonaro e os demais responsáveis por sua campanha, a maioria dos fiéis e eleitores antipetistas se convenceram de que as manifestantes afrontavam famílias e defecavam peladas nas ruas. 

No entanto, a versão inverídica de Bolsonaro sobre o movimento #EleNão só adquiriu repercussão nacional com Edir Macedo, bispo da Igreja Universal do Reino de Deus e dono da Rede Record, emissora que concorre diretamente por audiência com a Globo. Embora Bolsonaro e Macedo tivessem se aproximado desde dezembro de 2017, quando o então deputado federal fez suas primeiras críticas públicas à rede Globo, foi somente em 2018 que Bolsonaro tentou reproduzir a estratégia de Donald Trump para transformar a Record em sua Fox News brasileira. Nesse sentido, o objetivo de Bolsonaro era utilizar a Record como uma emissora em que tivesse livre espaço para se manifestar contra “as mentiras e distorções da imprensa comunista”, que seria responsável por uma “perseguição” a ele.

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Lulismo: As esperanças controversas

O apoio da Record a Bolsonaro tornou-se evidente após Bolsonaro anunciar que não participaria do debate promovido em 04 de outubro pela rede Globo por recomendação médica, após permanecer internado devido ao ferimento à facada que sofreu durante campanha em Juiz de Fora (MG). Porém, Bolsonaro foi liberado em 27 de setembro, sete dias antes do debate. Mesmo não comparecendo ao debate, Bolsonaro exibiu sua primeira entrevista em rede nacional, através da Record, na mesma data e horário do debate promovido pela Globo. 

Considerando que o conteúdo da entrevista teve mais um teor de propaganda do que um diálogo, a Record ajudou Bolsonaro a adquirir mais tempo de propaganda eleitoral informal do que ele tinha direito oficialmente, por determinação das regras eleitorais e do tamanho do partido pelo qual se candidatou à presidência em 2018, o PSL.

Embora o apoio da comunidade evangélica tenha se mostrado importante para a vitória de Bolsonaro, ele só se mostrou decisivo e essencial depois do resultado de uma pesquisa Datafolha, realizada em outubro de 2018. Os resultados apontaram que Bolsonaro contava com o voto de 71% dos evangélicos do Brasil no segundo turno em 2018, sejam eles evangélicos tradicionais, pentecostais, neopentecostais ou de outros setores. Em contrapartida, apenas 29% dos evangélicos escolheriam Haddad, mostrando que nem mesmo movimentos populares foram capazes de reduzir a popularidade de Bolsonaro entre os eleitores mais conservadores.

Movimento Pró-Ciro falha ao tentar “virar” votos na véspera do primeiro turno

Nas duas semanas anteriores ao primeiro turno, a campanha eleitoral de Ciro Gomes apostou no movimento Vira Voto Pró-Ciro, buscando sair do terceiro lugar nas pesquisas de intenção de voto e consolidar-se no segundo turno. Com o slogan “Tá na hora de você olhar pro Ciro”, criado pela equipe de marketing, a campanha se estruturou a partir de vídeos com ataques a Lula e a Bolsonaro. “Está cansando dos mesmos de sempre, de seguir no mesmo giro? Saber que um rouba, mas faz, e o outro, esse rouba sem fazer”, dizia a letra. 

A mudança na campanha de Ciro se justificou com base nas últimas pesquisas qualitativas antes do primeiro turno, as quais apontaram, em setembro, que apenas 22% dos eleitores permaneciam indecisos ou decididos a anular o voto, mostrando que quase a metade dos 40% de eleitores incertos tomaram sua decisão desde o último levantamento, realizado em maio. 

Porém, o fenômeno do voto útil fez com que os eleitores indecisos, sobretudo as mulheres, voltassem seus votos para Bolsonaro e Haddad. O voto útil ocorre quando o eleitor cogita ou já cogitou deixar de votar no seu candidato preferido para utilizar seu voto mais estrategicamente do que por afinidade, direcionando seu voto para o nome que pode ter mais chances de vencer ou de influenciar o resultado eleitoral. 

De acordo com pesquisa da consultoria TZU, Bolsonaro angariou mais 12% dos votos das donas de casa que não trabalham fora e as solteiras de 30 a 49 anos de classes mais altas. Por outro lado, Haddad avançou nas pesquisas com o voto das mulheres que ganham até cinco salários mínimos, de acordo com o Datafolha. A intenção de voto em Haddad chegou a triplicar de agosto para setembro, em virtude do espólio dos eleitores do ex-presidente Lula que perderam sua opção de voto após o petista ser impedido de disputar as eleições por determinação da operação Lava Jato. 

Mesmo tentando chamar a atenção do eleitor para suas propostas, Ciro não conseguiu angariar o número de votos necessários para concorrer contra Bolsonaro no segundo turno. Com 12,47% dos votos válidos, o presidenciável do PDT terminou a disputa eleitoral em terceiro lugar.

Letícia Fortes

Estudante de Jornalismo na PUCPR e estagiária do Regra. Escrevo para evidenciar e esclarecer assuntos que exigem nossa atenção, pois essa é minha forma de defender uma comunicação humanizada, acessível e engajada socialmente.

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