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Chacina de PM do PR coloca em cheque estado psicológico das corporações

Chacina de PM do PR coloca em cheque estado psicológico das corporações
Foto: Rovena Rosa/ Agência Brasil

Um policial militar cometeu uma chacina e matou nove pessoas, nas cidades de Toledo e Céu Azul, no oeste do Paraná, na noite desta quinta-feira (14) e madrugada de sexta-feira (15). De acordo com informações do Comandante Geral da PMPR, Hudson Leôncio Teixeira, o homem, identificado como Fabiano Junior Garcia, matou primeiro a esposa e a filha do primeiro relacionamento dele, uma adolescente de 12 anos. Depois ele foi na casa da mãe dele, que fica em Toledo, a matou a facadas e também tirou a vida do seu próprio irmão. 

Em seguida ele foi até a cidade de Céu Azul na casa dos avós maternos e matou a filha e o filho dele, a menina tinha 8 anos e o menino 4. Retornou a Toledo, começou a perambular pela área central da cidade e atirou contra dois jovens desconhecidos, um de 16 e outro de 19 anos que morreram no local. Depois de cometer a chacina, ele enviou um áudio para a família e cometeu suicídio.

Na gravação ele chega a pedir desculpas, relata que estava em depressão e não aceitava que a esposa dele queria a separação. “Família me desculpa, me desculpa. Mas eu não ia conseguir viver sem a Kassiele. Ela já não estava mais suportando o jeito que eu lidava com ela, não estava mais suportando se eu ia dar atenção pra ela ou não, e ela deixou a entender que ela não fazia questão de continuar comigo”, disse em áudio.

Em outro trecho ele diz que começou a jogar e que não estava bem financeiramente. “Eu entrei em um momento de depressão, entrei nesse maldito jogo, para mim como uma válvula de escape para a depressão […] Eu já estava querendo fazer isso mesmo, porque eu já não consigo conviver com a situação da minha mãe. Eu vivo financeiramente ‘f*’, alguém iria ter que arcar com as despesas de tudo lá. Então para não deixar peso pra ninguém, eu fiz isso”, relatou o PM.

Depois de cometer chacina, policial manda áudio pedindo desculpas para a família.

A arma utilizada na chacina é da corporação da polícia militar e Fabiano Junior Garcia trabalhava no 19º Batalhão de Polícia Militar de Toledo há 12 anos.

O psicológico das corporações

Não é novidade que a segurança pública do Brasil vive um drama: a saúde mental dos policiais e militares. Segundo o último Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2022, o suicídio de policias, tanto civis quanto militares, cresceu 55% entre 2020 e 2021. O maior número deste tipo de morte são dos militares. Em 2019, 65 policiais militares e 26 civis cometeram suicídio, no mesmo ano, 56 policiais militares e 16 policiais civis morreram em serviço. Ou seja em 2019 mais policiais se suicidaram do que morreram em confrontos.

Para o professor de Antropologia do Direito na UnB e pesquisador do Núcleo de Estudos sobre Violência e Segurança, Welliton Caixeta Maciel, as próprias instituições policiais têm adoecido seus agentes. “Desde a formação até a prática profissional rotineira, os policiais se deparam com uma realidade da qual não conseguem se desvencilhar. Pois o culto ao ‘ser policial 24h’ e aos imperativos de força, honra, hierarquia, disciplina, bravura, disponibilidade constante para o real do trabalho que envolve lidar com os problemas sociais e institucionais, cobranças de todas as ordens, acabam resultando em dificuldades do trabalho que, no limite da tensão e do sentimento de impotência por não conseguirem resolver os problemas do mundo da vida, resultam em problemas psíquicos e emocionais.”

Maciel também explica que temas como depressão e suicídio são na maioria das vezes tabus dentro das corporações o que faz com que os casos de suicídio entrem em um ciclo já que muitas vezes não são abordados. 

Juliana Martins, coordenadora institucional do Fórum Brasileiro de Segurança Pública concorda com esse pensamento e relata que adoecimento psíquico muitas vezes não é bem visto dentro das corporações. “Não é raro que os superiores hierárquicos entendam que o adoecimento especialmente mental possa significar que aquele profissional não tem o perfil, que ele não quer trabalhar, ou que está com preguiça de trabalhar. É uma organização que tem poucos recursos para lidar com o contexto do adoecimento mental e também oferece pouca estrutura psicossocial de acolhimento e cuidado nesses profissionais”, ressalta a coordenadora.

Segundo Juliana alguns fatores são apontados para que esses profissionais tenham um nível de estresse e pressão diferente de outros profissionais. Como por exemplo a violência no cotidiano, poucas horas de sono já que muitos policiais trabalham em suas folgas para complementar a renda, desvalorização no local de trabalho. 

E de acordo com o Maciel todos esses pontos, fazem com que os policiais entrem em depressão ou tenham algum problema emocional. “O adoecimento dos policiais começa muito antes do desfecho morte dos e por policiais. Isso poderia ser evitado com atenção às condições de trabalho, à qualidade de vida desses profissionais, sem maquiar o problema com positividade tóxica e/ou ‘tapar o sol com a peneira’ com ações estéreis sem lastro de política institucional”.

“Os policiais, sobretudo os militares, são profissionais mal pagos e insatisfeitos com a carreira, com excesso de trabalho, tendo que, muitas vezes, se desdobrarem em duplas e triplas jornadas, fazendo bicos como segurança privados, pegando escalas estafantes e sub humanas para conseguirem cumprir seus compromissos e complementar renda. Muitos desses profissionais têm dependência química, sobretudo alcoolismo. Sentem-se presos às malhas da instituição que ainda incorpora ranços de militarismo; são assediados e perseguidos por superiores hierárquicos, não conseguem atendimento de psicológico e de saúde integral adequado, lidam com o julgamento dos colegas de carreira, lidam com depressão, burnout e ansiedade”, ressalta o professor.

Dentro da segurança pública não existe uma política nacional de saúde mental, sendo assim cada Estado age de maneiras diferente em cada caso, o que de acordo com a coordenadora pode criar uma dificuldade de saber como lidar quando um policial tem um problema, e até mesmo de ter um levantamento correto de quantos policiais são afastados por questões de saúde mental no Brasil. 

Juliana ainda descreve que é preciso uma mudança cultural e social dentro e fora das corporações e cita o exemplo da chacina feita pelo PM Fabiano Junior Garcia. 

“Cada dia mais [ a gente vê] notícias sobre feminicídio, mulheres sendo mortas porque rompem seus relacionamentos e os homens não aceitam o rompimento. A gente está falando de mulheres que na hora que elas rompem com papéis sociais que são esperados delas, elas ficam extremamente vulnerável e neste caso foi uma família inteira e ainda outras pessoas que inclusive estavam passando na rua. A gente precisa trabalhar muito sobre igualdade de gênero, desconstruir esses estereótipos que estão na cabeça de homens e mulheres. Nós naturalizamos certas violências cotidianas que se não forem discutidas, desconstruídas nós não vamos ver números de casos como esses diminuírem. Temos que ensinar os meninos e meninas desde cedo a respeitar os papéis, que são diferentes, mas que não há uma hierarquia. A mulher não é submetida ao homem, o homem não tem esse poder. Tem que haver uma mudança cultural e social nesses aspectos e isso dentro das polícias é muito mais exacerbado”, conclui.

O que diz a PM?

A PMPR em nota disse que o policial em questão não tinha histórico de problemas psicológicos e trabalhava como motorista do Coordenador do Policiamento da Unidade. Segundo o comunicado, desde dezembro de 2020 a região conta com atendimento psicológico e social aos militares e dependentes.

Rafaela Moreira

Jornalista, repórter do Regra dos Terços e diretora de programas de televisão na TV Band e na Rede Super.

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