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Preconceito e falta de representação: o que dificulta a vida de autistas

Preconceito e falta de representação: o que dificulta a vida de autistas

A influenciadora digital Polyana Sá (@heyautista) lembra exatamente como era fingir ser outra pessoa ou tentar se comportar como as demais na infância. Autista, diagnosticada no início da adolescência, ela “copiava” os jeitos da irmã tentando não parecer neurodivergente. Ela admite que fazia isso de forma consciente, no entanto, ainda sem saber que essa prática constituía a camuflagem social – ou ainda mascaramento (masking, do inglês).

A camuflagem social trata-se de um conjunto de estratégias psíquicas para esconder as características do Transtorno do Espectro Autista (TEA) em meio a outras pessoas. Depois de utilizar o masking por seis anos, Polyana, como ela mesma define, estava “destruída” e com um quadro de depressão profunda.

Convidada do segundo episódio do Podcast Distraídos, projeto original do Regra dos Terços, a influenciadora digital sentia, desde a infância, que não era tratada da mesma maneira que as outras crianças.

“A primeira vez que eu percebi mesmo que eu ia ser tratada diferente eu tinha uns cinco anos de idade. Eu comecei a ser perseguida por uma professora no colégio que dizia que ia cortar a minha língua. Essa professora também fazia falas racistas e psicofóbicas. Foi nessa idade que eu percebi: ‘acho que eu sou diferente e insistem em me tratar de outra maneira’. Quando eu fui diagnosticada autista, foi uma resposta para isso.”

Polyana entende que a discriminação e a segregação que experimentou também estão relacionadas ao fato de ser mulher e preta.

Já a resposta para a host do Distraídos Alpin Montenegro (@blackautie) chegou depois, já na vida adulta. No caso dela, o maior volume de informações sobre o TEA disponíveis, principalmente na internet, serviram de motivação para buscar um processo de autoconhecimento. Ao conversar com outros autistas, e depois com especialistas, o diagnóstico veio.

“Costumo dizer que a pandemia tirou neurodivergentes do armário”, brinca Alpin. Ela e Polyana passaram a divulgar informações sobre transtornos neurológicos, como o autismo, na web desde 2020.

Entre os anos de 2000 e 2002, o autismo atingia, no mundo, 1 em cada 150 crianças. Esse número cresceu nos últimos 20 anos, e em 2020, o transtorno neurológico é encontrado em 1 criança a cada 44. Os dados são do Central of Disease Control.

Apesar do maior acesso a conteúdos que discutem o Transtorno do Espectro Autista, as pessoas por trás desses conteúdos ainda representam um grupo restrito da população. “Não tem nenhuma pessoa autista preta aqui”, constatou Polyana ao encontrar influenciadores que abordam a temática na rede social TikTok. A falta de representatividade foi um combustível para que ela começasse a falar publicamente sobre autismo.

Além disso, tanto Polyana quanto Alpin foram diagnosticadas com nível 1 de suporte, o que significa que ambas têm sintomas menos graves em comparação aos níveis 2 e 3. As pessoas que se encontram no primeiro nível do espectro estão, segundo Polyana, mais suscetíveis a um tipo de discriminação vindo de outros autistas.

“Existe muito capacitismo enraizado. O mais curioso é que boa parte desse capacitismo não provém da comunidade externa, mas da própria comunidade autista. De pessoas que ficam nos invalidando por sermos do jeito que somos e precisarmos de algum nível de suporte ainda. Que ficamos de alguma forma manchando a imagem da comunidade autista, chamando mais atenção para nós do que para os autistas que “precisam de verdade”, desabafou a influenciadora.

Para conferir o bate-papo entre Alpin Montenegro, Polyana Sá e o jornalista Erick Mota (@erickmotaporai) no Podcast Distraídos, confira o episódio completo no Spotify e no Anchor. O projeto possui ainda um grupo no Telegram, o Hiperfocados, com neurodivergentes e especialistas que discutem transtornos neurológicos. o Hiperfocados também é uma forma de apoiar financeiramente o Distraídos, iniciativa totalmente independente. Acesse apoia.se/podcastdistraidos.

Eduardo Veiga

Estudante de Jornalismo e redator freelancer. Já trabalhou em Rádio Banda B, Portal Banda B e publicou no Jornal Plural. Atualmente, é estagiário no Regra.

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