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Se precisamos de um Ministério da Solidão, estamos mesmo fazendo a coisa certa? A importância da escola no combate ao suicídio

Se precisamos de um Ministério da Solidão, estamos mesmo fazendo a coisa certa? A importância da escola no combate ao suicídio
(Foto: Pixabay)

Émile Durkheim, há mais de um século, apresentou em seus estudos sociológicos compreensões para o fenômeno do suicídio. Atualmente, a temática é vista com preocupação por órgãos de saúde em todo o mundo, especialmente após a pandemia da COVID-19. De acordo com a OMS, em 2019 uma pessoa cometeu suicídio no mundo a cada 40 segundos. Já no Brasil, as informações do Sistema Único de Saúde, apontam que, para o mesmo ano, cerca de 37 pessoas cometeram suicídio por dia. 

Em meio à pandemia de 2020, o número de casos disparou no Japão, país que historicamente enfrenta altas taxas de suicídio. Quase 21 mil casos foram registrados no ano, o primeiro aumento em quase 11 anos, especialmente entre as mulheres, que no mês de outubro, apresentaram cerca de 82% mais casos em comparação ao mesmo período do ano anterior. Diante deste cenário, o governo japonês criou o Ministério da Solidão como uma das medidas para conter o número de casos. Informações publicadas em matérias pela Folha de São Paulo e CNN. 

No Brasil, uma das iniciativas da sociedade civil é o Centro de Valorização da Vida (CVV), fundado em 1962, com o apoio de organizações internacionais, bem como do Governo Federal. A entidade realiza cerca de 3 milhões de atendimentos por ano, com cerca de 4000 voluntários, 24 horas por dia, pelo número telefônico 188, pelo site, por e-mail, chat e presencialmente em seus postos.

No Brasil, há um dado muito importante que deve ser destacado. De 1999 a 2019, cerca de 61% dos casos de suicídio são de pessoas com até 11 anos de escolaridade, 7% com 12 anos ou mais, e aproximadamente 32% dos casos não possuem informação. No mesmo sentido, em seu relatório anual de 2006, a OMS elencou alguns fatores de risco para o acometimento de casos, entre eles, níveis educacionais e socioeconômicos baixos e pouco discernimento ou habilidade para resolução de problemas. Essas são competências que, por definição, e, em teoria, devem ser desenvolvidas em ambiente escolar desde os primeiros anos de formação social. 

Em todo o mundo, no ano de 2016, o suicidio foi a segunda principal causa de mortes para a faixa etária dos 15 aos 29 anos, conforme aponta a OPAS. No Brasil, entre 1999 e 2019, a faixa etária tem cerca de 29% do total de casos, quase 60 mil casos. Perante a situação, em 2019, por força de Lei Federal (n° 13.819/2019), foi estabelecida a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio no Brasil, que tem como pilar basilar a operação conjunta entre as esferas governamentais federais, estaduais e municipais, bem como intersetoriais, com o Ministério da Saúde, da Comunicação, da Justiça e da Educação.

Mas qual seria a importância efetiva da escola para o combate ao suicídio? Em estudo conduzido por Lissandra Baggio, Lílian S. Palazzo e Denise Rangel, com adolescentes da região metropolitana de Porto Alegre (RS) em 2009, o ambiente escolar demonstrou ser um possível local para identificação de padrões comportamentais, que somados com contato com violência, drogas e negligência familiar, estão associados à prevalência do pensamento suicida entre os jovens. É possível, conforme exposto pelas autoras, perceber alguns destes padrões em decorrência de sintomas somáticos, como mau comportamento ou baixo rendimento escolar. No estudo foi identificado que, jovens com expectativas de indiferença parental, caso fossem encontrados embriagados, tinham 96% mais chances de terem a prevalência do pensamento suicida.

Em mesmo sentido, relato publicado pela Revista da Faculdade de Educação (UFG), Ferreira (2007) retrata o ambiente escolar brasileiro como um mero observador, já que não se fala sobre a prevenção ao suicídio e juntamente neste contexto estão, segundo a autora, as comunidades locais e os serviços de saúde. Em comparação às iniciativas ao redor do mundo, como na América do Norte, Reino Unido e França, que intensificam as medidas de prevenção, no Brasil, segundo a autora, faltam ações preventivas conjuntas, com apoio de profissionais da saúde emocional, direcionado a educadores, profissionais da saúde e familiares. 

O relato aponta, por fim, que o ambiente escolar é pertinente para prevenção de fatalidades, podendo incorporar ações que estimulem positivamente a autoestima dos alunos e os ajudem a trabalhar seus sentimentos, bem como ações de identificação e atenção aos sinais que são manifestados no ambiente, já que, segundo a autora, grande parte das pessoas não observam os sinais que indicam auto destruição, entre estes familiares e professores.

Em entrevista ao Centro de Referências em Educação Integral (Ei, 2017), o professor do Departamento de Psiquiatria da Universidade Estadual de São Paulo e do Instituto de Pesquisa e Prevenção do Suicídio da Universidade Griffith, José Manoel Bertolote, retrata o ambiente familiar como a principal fonte de ajuda para jovens em fragilidade emocional. Contudo, o ambiente familiar pode não atender a todas as situações e, inclusive, tornar-se  potencializador do risco. Segundo o professor, o ambiente escolar pode oferecer educação ao jovem para que aprenda a identificar e expressar suas emoções de maneira construtiva e, desde cedo, saber buscar ajuda quando necessário, apesar de ainda termos no Brasil fortes deficiências nos sistemas de saúde pública.

Portanto, entende-se que o ambiente escolar não é restrito apenas ao aprendizado de conteúdos acadêmicos. É onde também se promove o desenvolvimento de competências socioemocionais, como aquelas apontadas pela OMS, como habilidades para resolução de problemas, mas também é um importantíssimo aliado para identificação prematura de pessoas emocionalmente vulneráveis. Além disso, pode servir de instrumento de políticas públicas para a educação de comunidades regionais (ligadas à saúde ou núcleos familiares), a identificarem fatores de riscos, bem como os próprios estudantes, a saberem identificar e tratar suas emoções, mas também como e onde buscar ajuda.

No artigo acadêmico em desenvolvimento, no qual esse texto foi baseado, analisamos as taxas de inclusão escolar brasileira, dos anos de 1991, 2000 e 2010, com o percentual da população (com 18 anos ou mais) com ensino médio completo, e o percentual da população (com 25 anos ou mais) com ensino superior completo, em relação às taxas de suicídios (a cada cem mil habitantes), no ano de 2019.

Os resultados apontaram que municípios com cerca de 1% a mais da população com ensino médio completo no ano de 1991, em comparação às médias das demais cidades, estavam relacionados a 2,35% menos casos de suicídios. Considerando a formação no ensino superior, o resultado foi de aproximadamente 4,05% menos casos, para o mesmo ano. Para 2010 os resultados seguiram no mesmo sentido, contudo em menor contundência. Municípios com aproximadamente 1% a mais da população com formação no ensino médio, associaram-se a 1,36% menos casos, já para o ensino superior a redução associada é de 1,90%.

Essas são evidências que apontam para o que especialistas e órgãos internacionais têm defendido: o ambiente escolar desempenha um papel importantíssimo para identificação e tratamento dos fatores de risco, além de ser um forte aliado para a prevenção ao suicídio. Reitera-se ainda o caráter exploratório de nossas análises, ficando como sugestão para trabalhos futuros a estimação de modelos causais e ainda mais desagregados, que possam servir de suporte para o combate ao suicídio através da escola.

Autores: Bruno Camboim Rochelle Rocha, Eliseu Messias Gabriel de Brito e Walcir Soares da Silva Junior

professordabliu

Economista, Doutor em Desenvolvimento Econômico (UFPR/UCL). Atualmente é professor da Fundação de Estudos Sociais do Paraná (FESP) e na Business School da Universidade Positivo (UP). É também avaliador dos cursos de graduação pelo INEP.

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