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ENTENDA O ESCÂNDALO ENVOLVENDO A PREVENT SENIOR E O QUE ELE TEM A VER COM O GOVERNO

ENTENDA O ESCÂNDALO ENVOLVENDO A PREVENT SENIOR E O QUE ELE TEM A VER COM O GOVERNO
Pedro Benedito Batista Junior, diretor-executivo da Prevent Senior. Foto: Pedro França/Agência Senado

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia, no Senado, ouviu nesta quarta-feira (22) o diretor-executivo da operadora de saúde Prevent Senior, Pedro Benedito Batista Júnior. Durante o depoimento, ele passou de testemunha a investigado pela CPI, acusado por senadores de mentir e de ter trabalhado em conjunto com o chamado gabinete paralelo, que atuaria no Ministério da Saúde durante a pandemia. Este é apenas mais um episódio do escândalo envolvendo a Prevent Senior, plano de saúde que atua em São Paulo acusado de omitir mortes causadas pela Covid-19, distribuir e receitar medicamentos ineficazes e realizar estudos sem consentimento de pacientes. 

A Prevent Senior faturou em 2020 um total de R$ 4,3 bilhões – 19% a mais do que em 2019. O número de pacientes credenciados também aumentou e chegou a 505 mil no ano passado, um crescimento de 9%. O plano de saúde foi citado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e seus filhos como exemplo no tratamento de pacientes com coronavírus, mas a empresa é investigada pelo Ministério Público de São Paulo. No ano passado, o então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, chegou a sugerir uma intervenção nos hospitais da rede, devido ao alto número de mortes. A Prevent Senior registrou a primeira morte do país em decorrência do coronavírus, um porteiro de 62 anos. 

Pedro Benedito Batista Junior, diretor-executivo da Prevent Senior
Pedro Benedito Batista Junior, diretor-executivo da Prevent Senior. Foto: Pedro França/Agência Senado

A Prevent Senior é acusada de omitir mortes por Covid, distribuir kits com medicamentos ineficazes para a prevenção e tratamento da doença, como hidroxicolorina, invermectina e azitromicina, além de realizar estudos sobre o uso dos medicamentos sem conscentimento e ciência dos pacientes e familiares – o que é proibido.

Estudo irregular

Um dossiê feito por médicos que trabalham e trabalharam para a empresa foi entregue à CPI e mostra que a Prevent Senior realizou um estudo com 636 pessoas. Destas, 412 receberam o kit covid, com medicamentos como hidroxicloroquina e azitromicina. O estudo afirma que nos pacientes que não receberam o kit, a necessidade de hospitalização foi três vezes maior. 

Duas mortes foram mencionadas no estudo, mas a causa registrada foi “câncer metastático”, em um dos casos, e “síndrome coronariana aguda”, no segundo. Segundo o dossiê entregue à CPI, porém, a Prevent Senior omitiu outras mortes no estudo. Teriam sido, ao todo, nove casos. Seis deles teriam ocorrido entre o grupo de pacientes que tomaram a medicação do chamado kit covid. Duas foram no grupo que não recebeu a medicação e não há informações sobre uma morte.

O estudo foi divulgado por Bolsonaro nas redes sociais. “Segundo o CEO Fernando Parrillo, a Prevent Senior reduziu de 14 para 7 dias o tempo de uso de respiradores e divulgou hoje, às 1:40 da manhã, o complemento de um levantamento clínico feito”, disse o presidente no Facebook em uma postagem de 18 de abril de 2020. “De um grupo de 636 pacientes acompanhados pelos médicos, 224 NÃO fizeram uso da HIDROXICLOROQUINA. Destes, 12 foram hospitalizados e 5 faleceram. Já dos 412 que optaram pelo medicamento, somente 8 foram internados e, além de não serem entubados, o número de óbitos foi ZERO. O estudo completo será publicado em breve!”, completou. 

Segundo os médicos que entregaram o dossiê à CPI, pacientes foram tratados com remédios comprovadamente ineficazes contra a Covid-19 sem terem sido informados. 

Alteração de dados para maquiar mortes

A Prevent Senior também é acusada de alterar prontuários para maquiar a causa da morte de pacientes, para que a Covid não aparecesse como causa. A orientação dos estados é que, quando um paciente morre em decorrência de complicações causadas pelo coronavírus, isso conste no atestado de óbito. 

Segundo o dossiê entregue à CPI, porém, a orientação da Prevent Senior era para que os prontuários fossem alterados e o código CID da Covid-19 fosse retirado após 14 dias de internamento na enfermaria e 21 dias na UTI. Em seu depoimento à CPI, Pedro Benedito Batista Júnior confirmou a prática. 

“O senhor [Batista Júnior] não tem condições de ser médico, modificar o código de uma doença é crime”, disse o senador Otto Alencar (PSD-BA) na CPI. “Essas pessoas morreram em consequência da covid-19. Isso é uma fraude”, afirmou o senador Humberto Costa (PT-PE).

Isso teria acontecido, por exemplo, no caso do médico Anthony Wong, conhecido por seu negacionismo em relação à pandemia. Ele foi internado com Covid-19 em 17 de novembro de 2020 e morreu no dia 15 de janeiro de 2021. O médico foi tratado com hidroxicloroquina, azitromicina e ivermectina. Além disso, recebeu mais de 20 sessões de ozonioterapia renal – prática desaconselhada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). A Covid não aparece como causa da morte do médico. A responsável pelo tratamento foi a médica Nise Yamaguchi, apontada como uma das integrantes do gabinete paralelo que aconselhava Bolsonaro sobre a pandemia e defensora do tratamento precoce – que já foi comprovado cientificamente que não funciona. 

Regina Hang, mãe do dono de redes de loja Havan e aliado de Bolsonaro, Luciano Hang, também teria recebido medicamentos ineficazes e morrido em decorrência da Covid-19. Essa não é a causa da morte em seu atestado de óbito, porém. 

Diretor da Prevent Senior na CPI

O diretor-executivo da Prevent Senior, Pedro Benedito Batista Júnior, passou a ser investigado pela CPI da Pandemia. Ele foi acusado por senadores de mentir e de ter trabalhado em conjunto com o chamado gabinete paralelo, que atuaria no Ministério da Saúde. 

O relator da CPI, senador Renan Calheiros (MDB-AL), mostrou vídeos em que Batista Junior tratava de protocolos de combate à covid-19 com integrantes do grupo que atuava junto ao governo Bolsonaro.

Em sua defesa, o executivo disse que ele e a empresa são vítimas de um conluio e de acusações falsas e se recusou a falar de prontuários de pacientes mencionados nas denúncias.

“Reitero que o dossiê entregue a esta Casa é uma peça de horror, produzido a partir de dados furtados de pacientes, sem qualquer autorização expressa, o que configura crime que precisa ser investigado. Esses dados precisaram ser manipulados para deturpar a real conduta de mais de 3.000 médicos e, desta maneira, após furtados e adulterados, pudessem ser usados para atacar uma empresa idônea”, rebateu.

Kelli Kadanus

Kelli Kadanus, jornalista, cronista, tia coruja. Escrevo para tentar me entender e entender o mundo. É assim desde que aprendi a juntar sílabas. Sonho em mudar o mundo e as palavras são minha única arma disponível.

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