fbpx

Risorama 2022 é marcado por resistência política e valorização da convivência e da maturidade

Risorama 2022 é marcado por resistência política e valorização da convivência e da maturidade
Letícia Fortes/Regra dos Terços

Em sua 18ª edição, o primeiro dia do festival de stand-up comedy Risorama reuniu diversos artistas que, com variados estilos de humor, abordaram e satirizaram pautas relacionadas à vida adulta, à política e à democracia. O evento ocorre de 31 de março a 5 de abril no centro de eventos Live Curitiba, e o Regra dos Terços cobriu o show do dia 01 de abril, com line-up composto por Nany People, Marcelo Marrom, Sérgio Lacerda, Maurício Meireles, Patrick Maia, Nil Agra e Diogo Portugal, anfitrião do evento. 

Na abertura do Risorama, a artista Nany People destacou a função social do teatro, defendendo a legitimidade da comédia como gênero teatral desde a Grécia Antiga. “O teatro é o mecanismo de arte mais puro da história da humanidade, que até hoje pouco se corrompeu. A Literatura, a música, a arquitetura, em algum momento precisaram ser subsidiados por alguém, então fizeram o que quem pagava mandava. O teatro, não. O teatro é mais antigo do que Jesus Cristo e o cristianismo. Os deuses do teatro, romanos e gregos, inventaram a coisa da catarse, que é quando você se transfere. Então, o teatro usa a comédia para chegar à catarse”, explicou Nany People.

Conservadorismo e censura dificultam o trabalho dos humoristas brasileiros

Nany People e Maurício Meireles ressaltaram a dificuldade que os humoristas enfrentam para exercer sua profissão no Brasil e no mundo, tendo como principal dificuldade a censura ao humor, tanto por parte de governos autoritários quanto do conservadorismo na sociedade. 

No Brasil, o último ato de censura ao humor realizado pelo governo federal foi a remoção cautelar do filme de Fábio Porchat e Danilo Gentili, “Como se tornar o pior aluno da escola” (2017), de todas as plataformas de streaming do Brasil, como Netflix, YouTube, Globoplay, Amazon Prime Video e Apple TV. A censura foi determinada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública foi devido à suposta ‘apologia à pedofilia’ presente no filme. “Você vai fazendo sua história por sobrevivência, competência, e com estilo”, afirmou Nany People. 

Já Maurício Meireles destacou o impacto de aspectos sociais, preconceitos e tabus no aumento da violência contra humoristas. Dirigindo-se à plateia, o artista brincou: “Tá lotado porque vocês esperam rir de piadas, ou porque vocês querem estão esperando ver um comediante tomar soco na boca?”. Ao receber risos da audiência como resposta, completou: “É uma merda ser comediante, né? No Oscar, um comediante toma um soco na boca. Dizem ‘tem que apanhar’. Aí depois tem um cara que é presidente da Ucrânia, comediante. Dizem ‘tem que tacar uma bomba nesse filho da puta”.

Artistas usam o humor como arma de engajamento político

Embora cada comediante tenha abordado temas diferentes, todos trouxeram críticas diretas ao governo Bolsonaro e à crise moral que marca a política brasileira nos últimos anos. Citando o presidente Jair Bolsonaro (PL), Nany People ressaltou a ganância como a maior influência para a corrupção: “Quanto mais poder, mais cagada a pessoa faz. Tá aí o Bolsonaro pra provar isso. Eu não sou petista, sou realista”.

A artista também satirizou o programa de Auxílio Emergencial, criado para garantir uma renda mínima aos trabalhadores informais, autônomos, microempreendedores e desempregos durante a pandemia de Covid-19. No início da pandemia, em março de 2020, a proposta de pagamento do governo federal era de apenas R$200,00 mensais, mas esse valor vetado pelo Congresso e estabelecido em R$600,00 para a população em geral ou R$1.200,00 para mães solteiras e chefes de família. 

No caso da piada de Nany, o auxílio emergencial foi comparado ao seu hábito de financiar e presentear os ficantes e namorados que aparecem em sua vida. “Eu acho engraçado que o Bolsonaro fala tanto do auxílio emergencial, mas eu inventei isso há trinta anos. Porque pra você pegar um novinho, tem que fazer assim: vai rolar curso no Sebrae? Vai. Vai rolar uma CNH? Vai. Vai rolar um Beto Carreiro? Vai. Deixa a criança se divertir! Aí você pega um velhinho. Vai rolar exame de próstata? Vai. Vai rolar pensão pra filho? Vai. Quanto mais velho, mais B.O. aparece. A gente vai ficando chato, marrento, frustrado com a vida. Mas não, tem que ser feliz com a vida!”

Mesmo sem citar Bolsonaro ou Putin nominalmente, Marcelo Marrom lamentou a guerra entre Rússia e Ucrânia e criticou diretamente o governo brasileiro devido à censura ao filme de Danilo Gentili e Fábio Porchat por suposta ‘apologia à pedofilia’ e à alta no preço da gasolina. “A vida tá muito dura, gente. Semana passada, cancelaram o filme do Danilo Gentili, a gasolina tá oito reais, tá acontecendo uma guerra na Europa, e as pessoas não param de falar e de me comparar ao mendigo comedor”, referindo à Givaldo Alves, morador de rua de Planaltina (DF) que ficou famoso após ficar com mulher casada e ser agredido por seu marido. “E agora, quatro partidos políticos querem levar o mendigo comedor pra ser candidato. É só no Brasil mesmo, viu”, lamentou Marcelo Marrom.

Diogo Portugal, por outro lado, utilizou seu humor para criticar fortemente o ato de votar, estimulando o processo de desconfiança em relação às instituições democráticas já em curso no Brasil. “Todo mundo concorda comigo que entrar numa urna pra votar, é mais ou menos como entrar em um puteiro? Porque você entra e pensa ‘quem eu vou escolher pra foder comigo?’ Porque olha, não têm opção”, ironizou.

Diogo também posicionou-se claramente a favor do antipetismo. “O Lula tá solto, fazendo campanha, malhando a perna. Metade das pessoas tá comemorando, a outra metade tá normal, trabalhando”, reforçando o estigma social que caracteriza eleitores do Partido dos Trabalhadores como ‘desocupados’.

Já Maurício Meireles introduziu diretamente suas críticas a Bolsonaro em determinado momento do show, quando brincou: ‘vamos falar sobre o presidente?’. “Entre nós, não é um presidente, é um síndico que cuida do país. O prédio tá pegando fogo, dizem ‘chama o Bolsonaro’, e ele resolve igual um síndico: só vira e fala ‘não pode viado na piscina’. Não é esse o problema urgente na hora, imbecil!”.

Meireles também reproduziu estereótipos e preconceitos relacionados aos eleitores de Jair Bolsonaro (PL) e Lula (PT), ao narrar a ocasião em que se divertia no parque Beto Carrero com sua família e foi abordado por “uma mulher de Santa Catarina”, que lhe perguntou se vacinaria ou não seu filho. “Na minha cabeça, eu penso: qual é a resposta que eu tenho que dar pra não ficar trinta minutos batendo papo com essa mulher? Aí eu faço um raio X mental e penso ‘bom, ela é mulher. Mais provável votar no Lula, eu acho. Mas é de Santa Catarina, ela deve ter votado 17 com o cano da arma. Mas a bolsa não é dela, é da amiga. Ela deve ter roubado a bolsa da amiga, então é Lula. Moral da história, ela saiu. Porque tinha um mongo três minutos parado olhando pra ela”, debochou.

Nil Agra, por outro lado, utilizou a quebra de expectativa como recurso para insinuar uma crítica política, que terminou em uma piada sobre o artista Rodrigo Hilbert, considerado um modelo de homem por desempenhar diversas funções e ser uma pessoa atraente e interessante. “Eu acho que todo brasileiro tem a obrigação cívica de reclamar e de ficar puto com o pior vagabundo dessa história inteira, seja de direita ou de esquerda. Não interessa! O cara fodeu a vida de todos nós durante a pandemia, e esse cara se chama Rodrigo Hilbert!”, brincou Nil.

Sérgio Lacerda e Patrick Maia foram os únicos artistas que não citaram ou se posicionaram politicamente ao longo de sua apresentação, que basearam-se nas partes divertidas de suas rotinas como pai e esposo e na carreira como músico, respectivamente, durante o isolamento na pandemia.

Risorama termina com celebração à maturidade e à qualidade de vida

Durante sua apresentação, Nany People agradeceu a presença da plateia e agradeceu por atingir o auge de sua carreira após os 50 anos. “A gente tem essa mania de achar que tudo na vida é de acordo com o nosso ponto de vista, mas não é. A maturidade é boa quando você aprende que pode, mas não deve. Ou se deve, nem precisa. E é libertador porque você não precisa nem se provar”, reflete.

Festival de Curitiba

O Risorama faz parte do Festival de Curitiba. Em sua 30ª edição, o evento conta com centenas de atrações em vários espaços de Curitiba e Região Metropolitana e com a presença de artistas renomados como Mateus Solano e Emicida.

A edição acontece entre 28 de março e 10 de abril, com estreias e pré-estreias nacionais, espetáculos premiados, remontagens especiais e mostras que levarão teatro, dança, circo, música, oficinas, shows e performances para diferentes públicos, de todas as idades.

Letícia Fortes

Estudante de Jornalismo na PUCPR e estagiária do Regra. Escrevo para evidenciar e esclarecer assuntos que exigem nossa atenção, pois essa é minha forma de defender uma comunicação humanizada, acessível e engajada socialmente.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: