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REPÓRTER SOFRE AMEAÇAS APÓS REVELAR IRREGULARIDADES NO TRATAMENTO DE COVID EM HOSPITAL MILITAR

REPÓRTER SOFRE AMEAÇAS APÓS REVELAR IRREGULARIDADES NO TRATAMENTO DE COVID EM HOSPITAL MILITAR
Hospital da Brigada Militar de Porto Alegre (HBMPA). Foto: Osmar Nólibus / BM

O jornalista Pedro Nakamura, do site de notícias Matinal, está sofrendo uma série de ameaças depois de publicar uma reportagem, em 24 de agosto, que revelou que cerca de 50 pacientes com Covid-19 receberam experimentalmente uma droga sem a autorização da Anvisa no Hospital da Brigada Militar de Porto Alegre (HBMPA). Segundo a reportagem, os pacientes declararam que não receberam cópias dos termos de consentimento assinados por eles para tomarem o medicamento testado.

Desde a publicação, o Matinal e Nakamura têm sofrido diversos ataques nas redes sociais após um dos entrevistados expor a conversa com o jornalista e o acusar de injúria e difamação. O Matinal ainda sofreu um ataque cibernético na terça-feira (24). No Instagram, um comentarista publicou uma foto de Nakamura e afirmou que ele “merecia ser empalado em praça pública na frente de seus filhos”. 

Em nota, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) condenou os ataques. “A Abraji condena a exposição das conversas de jornalistas nas redes sociais com o objetivo de direcionar assédio virtual contra esses profissionais e também as tentativas de derrubar os websites veículos de imprensa para dificultar o acesso a denúncias graves e de extrema relevância para o interesse público”, diz a nota.

Hospital da Brigada Militar de Porto Alegre (HBMPA). Foto: Osmar Nólibus / BM

Ao longo da apuração, Nakamura entrou em contato com os médicos responsáveis pela pesquisa para ouvir suas versões a respeito dos fatos. Um deles passou a expor as mensagens do jornalista em suas redes sociais, acusando Nakamura de assédio e injúria.

“A tática de expor conversas com jornalistas que, de maneira responsável e observando os princípios éticos da profissão, buscam a versão de pessoas apontadas como responsáveis por fatos levantados durante a apuração de reportagens é uma forma de intimidação cada vez mais frequente no Brasil. Em lugar de prestar contas de suas ações à sociedade, tais pessoas preferem mobilizar suas audiências nas redes sociais para atacar o mensageiro”, diz a Abraji.

Desde que a pandemia de covid-19 foi declarada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), inúmeras pesquisas utilizando fármacos, que a princípio seriam para outras finalidades, em pacientes testados positivos para a covid-19. Porém, para que esses estudos sejam feitos, é preciso seguir uma série de protocolos de segurança, além de ter autorização órgão de saúde do país, no caso do Brasil, é preciso ter aval da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). 

A administração do fármaco foi feita em cerca de 50 pacientes, que assinaram um documento consentindo a participação na pesquisa. Uma das entrevistadas pela reportagem alega que assinou o papel em momento que estava muito mal devido a covid-19. Ao assinar o documento, ela conta que não recebeu maiores instruções de como seria o estudo e também não recebeu uma cópia. Após receber alta, os médicos receitaram que ela consumisse o medicamento em casa.

“O termo de consentimento assinado por Eva, por exemplo, deveria ter sido revisado pela comissão. Não foi. O suposto estudo no Hospital da Brigada Militar sequer está registrado na Plataforma Brasil, que reúne todas as pesquisas em seres humanos aprovadas no País. Só em Porto Alegre, há 18 comitês de ética em pesquisa com autorização para credenciar estudos na Conep – nenhum deles vinculado a testes com proxalutamida no hospital que atende a polícia militar, instituição que também não está registrada no sistema mantido pelo Ministério da Saúde. Em tese, o experimento na instituição militar não existiu para o órgão regulador, que só soube da existência da suposta pesquisa em Porto Alegre após contato do Matinal. Por esse motivo, a Conep decidiu não comentar o caso”, diz um trecho da reportagem. 

O proxalutamida é um medicamento criado pela Kintor Pharmaceutical, uma startup farmacêutica chinesa, com o objetivo de inibir os efeitos de hormônios masculinos, como a testosterona, no corpo humano. No entanto, ele estava sendo testado nos pacientes sem a autorização da Anvisa e sem o consentimento da  Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), responsável por autorizar pesquisas clínicas com seres humanos. Ambos instituições não tinham conhecimento da prática feita pelo hospital antes da reportagem.  

Confira a nota da Abraji:

Desde o dia 23.ago.2021, o jornalista Pedro Nakamura vem sofrendo assédio virtual nas redes sociais, motivado pela exposição de suas conversas com um médico implicado em reportagem publicada pelo Matinal, veículo para o qual trabalha. Além disso, o Matinal sofreu um ataque cibernético no dia 24.ago.2021.

Ao longo da apuração da reportagem que revelou indícios de estudos clínicos sem supervisão de comitês de ética e com uso de medicamentos importados sem autorização da Anvisa, no Hospital da Brigada Militar de Porto Alegre, Nakamura entrou em contato com os médicos responsáveis pela pesquisa, com o objetivo de ouvir suas versões a respeito dos fatos. Um deles, em lugar de responder às perguntas, passou a expor as mensagens do jornalista em suas redes sociais, acusando Nakamura de assédio e injúria. A seguir, os perfis do jornalista e do Matinal nas redes sociais foram inundados por ofensas e ameaças. No Instagram, um comentarista publicou uma foto de Nakamura e afirmou que ele “merecia ser empalado em praça pública na frente de seus filhos”. 

No dia seguinte, os gestores do grupo Matinal foram informados por seu provedor de hospedagem na internet que o website vinha sendo alvo de “ataques de negação de serviço”, ou DDoS, os quais visam sobrecarregar um servidor para impedir o acesso do público às informações nele contidas. Noutras palavras, houve uma tentativa de derrubar o website do Matinal, ocorrência rara para o veículo, conforme os administradores.

A tática de expor conversas com jornalistas que, de maneira responsável e observando os princípios éticos da profissão, buscam a versão de pessoas apontadas como responsáveis por fatos levantados durante a apuração de reportagens é uma forma de intimidação cada vez mais frequente no Brasil. Em lugar de prestar contas de suas ações à sociedade, tais pessoas preferem mobilizar suas audiências nas redes sociais para atacar o mensageiro.

A Abraji condena a exposição das conversas de jornalistas nas redes sociais com o objetivo de direcionar assédio virtual contra esses profissionais e também as tentativas de derrubar os websites veículos de imprensa para dificultar o acesso a denúncias graves e de extrema relevância para o interesse público.

Diretoria da Abraji, 25 de agosto de 2021

Leia a reportagem completa aqui.

Wanessa Alves

Estudante de jornalismo na Universidade de Brasília (UnB) e estagiária no Regra dos Terços. 

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