Para todas as pessoas das quais me afastei

De uns tempos pra cá, minha vida mudou. Não sei bem como, mas desde que percebi isso, passei a olhar os dias com muito mais leveza. Em alguns, é claro, cometo deslizes e me vejo, também, cometendo erros onde não eram pra existir. Mas dizem que aprendemos com os erros, então continuo percorrendo esse caminho tão estranho e prazeroso.

Desde pequena, me esforcei demais em ser alguém, bem como fazer parte de algo. Acredito que consegui, mas infelizmente alguns poréns vieram junto. Tudo bem, é a vida, eu diria para mim mesma há alguns anos. Mas conforme o tempo foi passando, aprendi a usar todos os poréns possíveis de forma que eu também crescesse com aquilo. O que eu não comentei ainda é que cada um desses poréns tem nome, endereço e uma certa relevância no que sou hoje. E isso dói, porque quando menos espero, lá vem algum deles perguntando por que estou assim ou assado.

Espero ter que falar isso apenas uma vez, então lá vai: sim, eu mudei. Na verdade, como a minha vida mudou, eu acabei indo junto. E mudar é bom, certo? Quero dizer, a gente aprende a caminhar com os próprios pés, deixando meio longe aquilo (ou aqueles) que já não te faz tão bem assim. Acabei deixando pelo meio do caminho o que já não conseguia mais carregar. Foram anos de comentários, olhares, julgamentos e likes que eu nunca pedi pra ter. A vida vai muito além das redes sociais – e isso eu só fui perceber depois que caí o mais feio de todos os tombos que já tomei.

Portanto, não me levem a mal e desejem o meu bem. Eu fiz o que achei que seria melhor pra mim. Já cansei de ir de um lado pra outro sem ter a quem recorrer quando tudo dava errado, nem mesmo aqueles que se diziam sempre por ali quando eu precisasse. Então, segui sem isso, sem eles, sem ninguém que não achasse necessário. É como se tirasse de mim camadas de roupa no mais extremo calor. É libertador sentir-se livre de tudo o que te leva pra baixo ou que traz o pior que existe dentro de você. E eu… bom, eu desde sempre só quis ser alguém e ser o meu melhor; mostrar o meu melhor. Foi pra isso que fui criada e é pra isso que quero criar os meus outros futuramente.

Então, ó, pra finalizar: não fiquem tristes porque me afastei, não. Pensem que até mesmo eu, se pudesse, me afastaria de mim. Mas como não dá, sigo sendo a minha melhor companhia na minha melhor versão.

Caixa-postal

Me atende. E entende.

Me fala que está tentando consertar do teu lado o que tá quebrado aqui, dentro de mim, e por isso não ligou ainda. Me explica o que eu faço com tudo que é seu e que ficou comigo, porque eu não aguento mais tirar o pó da nossa foto na tentativa de que eu te toque de alguma maneira e que aí, do outro lado da linha, você sinta. Eu to vivendo do que tem pra hoje e parei com os planos. Todos os projetos estão parados porque eu não sei como continuar sem você. Daí, eu queria só ter certeza de que você vai atender e eu não terei que me contentar com a caixa postal me pedindo pra deixar um recado. Porque, sinceramente, eu nem sei por onde começar e nem sei se tudo isso que eu sinto cabe num recado. Eu não sei como eu coloco os livros na minha estante e não sei se você anda comendo direito, se lembrou de tirar o vinho da geladeira, porque eu saí correndo da última vez e esqueci de avisar sobre isso. Você já falou com os seus pais essa semana, mais do que cinco minutos relapsos e sem profundidade? Eles precisam de você, assim como você deles e assim como eu preciso de você. Todo o tempo.

Então, me atende. Me escuta.

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Esse texto não precisa fazer sentido

Chega uma hora que você cansa de ter que pensar em tudo. Sabe esse papo de que você tem que saber exatamente para onde quer ir? Ele não é verdade. Pelo menos não precisa ser sempre. Às vezes, dá pra você apenas viver. Curtir a vida. Fazer o que lhe dá na telha. Escrever um texto louco, sem pé e nem cabeça, que não é pra denunciar nada, e nem pra mudar o mundo, escrever apenas pra expulsar os tormentos da mente.

Sei lá, se jogar, mudar o rumo das coisas, ou não mudar nada também, e acreditar no vento como deus e em Deus como um vento. Não precisa sempre ter fé, nem racionalizar tudo. O segredo que tenho descoberto é que no fundo, bem no fundo não precisa de nada. Sem regra. Apenas caminhar. Quando quiser planejar, planeje. Caminhar, caminhe. Andar, ande. Parar, não apenas pare, e sim deite no chão, role, chore e ria até cansar. Depois comece tudo de novo.

Sem sentido no fundo é uma vida que pra tudo damos sentido. Deixa ser como será, já diria o compositor. Apenas flua no vazio complexo da sua existência.

O nada e uma foto de cachorro

Eu tenho que escrever uma crônica, pois hoje é o dia da minha crônica semanal, mas o que escrever diante do nada que está a minha mente? Talvez você me diga “mas Erick, é só fazer aquilo que você faz toda semana, escreve sobre o que está te angustiando” e eis a questão: O que me angustia no dia de hoje? Nada. Tudo. Todo esse nada que se encontra aqui ó, no meu peito.

E se ao invés de escrever um texto bem pensado, formulado e conjugado eu só digitar alopradamente as loucuras que passam por minha mente nada sã? Vamos tentar!

Essa obrigação de ter que ter o que falar é boa, pois nos faz pensar, nem que seja no nada em que nos encontramos. Pensar no nada também faz parte da vida, da evolução, da construção do nosso amanhã. Por isso eu digo que a mente vazia é oficina de nós mesmos. Eita, até que saiu algo aqui hoje.

Prometo que vou me empenhar em algo melhor pra semana que vem. Enquanto isso fique com essa imagem do meu cachorro fofinho, pois é sempre positivo terminar com uma foto de um cachorro.

Esse é o Joey, meu cachorro fofo

Sobre Sentir

eu sinto, não como os demais. sinto devagar, sem pressa. tento não pular etapas. e gosto de pensar que todo novo relacionamento pode ser algo mais. algo duradouro e que agregue. mas hoje só vejo pessoas rasas.

rasas de sentimentos; rasas de intensidades; rasas de emoções; rasas de vontades.

vejo pessoas carentes de histórias, querendo tê-las para contar no tempo passado da juventude, mas rasas na construção de cada linha que faça sentido para essa história.

vejo pessoas imediatistas, carentes de outros e de alguéns, mas rasas o suficiente para não conseguir dar nada em troca. sim, eu acredito que seja uma troca, uma troca de sentimentos.

vejo a ansiedade do novo, a curiosidade pelo desconhecido, a euforia pela quantidade; mas não há espaço para o profundo, para o intenso, para a loucura. loucura, sim, por que não?

enfim, vejo pessoas rasas. rasas demais.

Márcio Rodrigues é uma pessoa comum, com um travesseiro para 40 mil pessoas

Escritor, músico, publicitário, apaixonado pela vida e um cara extremamente comum. Márcio Rodrigues é paulistano, tem 29 anos. Apesar de escrever rotineiramente não se considera um grande escritor. Apesar de fluir em suas linhas com palavras perfeitamente encaixadas, não se classifica como um grande leitor. Se suas inspirações não vem dos livros de onde elas vem? Das ruas, das vielas, dos metrôs, das conversas, dos comuns, pessoas comuns, como eu, você e principalmente o próprio. A sua página “Um Travesseiro Para Dois” já está com quase 40 mil curtidas no Facebook, seu blog já ultrapassou 3 milhões de acessos. Já tem um livro lançado, e está se movimentando para o segundo. Esse fenômeno que é o Márcio Rodrigues é uma pessoa simples, de uma humildade singela e de um coração que não cabe no peito. Conheça um pouco mais a fundo a pessoa de Márcio Rodrigues.


Erick Reis – Márcio, vamos começar pelo início de tudo. Como foi sua infância?

Márcio Rodrigues – Entre vergonha de cumprimentar garotas por conta das minhas espinhas e boas notas na escola, minha infância foi feliz. Sempre gostei de escrever. Na adolescência, influenciado pela ideologia Straight Edge, me tornei vegetariano. Canhoto, até os 15 eu queria ser o Ronaldinho e me dedicava em escolinhas de futebol. Troquei esse sonho por aprender a tocar violão e pela necessidade de trabalhar para ajudar minha família. Meu primeiro emprego foi numa fábrica na minha rua. Fiquei 2 semanas. Sou filho único, de pais separados, moro com a minha mãe e a minha tia – e esta composição familiar, inclusive, me influenciou a escrever sobre o amor que pode unir as pessoas, pois tive o exemplo em casa de como a falta de amor faz mal não só para o casal, mas para a família. Aos 16, finalmente, depois de sofrer por amores não correspondidos, dei meu primeiro beijo e já pedi a garota em namoro – sou ansiedade com ascendência em expectativa. Ela era a garota da minha vida até terminar e eu conhecer a próxima garota da minha vida.

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E – O seu primeiro emprego durou duas semanas, seus namoros foram sempre banhados de ansiedade com tempo de validade. Para Platão nós amamos tudo aquilo que desejamos, e desejamos o que não temos. Você consegue notar isso nas pessoas ao seu entorno? E em outras situações, a teoria do amor platônico se aplica na sua vida também?

M – Penso que amamos o que sonhamos ter e isso pode ser algo ou alguém. Amamos a resposta que nem recebemos e amamos tanto que nem pensamos que ela pode ser ruim, isto é, “por favor, não me deixe falando sozinho, eu vou gostar de receber uma mensagem sua”. Acho que existe amor platônico na nossa vida inteira, ora por alguém, ora por uma viagem que queremos fazer, por exemplo. Não temos, mas queremos tanto. O que compromete isso é o pessimismo e a neutralidade sentimental, pois eu acredito que é preciso se assumir, é preciso assumir ser fraco – estar num dia ruim, é preciso assumir que “te quero de volta”. Quando a gente rompe essas barreiras, o platônico é atenuado e se transforma em possível. Então nos exemplos que citei no começo: quando você fala pra alguém que você gosta desse alguém, as chances de dar certo são maiores que guardar pra si; quando você economiza pra viajar, as chances são maiores que só querer. É preciso sair da inércia sentimental de só querer.

E – Você disse que “é preciso assumir ser fraco”, mas você diante da vida se sente fraco ou forte? Seria a escrita a sua fortaleza de revitalização? A arte te torna forte, ou ela apenas demonstra a sua fraqueza?

M – Eu me sinto real. Assumir ser, eventualmente, fraco é assumir ser real. É deixar a casa cair para que possa reconstruir. Minha escrita é real, de dias bons e ruins, de choque de realidade, recheada de “uau que alegria incrível” e “que saco passar por isso. A arte, enquanto escrita ou música, principalmente escrita, me lembra de que não sou perfeito. É um refúgio para eu ser quem sou, falar do que quero. Falar de coisas que não vivo e de coisas que vivo demais, sobretudo, me ajuda a entender que tudo bem eu ter fraqueza, pois nenhuma fortaleza nasce pronta.

E – Quais foram suas primeiras paixões na escrita?

M – Eu sou um péssimo leitor. Pés-si-mo. Talvez por eu me dedicar tanto a escrever e faltar tempo, talvez por eu não ter vergonha na cara mesmo, mas eu sempre li as colunas do Veríssimo e livros do Marcelo Rubens Paiva. São escritas que gosto. Tem algo além também: de certa forma, na minha cabeça, eu não leio outros autores do meu segmento para eu não me influenciar e manter um estilo próprio. Ainda reforço que é um comportamento errado, pois ler é fundamental, mas estou em mudança desse hábito. Se eu não me tornar um bom leitor, que eu seja um leitor menos pior então.

E – Você considera a sua leitura ainda fraca, o que mais você acredita que precisa melhorar em você?

M – Muita coisa, quase tudo. Acreditar que não tenho no que melhorar seria tolice. E me excito com a possibilidade de melhorar sempre, mesmo no que acredito desempenhar um bom papel. Confio no “se melhorar, melhora”. Mas, hoje, eu gostaria de organizar melhor meu tempo. Tenho muito a fazer e deslizo em prioridades, aí acabo entrando no ritmo de “depois eu faço” – e não faço. Daí o fim de semana chega e vai embora, o mês chega e vai embora, o ano chega e vai embora e eu não evoluí. Então, o que eu precisaria mudar principalmente em mim hoje e que me ajudaria na vida um modo geral seria: organizar meu tempo.

E – Você se apresenta como um ser falho. Você acha que se mostrar comum te aproxima do seu leitor?

M – Eu acho, sim. Gosto da proximidade que tenho com quem lê meus textos. Não quero que idealizem alguém que não existe e criar uma imagem de “nossa, como eu queria um homem assim”. Por isso meus temas são variados, para que concordem ou discordem de mim, mas que sobretudo criem a própria opinião.

E – Como você começou a escrever?

M – Comecei a escrever no Fotolog, há 15 anos ou mais. Mas tudo mudou mesmo quando ganhei um concurso de redação no clube em que eu era sócio – na mesma época. Era um Concurso de Redação, divido por faixas de idade. O tema era livre. Eu não lembro direito sobre o que escrevi – o que é uma pena – mas eu acho que era sobre a minha adolescência e os meus amores. Sabe, minha família não tem aquela composição-tradicional-almoço-com-a-vó, meus pais se separam quando eu estava na puberdade e tudo ficou confuso. Tinha acabado de entender que eu era filho único e aí tive que lidar com o fato de não ter pai em casa. Retomando (risos), quando eu ganhei o prêmio eu mal entendi. Eu era tão novo que fiquei feliz com a medalha mas não imaginaria onde me levaria hoje.

E – Como foi lançar o primeiro livro?

M – Lançar o primeiro livro foi um sonho que eu nunca tive. Este sonho foi plantado em mim pelas pessoas que me leem a mais tempo e floresceu com uma alegria que eu nunca tive antes. É bom sentir coisas que nunca sentimos antes, principalmente coisas boas. Então, as pessoas que me leem que são as responsáveis pelo meu primeiro livro. Agora gostei e já estou escrevendo outro.

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E – Vida de escritor no Brasil, como é?

M – Como eu não me considero escritor como os outros gigantes por aí, não sei dizer com propriedade como é essa vida, pois eu trabalho muito formalmente ainda. Mas pela experiência do meu livro posso dizer que é bem complicado. Se você quer dinheiro, pense duas vezes. E este é meu trunfo: nunca pensei em ganhar dinheiro, em ser “famoso de internet” ou coisa do tipo, eu só escrevo uns textos sobre umas coisas que a gente vive mas que olhando de dentro não fazem sentido. Aí eu escrevo. E aí as pessoas leem, pensam um pouco, refletem nas atitudes e tomam suas próprias decisões. E vamos juntos nisso.

E – Nesses anos de versos, textos e crônicas  acredito que você teve alguns retornos dos leitores. Qual mais te marcou?

M – Realmente são muitos relatos incríveis. Recentemente um homem disse que conheceu a namorada dele pelos comentários do blog. Só tem um detalhe: ela mora em Tocantins e ele em Piracicaba – interior de SP -, se não me engano. E daí? Foi amor. Pena que acabou, mas enquanto existiu foi incrível – e saber disso me deixa sem palavras. Mas, tenho uma história especial: uma leitora que sofria de câncer me mandou um e-mail falando que meus textos a ajudavam a superar. Li e chorei. A gente não tem ideia da nossa influência, né? Eu tenho a ferramenta do blog que chega em mais pessoas, mas todo mundo tem voz, isto é, todo mundo pode influenciar quem quiser e puder conversar. Ela me ensinou mais da vida que qualquer livro da escola.

E –  Muitas pessoas pensam em montar um blog, escrever crônicas. Mas o que as prende? Seria o medo do que os outros vão pensar? Seria a falta de confiança em si mesmas?

M – Acho que existe esse receio mesmo, receio de se expor e, principalmente, de “não gostarem” dos textos. Uma oficial vergonha que eu acho bobagem. Me pergunto: será que o Veríssimo que citei lá em cima termina os textos e pensa: “uau, eu sou um gênio!”? Acho que ele só escreve. Acho que tem a ver com a falta de confiança também. As pessoas só precisam ter menos medo de mostrar quem são.

E – Clarice Lispector sempre disse que escrevia por necessidade. O mesmo acontece com você? Se escrever desse pena de morte, você escreveria mesmo assim?

M – Acho que acontece o mesmo que eu sim. Eu amo escrever e nunca me importa se teria alguém pra ler. Acho que esse é o segredo: nunca escrevi para agradar, escrevi e escrevo para me realizar. O que mudou é que pessoas começarem a ler a se identificar. Não tenha dúvidas que eu escreveria mesmo se houvesse pena de morte. Até porque é algo incontrolável, por vezes mais forte que eu. Ainda que matassem meu corpo, teria uma alma viva andando pelas entrelinhas das pessoas que já leram.

E – Se você pudesse mudar uma só coisa em todo o mundo, o que mudaria?

M – Se eu pudesse mudar uma só coisa no mundo, bem, será que daria para mudar algo? Eu queria que as pessoas tomassem injeção de otimismo. Uma pessoa otimista é invencível, automaticamente o pessimismo seria anulado. Eu acredito tanto na energia que a gente emana e que ela pode resolver a grande maioria dos nossos problemas, então, talvez, eu mudaria o jeito que a gente fica triste, que a gente lembrasse de ser sempre otimista. Imagina como seria o mundo se TODOS NÓS fôssemos mais otimistas?

E – Se essa fosse sua última oportunidade de deixar um recado para seus leitores, o que diria?

M – Eu diria para os meus leitores que, cada quem já me leu, pode dormir com a certeza de que fez alguém muito feliz. E que este alguém sou eu; feliz com cada comentário e cada soma de energia. Diria obrigado por falarem comigo, por trocarem toda essa força e diria para se colocarem mais no lugar dos outros, acreditar que este tal de amor é real e mora dentro da gente e, por fim, diria que o melhor está por vir.


Márcio Rodrigues é um dos convidados do próximo Regra Soma. A sexta edição do evento acontecerá em São Paulo no próximo dia 10, às 16h no Diminuta Bar. O evento é gratuito. Confira mais detalhes aqui. Confirme sua presença.


Gostou da entrevista? Não esqueça de curtir a página do Regra dos Terços no Facebook. E se quiser indicar novos entrevistados, é só mandar um e-mail para regradostercos@gmail.com.

850km

É quarta-feira a noite. Daqui a exatas (ou não) 34 horas estarei embarcando em um avião que irá para quase 850km daqui. Serão 850km que me distanciam da minha vida, do meu estresse, da minha rotina. Terei 850km de vantagem para fazer o que eu quiser durante 3 dias. Terei 3 dias para espairecer, para aproveitar, para viver. Serei eu mesma durante 3 dias e a 850km daqui.

Há pelo menos dois meses venho imaginando como serão esses dias e, agora que eles estão cada vez mais pertos, não sei como reagir diante ao fato de que meu corpo – e minha mente – não querem entrar naquele avião. Não é a primeira vez que irei viajar pelo ar, então, na teoria, essa sensação nem deveria vir me visitar. Não agora. Justo agora, que estou quase indo a 850km de distância para encontrar a tranquilidade que não encontro de jeito algum dentro de mim.

Chega a ser ridículo o quanto a minha ansiedade me domina, me desfalca, me destrói. E ela faz tudo isso em um momento em que era para eu estar fazendo apenas a contagem regressiva para esse sumiço temporário. Será que ela não percebe que eu não a quero aqui? Será que ela não se dá conta de que tudo o que ela faz é apenas pegar as minhas mais belas gafes e trazer tudo à tona mais uma vez? Minha querida, se eu a quisesse aqui, te convocava. Mas eu não te quero, eu apenas me quero.

Me quero bem, me quero mais, me quero feliz. E é engraçado que eu tenha que ir a 850km longe de mim para encontrar justamente algo que procurei a vida toda e que está a um único fechar de olhos: a paz, a escuridão, o silêncio. Eles sim falarão por mim. E eu?, eu já não vou mais estar nem a 850km daqui.

Se não sei onde estou hoje, como saberei onde estarei daqui a exatas (ou não) 34 horas?

Eu não nasci pra viver essa vida

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(foto | Erick Reis)

Eu não nasci pra viver essa vida. Muitos falam pra mim (inclusive eu mesmo) que a vida é dura, que nem sempre podemos fazer tudo o que queremos. Mas vozes falam pra mim (vindas de mim mesmo) que a vida não precisa ser vivida assim, ela pode e deve ser vivida fora do sistema.

Temos apenas duas opções, ou nos encaixamos nos moldes padrões e vivemos segundo os demônios do mundo, ou vamos na contramão disso e enfrentamos os nossos próprios demônios. Qual é mais cruel? Qual tortura mais? Qual caminho é mais penoso? Pra muitos é o próprio, pra mim, é o de muitos.

A vida segue com os seres perambulantes do planeta, a grande maioria seguindo apenas o fluxo do rio. Eles não se questionam para onde estão indo, apenas vão porque todos estão naquele caminho. Li em um livro de um cronista curitibano que “nós passaremos em branco”, é Luís Henrique Pellanda, você tem toda razão, passaremos. Podemos fazer o que quisermos, mas ao fim de tudo, ao nos depararmos com a cruel realidade do abismo dos famosos sete palmos abaixo da terra (se bem que hoje, talvez na tentativa de fugir desse destino, muitos tem optado por sepultar seus mortos em gavetas verticais) tudo o que tivermos construído se esfarelará, assim como nossa massa corpórea. De que adianta viver uma vida mecânica? Agradando aqueles que assim como nós, desaparecerão ao passar de algumas milhares de noites? De nada meu caro, de nada adianta.

Se quer ser eterno, eternize-se na pintura, pois veja bem, até hoje falamos dos selvagens homens das cavernas. Se quer ser eterno, eternize-se na música, quase 200 anos depois, ainda falamos de Ludwig Van Beethoven. Plante uma árvore, ou milhares delas assim como fez Sebastião Salgado. Cada um tem sua maneira de eternizar-se, alguns só precisam encontrar.

Mas para mim, a grande questão da vida não é o fato de passar em branco após o falecimento, a grande questão é encontrar e rabiscar a folha central de si, para não passar em branco pra você mesmo.  Essa cruel realidade atormenta as noites de sono daqueles que a vislumbram mas ainda não conseguiram palpá-la. Esse é o mundo no qual vivemos.