Sobre ansiedades

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Oi ansiedade, você já voltou desgraçada?

Sabe esse lance de aproveitar o presente o máximo que pudermos? Ele é sério. Não tem como adivinhar como estará a sua vida nem no próximo verão, quanto mais num futuro distante. É complicado esse negócio de ter que esperar pra viver, ainda mais pra gente que nem eu, hiper banhado em ansiedade. Os ansiosos me entenderão, não é tão simples viver um dia de cada vez. Nós sabemos que assim é melhor, mas sério, não é tão fácil.

Mais de uma vez eu aconselhei ao longo de textos aqui no Regra, coisas do tipo “deixa rolar”, “vai com calma”, “cada coisa no seu tempo”, mas viver isso fora das letras, na vida mesmo, feita com todas as suas nuances entre o amor e a misantropia, é um pouco mais hard.

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A incerteza brota da face da ansiedade que me vigia nesse momento. Ela está aqui agora – quase que esqueço de te contar – sentada na janela do meu apartamento, me olhando com uma cara de dissimulada. A maldita tem olhos vermelhos como sangue, cabelos suaves como o vento e a pele branca como a morte. Ela me olha no fundo da minha alma e não me diz nada. Isso me corrói. O silencio é muito pior do que o não.

A verdade é que se você retribuir o olhar de alma pra alma, e ver a ansiedade nua como é, perceberá que o problema não é que você tem medo do fracasso vindouro, o seu único problema é não saber se ele virá. É meio doentio isso, eu sei. Mas é uma verdade quase que palpável. Mais dolorido do que o sofrimento é a incerteza do sofrer ou não. E é nesse ponto que temos que tomar cuidado, pois se não conseguirmos controlar nossa ansiedade, na tentativa de jogá-la janela abaixo podemos nós mesmos cair em queda livre e arruinarmos um futuro próspero.

Ao respirarmos fundo diante dessa angústia cíclica, vemos a ansiedade se dissipar e a calmaria voltar aos poucos para o nosso lado. Nós – os ansiosos – sofremos demais a cada período de tempo, simplesmente por não saber quando iremos sofrer de novo. Oi ansiedade, você já voltou desgraçada?

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A geração coca-cola, hoje toma Rivotril

Começou cedo, eu estava longe de casa, abri os olhos e me senti sufocada sem nem mesmo estar totalmente acordada. Coloquei a culpa na cama do alojamento onde eu estava à trabalho, já que nada dali tinha o meu cheiro ou o cheiro de algo que eu conhecesse. Odiei a ideia de aceitar dormir naquele lugar frio, sozinho e silencioso. Quando sinto que as minhas ansiedades estão aflorando, me concentro nos pontos de paz e naquele dia enviei uma mensagem para alguém que me estrutura em meio aos meus medos que surgem famintos. Mas a vida não escolhe te dar folga se você tem uma crise de ansiedade num dia de trabalho extra, tudo o que ela te oferece é um comprimidinho alaranjado que tem gosto de sossego, que na verdade me deprime, mas me segura até poder ficar sozinha e ligar para alguém que me faça respirar em paz e lembrar quem eu sou de verdade. E essa é uma parte de um dia “meio ruim” de alguém que sofre com ansiedade.

Meu diagnóstico chegou aos 18 anos, recém órfã de pai, recém iniciando a faculdade, recém dando orgulho para a família, ganhando grandes prêmios já de começo de carreira, comprando um carro, quase me casando, conseguindo quase tudo o que eu queria. E infeliz. Ansiosa demais pra desfrutar tudo isso. Me tratei durante anos com terapia, felizmente sem necessitar de medicações fortes, e melhorei consideravelmente até conseguir meu novo emprego que me obrigou mudar de cidade. Estava em São Paulo, morando sozinha, pagando minhas contas, encaminhando meu livro e planejando novas aquisições, quando numa noite acordei sozinha sem conseguir respirar. Água, respira, comprimido, respira, está tudo bem, respira, você não vai enlouquecer agora, respira. Respira. Choro. Respira. A madrugada foi me engolindo e quando melhorei razoavelmente já estava na hora de sair para trabalhar, minhas olheiras custaram um bom tempo de maquiagem. Veio como um tiro no meio da história que tinha tudo para dar certo, procurei ajuda profissional e hoje- meses depois- vivo novamente me segurando dentro dos escudos emocionais para conseguir dar conta desse coração acelerado.

A questão de tudo isso é que eu não sou a única perdida nessas crises noturnas, nesses cuidados emocionais para não sair correndo da fila do metrô ou sentar na sessão de congelados e chorar até secar no meio de um mercado lotado. A maioria dos meus amigos tomam algum tipo de calmante, floral ou usam algum tipo de química que lhes sirva de fuga anti-stress e tratam ansiedades. Alguns encontraram nos esportes, na fé, na religião, na comida, no álcool, no cigarro e afins, a superação de seus traumas que envolvem pais ausentes, sucessos meteóricos e assustadores, a superação dessas relações que são uma mistura de não-relações ou jogos de amor profundos que nos destroem e que virou moda nos últimos 20 anos. A nossa geração teve que decidir em meses entre medicina ou artes cênicas ou viver de renda paternal e tem como meta do final de mês ser feliz e provar isso nas redes sociais. A gente é obrigado a conseguir tudo antes dos 25, porque somos a geração da comunicação, somos os “google’s’ humanos e respirar, parar e pensar, é coisa de gente desocupada. Saímos de nossas casas amadas e quentinhas porque o salário já não paga mais as roupas de marca e o carrinho econômico já não combina mais com a garagem do papai. Conhecemos 6 mil pessoas online, mas não temos quem colocar na ficha do médico um nome realmente confiável no item “Em caso de emergência, ligar para:” Não casamos aos 19 porque é coisa do passado e não casamos depois dos 30 porque agora já não dá mais. Filhos, só um, tá vivendo no século XIX pra ter quatro? Paris, você precisa conhecer o Louvre ou não será digno de respeito, vai contar o quê para os filhos? Mochilar sem dinheiro por prazer? Coisa de drogado, alternativo e hippie.

Então saímos por aí dentro de nossas camisas sociais, alinhados com nossos sapatos lustrados que machucam o calcanhar, afogando dentro de um vestido colado para garantir a sensualidade, mas equilibrando para não ser vulgar e tentando ao máximo corresponder expectativas alheias que nunca se definem e são sempre extremas. Ordens que nos atropelam. Boletos que nos afogam. Padrões que nos desumanizam. Se não correspondermos esse ideal de vida que nos cobram como se fosse obrigatório evoluir na mesma velocidade que a Apple lança um celular, somos atrasados, coitados, lerdos e com poucos números na conta bancária. Falidos. Lembrei quando uma garrafa de vinho barato, comprada no posto de gasolina, me fazia feliz apenas por estar em família. Hoje em dia trabalho pesado para bancar meu Cabernet, uma única taça, olhando a sacada de um apartamento na metrópole cheia de ansiosos solitários como eu. Lembrei quando o cachorro quente na calçada ao lado das minhas melhores amigas enquanto o mundo ainda era um ideal abstrato, era o banquete dos sonhos e eu não trocaria por nada e por ninguém. Hoje em dia os restaurantes têm decorações com nomes importantes, mas eu não conheço de verdade ninguém que divide a mesa comigo. Nessa busca de sofisticar as felicidades simples, a geração coca-cola agora só consegue descansar quando tem uma caixa de Rivotril.

850km

É quarta-feira a noite. Daqui a exatas (ou não) 34 horas estarei embarcando em um avião que irá para quase 850km daqui. Serão 850km que me distanciam da minha vida, do meu estresse, da minha rotina. Terei 850km de vantagem para fazer o que eu quiser durante 3 dias. Terei 3 dias para espairecer, para aproveitar, para viver. Serei eu mesma durante 3 dias e a 850km daqui.

Há pelo menos dois meses venho imaginando como serão esses dias e, agora que eles estão cada vez mais pertos, não sei como reagir diante ao fato de que meu corpo – e minha mente – não querem entrar naquele avião. Não é a primeira vez que irei viajar pelo ar, então, na teoria, essa sensação nem deveria vir me visitar. Não agora. Justo agora, que estou quase indo a 850km de distância para encontrar a tranquilidade que não encontro de jeito algum dentro de mim.

Chega a ser ridículo o quanto a minha ansiedade me domina, me desfalca, me destrói. E ela faz tudo isso em um momento em que era para eu estar fazendo apenas a contagem regressiva para esse sumiço temporário. Será que ela não percebe que eu não a quero aqui? Será que ela não se dá conta de que tudo o que ela faz é apenas pegar as minhas mais belas gafes e trazer tudo à tona mais uma vez? Minha querida, se eu a quisesse aqui, te convocava. Mas eu não te quero, eu apenas me quero.

Me quero bem, me quero mais, me quero feliz. E é engraçado que eu tenha que ir a 850km longe de mim para encontrar justamente algo que procurei a vida toda e que está a um único fechar de olhos: a paz, a escuridão, o silêncio. Eles sim falarão por mim. E eu?, eu já não vou mais estar nem a 850km daqui.

Se não sei onde estou hoje, como saberei onde estarei daqui a exatas (ou não) 34 horas?