SEUS OLHOS E O AMOR QUE NÃO ERA AMOR

São seus olhos cor de doce de leite que vêm na minha memória quando eu lembro daquela vez que você me olhou com uma seriedade que eu nunca tinha visto em você e disse “eu te amo”. Eu nunca acreditei em você e ainda não sei se acredito. 

Eu não lembro com frequência da sua voz e, mesmo que eu me concentre, tenho dificuldades de lembrar com detalhes do seu timbre. Quando eu lembro do dia em que você disse que me amava, eu só consigo ver os seus olhos. Foi no meio de uma conversa sobre nada de importante, numa tarde qualquer de um dia comum. 

Foi diferente da vez em que você disse para o entregador de gás que me amava. Foi a primeira – e talvez a única – vez em que você disse apenas para mim. Você me olhou como se de repente precisasse que eu esquecesse a conversa fiada e prestasse muita atenção ao que você dizia. Eu fiquei sem ação e sem coragem para te dizer que eu também te amava. 

Pensando bem, talvez eu nunca tenha dito. Eu sempre achei que verbalizar era tornar tudo mais real e pensava que, guardando essa informação só para mim, o que eu sentia deixaria de ser amor para ser algo menos. Porque em meio a minha juventude e achando que o amor era uma coisa muito complicada, eu só queria que tudo fosse mais simples. 

Talvez seja por isso que eu ainda sonhe com seus olhos depois de tanto tempo. E talvez seja por isso que, sempre que isso acontece, eu passe o dia como se tivesse um buraco no peito. É como se tivesse faltado alguma coisa. 

Eu sempre disse que fiz tudo que podia. Que eu insisti o quanto eu consegui. Amar você nunca foi fácil, assim como não foi fácil ver você subir a rua da minha casa depois que eu te pedi que nunca mais voltasse. 

Mas tudo isso não passa de uma mentira que eu criei para mim mesma. Eu sempre me vangloriei de ter tido coragem de viver a nossa história, mas isso não é verdade. Eu nunca te disse eu te amo. Eu nunca apostei de verdade na gente, sem um pé atrás. Eu sempre achei que não tinha como você duvidar do meu amor, já que ninguém mais duvidava. Mas eu duvidei do seu amor por mim – e ainda duvido. 

No fim, nossa história cheia de reticências acabou virando um grande ponto de interrogação. A simplicidade que eu almejava em não admitir que era amor nunca veio. E hoje o que nós temos é um grande livro de perguntas sem respostas, cheio de de se’s e de talvez.  

Leia mais crônicas da Kelli Kadanus na página Sonhos do Avesso.

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