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Você tem medo de que?

Faz tempo que não abro essa porta que está diante de mim. Faz tanto tempo que nem sei mais como as coisas estão organizadas, se alguém já mexeu ou se continua a mesma coisa. Será que alguém leu os inúmeros rascunhos que deixei jogados sobre a escrivaninha? Será que tudo aquilo continua sendo para mim as melhores palavras que uma pessoa poderia colocar num papel? Provavelmente não, eu nunca fui tão boa assim. E, justamente por não ser tão boa assim, acabei deixando de lado muito do que acreditava. Na verdade, fui deixando para trás aquele computador sobre a mesma escrivaninha e as músicas que me inspiravam por puro medo. Sim, o medo que jurei não ter. Pois bem, olha ele aqui. Olá.

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Les Misérables

Dia desses viajei para São Paulo. Cidade grande, cinza, concreta. Tudo ao meu redor parecia que iria me engolir a qualquer momento. Os prédios me inibiam; as pessoas, intimidavam. Eu era a intrusa daquele lugar, pois não estava no meu de origem. Nesse, sim, viro o predador, onde inibo e intimido quem quer que passe por mim. Mas não na cidade da garoa. Lá, são eles que mandam.
 
Eu estava de folga, aproveitando momentos únicos ao lado de quem supostamente diz que quer o meu bem. Digo supostamente porque do íntimo de cada um eu já não sei. Pode ser que tudo seja da boca pra fora, mas talvez não. Eu nunca irei saber, entende o que quero dizer? Tive que sair do meu habitat natural, mudar de caçador para caça, para entender que nem tudo é tão claro e nítido quanto as águas do Tietê deveriam ser.
 
Às seis e meia da manhã, estava eu estendida no meio de milhares de pessoas indo de um lado para o outro, virando caças sem ao menos perceberem. Todos estamos sujeitos a sermos o que não queremos. Miseráveis, por exemplo – e não faço menção à obra de Victor Hugo. Refiro-me às nossas vidas limitadas, projetadas a não saírem do raio que nos foi imposto dentro de seja lá qual for a cidade. Entenda, somos todos miseráveis. E me dei conta disso quando eu também fui. Jamais ousamos imaginar que erros e defeitos também podem nos pertencer, mas é bem assim mesmo. Às vezes as pessoas são o que são só por serem; talvez cientes de seus passos e atitudes, talvez não.
 
Em plena Avenida Paulista, grande rio fechado e asfaltado, andava despretensiosamente só para tentar fugir dos demônios que acolhi dentro de mim com um prazer maior e mais estranho que o normal. Eles não me pertenciam, mas assim mesmo os tomei como meus. E nada melhor que uma cidade tão pouco conhecida para livrar-me deles. O plano era parar em alguma esquina, algum canto escuro como meus pensamentos em dias ruins, para expelir o que não prestava, o que me fazia mal. Viver em sociedade me deixa cada vez mais doente, mas disso eu não tenho como fugir. Ironia é sair da minha zona de conforto para encarar uma sociedade ainda mais miserável e tentar entender o porquê de certos acontecimentos recaírem apenas sobre mim.
 
Em meio à minha busca por refúgio, percebi que a cada dois passos eu tropeçava em misérias alheias. A cada esquina, os donos daquilo tudo, com sorrisos tortos, suplicantes. Os miseráveis estavam por toda parte, pedindo dinheiro, informando que estavam com fome. Assustei-me com tamanha audácia de um deles ao me encurralar e permanecer insistindo no que não ia receber. Pediu-me dinheiro, não dei. Disse que estava com fome, não fiz nada. Pediu meu frappuccino do Starbucks e EPA, AÍ NÃO NÉ – praticamente como se dissesse ao pedinte para comprar o seu próprio com o dinheiro de outros miseráveis assim como eu.
 
Percebe? Nós somos todos, sim, miseráveis.
Eles, de bens. Eu, de espírito.