SOMMELIER DE VACINA: PORQUE VOCÊ  NÃO DEVE ESCOLHER QUAL IMUNIZANTE TOMAR

Atualmente o Brasil possui autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para aplicar quatro vacinas contra a covid-19: AstraZeneca; Pfizer; CoronaVac e a mais recente incluída no calendário de vacinação, a Janssen, produzida pela empresa Johnson & Johnson.

O fato é que ter mais de um imunizante disponível no mercado não quer dizer que as pessoas podem escolher o qual tomar, até porque não são todas que estão presentes nas unidades de saúde. Em algumas unidades, há apenas uma opção de vacina. Isso tem gerado um novo movimento na população: escolher a vacina, deixando de se imunizar caso não encontre a que procura. O que isso gera? Atraso na cobertura vacinal e a continuidade da circulação do vírus.

Dentre as justificativas apresentadas estão os efeitos colaterais causados pelos imunizantes e a desconfiança em relação a uma ou outra vacina, incentivada por figuras públicas, como o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). A busca pela dose preferida tem sido observada nas unidades de saúde e também nas redes sociais, onde essa prática ganhou o apelido de “sommelier de vacina”, em referência ao profissional, presente em restaurantes, especializado em bebidas e que ajuda o cliente a escolher o que beber.  

Nossa reportagem teve acesso a um grupo no Facebook, em que os participantes perguntam sobre quais locais estão aplicando a vacina Pfizer. “Alguém sabe onde estão aplicando a Pfizer hoje?”, questionou um usuário da da rede social. Em um dos comentários, um outro participante afirma que foi em vários locais até encontrar a dose desejada. “Eu mesma rodei SP [São Paulo] atrás da Pfizer pq [sic] meu médico não queria que eu tomasse a AZ [AstraZeneca]. Meu corpo, minhas regras!”, disse outro internauta.

Além de todos os entraves políticos para que a imunização aconteça no Brasil da forma aconselhada pelos especialistas e esperada pelos brasileiros, há ainda as pessoas que optam por não receberem a dose disponível na unidade de saúde do município, pois querem a vacina específica que não causa tantos efeitos colaterais ou que é dose única, como o caso da Janssen, recém chegada ao país.

“Isso tem um impacto imenso na nossa vacinação, porque antes a gente lidava exclusivamente com pessoas que não acreditavam na vacina, as pessoas que não queriam se vacinar, Hoje, a gente tem esse cenário que a pessoa quer se vacinar, mas acha que tem condições de escolher qual é a melhor ou a pior vacina”, diz Marcela Santos, doutora em Saúde Pública pelo Instituto Aggeu Magalhães (IAM) e coordenadora técnica da Sala de Situação de Saúde da Universidade de Brasília (UnB).       

Marcela Santos explica que querer escolher qual imunizante tomar atrapalha a cobertura vacinal e colabora para a circulação do vírus e suas variantes. A vacinação funciona como um freio para a doença, evitando que ela ganhe novas variantes mais perigosas e contagiosas.

“Temos que lembrar: estamos tratando de microorganismos, no nosso caso, é um vírus, e esse vírus sofre mutação a todo instante. Algumas mutações não conseguem desenvolver capacidade neles e outras sim. Então, quanto mais tempo a gente deixa um vírus circulando na nossa população, maior será a chance dele sofrer mutações e maior a chance dessa mutação ser mais prejudicial do que a gente presencia”, diz.         

Um cenário preocupante

Marcela Santos avalia que a pandemia de covid-19, diferente das outras pandemias que já aconteceram no mundo, é a primeira onde a população tem mais acesso à informação. No entanto, a propagação de notícias falsas é um agravante no combate à pandemia, principalmente no que diz respeito às vacinas.

“Com essa divulgação de informação em massa as pessoas tiveram contato com esse desenvolvimento das vacinas, essa variação, talvez, de efetividade entre elas, talvez também sobre as reações adversas e isso tem colocado uma barreira a ponto das pessoas quererem escolher qual a vacina que mais se adequa ou não”, analisa.

No Brasil, o órgão responsável por avaliar, liberar e acompanhar o processo de imunização é a Anvisa, mesmo com um processo bastante criterioso, muitas pessoas duvidam da qualidade e da segurança dos imunizantes. “As nossas vacinas, liberadas aqui no Brasil, passaram por uma avaliação rigorosa da Anvisa e tem sido acompanhada toda a aplicação delas”, esclarece.  

Segundo o levantamento feito pelo Consórcio de veículos de imprensa a partir de dados das secretarias estaduais de Saúde, disponível no portal de notícias G1, até às 20h de ontem, 4 de julho, apenas 36,07% da população recebeu a primeira dose do imunizante. O percentual da segunda dose aplicada no Brasil é bem inferior, 12,79%. 

Todas as vacinas são eficazes contra a covid-19

Após a aplicação da vacina, algumas pessoas relataram ter sentido dor de cabeça e/ou febre, Marcela Santos, explica que reações adversas aos imunizantes, independente de qual seja, são comuns e previstas na bula das vacinas. Os efeitos variam de pessoa para pessoa. 

“Isso vai depender do seu próprio organismo, da aceitação ou não da vacina, se você teve ou não reação, isso não quer dizer que a vacina está ou não fazendo efeito, não está atrelado a isso. A vacina vai fazer efeito mesmo sem mostrar reação ou com uma reação mais forte ou mais fraca”, esclarece.     

Até o momento, o imunizante com mais relatos de reações adversas têm sido a Astrazeneca, desenvolvido pela Universidade de Oxford, isso tem feito as pessoas procurarem outros imunizantes com o argumento de que as outras marcas não oferecem tantos ou nenhum efeito.  

No entanto, Marcela Santos reafirma que esse temor não tem fundamento científico, pois todas elas podem gerar alguma reação. De acordo com a cientista, os estudos feitos até o momento sobre a eficácia da vacina avaliam a vacinação, com um tipo de imunizante, e a não vacinação. 

“Todos os estudos que temos até o momento eles comparam o tipo da vacina com a não vacinação, e ele dá aquela taxa de efetividade que a gente escuta tanto. Todas as vacinas liberadas precisam ter o mínimo de taxa de efetividade e todas as que estão sendo utilizadas no Brasil alcançaram esse patamar”, diz Marcela. Ela explica que até o momento não há nenhum estudo comparando uma vacina com a outra. 

“A gente ainda não tem subsídio científico para dizer: “a vacina melhor é essa, e todo mundo que tem que tomar essa”, não. Todas as vacinas que estão sendo liberadas tem eficácia, foram estudadas e liberadas para o uso na coletividade”, disse.

AstraZeneca e Pfizer

Um estudo feito pela  Universidade de Oxford, de Edinburgh, de St. Andrews, dentre outras, e noticiados pela Agência Fiocruz de Notícias em maio deste ano, mostrou a eficácia das vacinas Astrazeneca e Pfizer nos casos de internação. A pesquisa foi feita com 99% da população escocesa e avaliou os impactos da aplicação da primeira dose nos casos de hospitalização. 

A análise  associou a primeira dose da vacina da Pfizer com um efeito de redução de 85% do número de hospitalizações em um período de 28 a 34 dias após a vacinação. No mesmo intervalo de tempo, o efeito da vacina AstraZeneca se relaciona à redução de 94% das hospitalizações. No período do estudo, cerca de 20% da população da Escócia tinha recebido a primeira dose das vacinas. Após esta primeira aplicação, dos 8 mil casos de pessoas hospitalizadas, apenas 58 pessoas eram do grupo vacinado.

No Brasil, a AstraZeneca é produzida pela Fiocruz. O vice-presidente de Produção e Inovação em Saúde da Fiocruz, Marco Aurélio Krieger, em entrevista à Agência Fiocruz, relembrou a efetividade da vacina da AstraZeneca em estudos clínicos de Fase 3, onde o imunizante apresentou 76% de proteção contra a infecção sintomática na primeira dose, taxa mantida ao menos durante 3 meses, aumentando a 82% de proteção após a aplicação da segunda dose. 

Para o Krieger, o estudo realizado na Escócia se soma aos estudos clínicos de Fase 3 ao ser o primeiro no mundo real a reforçar uma maior confiança na imunização com apenas uma dose, a qual permite que se vacinem mais pessoas no primeiro momento.  

Não é momento de escolher vacinas

Como forma de punir quem se recusa a tomar a vacina disponível nas unidades de saúde, algumas cidades têm adotado medidas para evitar os sommelier de vacina. No estado de São Paulo, cinco cidades criaram mecanismos para reprimir essas atitudes. Em São Caetano do Sul e São Bernardo do Campo, quem se recusar a tomar o imunizante só poderá receber a dose após os adultos de 18 anos. 

Em Rio Preto e Janes, interior do estado, quem se recusar a tomar a vacina disponível terá que assinar um termo de responsabilidade afirmando que se negou a tomar a vacina por causa da marca do imunizante. O documento será enviado ao Ministério Público. Em Urupês, a pessoa também terá que assinar um termo, mas poderá tomar a vacina depois de se cadastrar na fila da xepa.

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