A depressão é injusta

A depressão é um monstro que quer te devorar. Comer suas vísceras enquanto você implora por clemência. A depressão não observa idade, cor, gênero ou classe social. A depressão é cruel, é imoral, é perversa. Ela te abraça nos piores e melhores momentos da sua vida. Estou te avisando, essa maldita não tem piedade.

A depressão amedronta os mocinhos e os vilões, os bonitinhos e os feios, os corajosos e os covardes. Nos momentos das mais gloriosas vitórias ela vem e te joga no chão, só pra te lembrar que esses momentos bons vão passar e que no fundo a vida continua sendo uma merda.

Você pode amar e ser amado, querer e conquistar, mas ela não se importa com isso, ela não se importa com nada. Ela só quer o seu fim. Ela te alimenta e se alimenta do seu desgosto. Ela quer que você não veja o brilho nos olhos das crianças e nem o sorriso da sua platéia.

A Depressão é uma desgraçada desalmada que te mistura com os excrementos da síndrome do perdedor. Se você chega em primeiro ela te lembra que ainda não alcançou o recorde histórico. Se você conquista ela te lembra que dava pra ter conquistado mais. Se é amado ela te lembra o quanto você já machucou esses amantes.

Ela está sempre ali, do seu ladinho, esperando a primeira brecha pra te destruir. Ela é o ó do borógódó.  Hoje você acorda bem e amanhã você é ela, a depressão em pessoa. Cuidado, uma vez que em ti ela faz morada, é muito difícil de expulsa-la, pois ela passa a ser amalgamada na sua alma.

Quando estiver sendo enforcado por ela lembre-se, ela jamais é justa, jamais é boa, jamais é bem vinda. A vida vale mais e a depressão sabe disso, e tenta fazer com que você jamais se lembre dessa dádiva.

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Vídeo do Dia | PC Siqueira, Cauê Moura e Rafinha Bastos – A vida é uma bosta

Três homens barbados conhecidos como os tiozões da internet se reúnem em um estúdio todo zoado. É feito para ter cara de largado, solto, de qualquer jeito. Mas por traz da identidade visual o canal Ilha de Barbados encontra uma ótima estrutura, equipe e conteúdo. No vídeo que separei para vocês hoje, vocês vão conferir as confabulações do PC Siqueira, Rafinha Bastos e Cauê moura sobre a vida. A cobrança que fazemos de nós mesmo. A nossa incessante busca por mais. Confira.

 

A gente se sabota para se aturar

Cigarro, bebida, balada, música deprê ou literatura Cada um tem seus meios de sabotagem Auto-tortura ou maneira de expulsar sua dor Dê o nome que você quiser, mas a verdade é que cada um tem seus meios de aguentar Mesmo que isso faça doer mais Sangrar mais

É preciso ter uma válvula de escape, mesmo que ela seja dolorida Mesmo que cause mal Mesmo que só piore tudo Mas é uma maneira que temos para não pôr um ponto final no peso da vida

Pessoas que dizem que são felizes o tempo todo, satisfeitas e completas ou mentem pra si, ou eu as odeio Não da Não consigo conviver com pessoas assim Prefiro os intensos Prefiro aqueles que sentem em demasia Aqueles reais, os que sangram

A vida é pesada Existem momentos em que estamos mais fortes e aguentamos os trancos Mas geralmente a vida pesa mais do que podemos suportar E é aí que corremos para o flagelo nosso de cada dia A forca nossa de cada dia

O pão nem sempre saceia a fome O vinho nem sempre mata a sede E como viver com isso? Não me venha com o papinho de que tem gente que queria estar onde estou Isso não me ajuda a melhorar, só me mostra que a vida pode ser ainda mais cruel do que se apresenta atualmente

O que está acontecendo? Você pode me perguntar Sou eu que estou acontecendo Meus pensamentos E o peso disso ninguém pode medir No mais vou seguindo Agradeço e sorrio Corto minha alma enquanto transito entre vocês

Continuo sem o ponto final, so não sei até quando

O que lhe dói mesmo é a alma

Maria do Socorro  nasceu em um berço muito humilde, no interior do Ceará. Passou fome, passou sede, viveu de tudo e desde cedo o desamor esteve presente no seu peito. Seu pai alcoólatra, sua mãe franzina, sua terra sem gado, sem luxo, não tinha nem mato. Sentia dores no peito na adolescência, precisou operar o coração. Ao melhorar ela se arriscou, foi para a capital ser babá, empregada e humilhada. Encontrou um homem, Geraldo era bonito, meigo, mulherengo e marinheiro. Teve um filho, casou com o homem, mas ele não casou com ela. Teve uma filha.

Era um dia quente como todos os dias em Fortaleza, era um dia triste, como todos os dias daquela mulher. As fofocas, as intrigas e as mentiras. A vizinha fulana de tal tinha acabado de comprar uma nova geladeira, só poderia ter um amante, ou então seu filho estava envolvido no tráfico de drogas, atividade mais que comum naquela comunidade.

Roberta do Socorro filha de Maria precisava de uma toalha, mas Maria não poderia ir lá buscar, pois ainda não havia descoberto o que estava acontecendo de errado (de certo é que não poderia ser) na vida da vizinha – vai filho, sobe lá na laje e pega a toalha pra sua irmã – teria dito Socorro. O garoto Tiago sempre obediente, sempre sorridente, e sempre brincalhão foi, no auge dos seus quatro aninhos, junto dos seus dois amigos inseparáveis.

Diz que quando ele pegou a toalha o filho do seu Zé decretou que quem chegasse por último seria a mulher do padre. Ele correu, o filho do seu Zé correu e o outro garoto filho duma mãe, mas sem nenhum pai correu também. Na beira da laje estava a escada, no final da escada era o ponto de chegada, o filho do seu Zé que largara na frente já estava na escada, e o outro, filho duma mãe temendo a derrota bateu no ombro do Tiago, que tropeçou na toalha e foi nesse momento que parece que o chão recuou, dizem os vizinhos que foi coisa do tinhoso. E lá foi Tiago, sem tempo para chamar por Socorro, chegou primeiro no asfalto, mas foi por um atalho, não seria a mulher do padre, nem a mulher de mais ninguém, ele descansaria a cabeça naquela pedra, fecharia os olhinhos para nunca mais abrir, nunca mais sorrir, nunca mais brincar. Dizem os vizinhos que ele agonizou, mas em silêncio, pois sua mãe sempre mandou ele calar a boca, essa foi a última vez que ele obedeceu.

Maldita seja Roberta que precisou de uma toalha! Teria dito Maria para si mesma, colando as duas mãos sobre a boca da consciência espantada pelo seu pensamento.

Maria do Socorro no fundo se culpava por ter mandado o menino ir buscar a toalha, mas também culpava Roberta, que tinha dois anos de idade e fez xixi na calça e precisou de uma toalha. Maria se culpava por culpar Roberta. Socorro precisava de carinho e de atenção, mas quem lhe daria isso se o homem com quem tinha casado não era casado com ela? Ela chegou a pensar que ele teria outra família, mas logo descartou essa dor, pois pela quantidade diferente de cheiros, cabelos e batons, ela percebeu que ele era um homem de muitas mulheres, mas de família nenhuma.

Maria engravidou novamente, ela teria pensado que essa criança faria aquele homem a amar. A criança nasceu, e ainda no hospital morreu, dizem os vizinhos que o mesmo demônio que havia recuado o chão para Tiago demorar um pouco mais caindo recuou o ar e fez o bebê não poder respirar. Maria precisava de socorro, e em uma tentativa desesperada para sanar a dor fez de tudo para engravidar novamente,  conseguiu. Agora não teria mais jeito, o homem que ela casou mas que não era casado com ela teria que lhe dar amor.

Mas segundo os vizinhos a alma dos dois filhos perdidos ficaram presas dentro de Maria, alojadas em alguma parte do coração. As almas chutaram o bebê pra fora, Maria do Socorro pariu um filho de apenas sete meses, o seu nome seria Elias das Almas do Socorro. O homem que nunca casou com Maria, mas que ela era casada a abandonou para finalmente casar com uma mulher, a mulher da sua vida, e sumir para o outro lado do Brasil, Curitiba. Terra distante, terra de trabalhador. O Nordeste é casado com o Sul, mas o Sul não é casado com o Nordeste, dizem os vizinhos que o Sul quer fazer igual o homem que nunca foi casado com Maria.

Maria do Socorro sofreu, não que em algum momento da sua vida ela tenha sido feliz, mas nesse instante ela sofreu mais do que jamais imaginou que conseguiria sofrer. A alma dos seus dois filhos atormentava seu coração, a alma do seu pai já falecido atormentava suas lembranças, a saudade do homem que ela foi casada atormentava seu futuro. Mas ela tinha dois filhos para cuidar, Roberta que foi culpada pela morte de Tiago e que era culpada pela culpa que Maria sentia ao culpa-la e Elias que mais parecia um resto de parição.

Dizem os vizinhos que Elias cresceu nas vielas nu, brincando com os ratos. É como aquela história do garoto que cresceu na floresta e foi criado por lobos, por isso se sentia lobo. Elias foi criado com os ratos e se sentia um, parecia com um. Dizem os vizinhos que um dos vizinhos teria ligado para o homem que nunca foi casado com Maria e teria dito que se ele não cuidasse das crianças elas morreriam, pois Maria só tinha tempo de cuidar das suas dores.

Foi num ato desesperado para salvar a vida dos filhos que o homem os levou a força para morar com ele. Agora Maria não tinha mais chão, nem pai, nem mãe (que também colhia suas dores dia após dia no interior do Ceará) nem filhos, nem marido, nem amor. Sua alma corroía a sua história, seus medos estavam enraizados nas amarguras do passado. Maria clamava dia após dia para ser amada. Dizem os vizinhos que era possível ouvir a sete quarteirões dali sua alma clamar por um abraço, um carinho, um cuidado de quem quer que fosse. Assim como os corpos físicos dos seus filhos mortos apodrecia a sete palmos abaixo da terra a sua alma apodrecia a sete quarteirões abaixo do inferno.

Um dia, atendendo aos pedidos desesperados daquela mulher que agonizava em suas mazelas, teria saído de algum canto um homem, que veio com pose de herói mas com a aparência de bandido socorrer aquela pobre mulher. Maria casou com aquele que os vizinhos diziam ser enviado de Satã, mas ele também não casou com ela.

Socorro ainda sofria, a alma dos filhos no coração e a dor de ter os outros dois tão longe fez  Maria gritar tão alto, mas tão alto, que o som atravessou com o vento do Nordeste ao Sul do país, e um dia em que o primeiro homem que não foi casado com Maria estava sentado embaixo de uma árvore sentindo a brisa fria bater em seu rosto, sentiu a pancada forte do grito de Maria que veio com os ventos. A pancada foi tão forte, mas tão forte que o matou e a sua alma para se vingar de Maria levou também os outros dois filhos. Ao saber da notícia Maria não aguentou mais, seu coração sufocou as almas aprisionadas nele, matando-as até na morte e o seu corpo ficou necrosado.

O segundo homem que Maria casou, mas que nunca foi casado com ela a abandonou, roubando tudo que ela tinha em casa. Maria, com toda a dor do mundo odiou aquele homem a tal ponto de abrir uma fenda no inferno e o devolver para lá. Mas o homem roubou tanto de Maria que junto com todos os seus móveis levou também uma parte significativa da sua alma. Maria sofre hoje com necroses, cânceres e depressão, mas no fundo, bem no fundo o que lhe dói mesmo é a alma que está pela metade

Ele é limbo e quer sonhar 

Ser limbo faz parte dele, assim como ser sonhador

Ele nunca imaginou que conseguiria ir tão longe. Ele sempre quis, mas sabe como é né? Nem sempre nos sentimos tão capazes de realizar nossos sonhos. Ainda assim ele lutou. Antes do que as estatísticas previram ele chegou lá.

Ele olhou para os lados, avaliou o seu ambiente e se assustou, não era esse o lugar que ele imaginava. Ele sente saudades do tempo em que esse ambiente era apenas um sonho. No sonho as pessoas seriam verdadeiras. No sonho ele faria a diferença. Hoje ele não sabe se realmente faz. E as pessoas não são.

Quando tudo parecia longe demais para ser alcançado ele imaginava que essa tristeza seria passageira, mesmo que fosse em um espaço de tempo deveras longo.

Ele chegou e foi feliz, ou melhor, empolgado. A empolgação fez ele se fixar por ali. Tinha alcançado aquilo que sonhou. Ele burlou o tempo, chegou antes do mesmo. Ficou vivendo esse momento como se fosse único – e era, pois todos os momentos são únicos.

Mas como em todo sonho um dia ele acordou. Acordar o fez triste de novo. Inquieto. Inseguro. Sentiu-se incapaz.
Então ele quer criar outro sonho. Voltar a acreditar que a tristeza um dia vai passar. Ele não quer se sentir assim pra sempre, mesmo sabendo que sentir-se assim é a sua sina.

Ele tem pequenos momentos de repousos, logo seus novos sonhos não passam de pequenas imaginações mais passageiras do que qualquer tempo, sonho ou nuvem.

Ele tem lutado pra sair desse limbo. Mas ele é limbo. Criou os seus próprios remédios para dormir e quem sabe sonhar, mas como todos os remédios feitos pelo homem, esses também têm seus efeitos colaterais.

Ele não sabe o que mais esperar da vida. Ele não sabe se um dia conseguirá seguir por esse caminho. Pela primeira vez ele está com medo de arriscar. Não que ele nunca tenha sentido medo, mas esse medo paralisador é único.

Ele sabe que no fundo ele vai além. Isso está marcado na sua pele. Ir além faz parte da sua identidade. Mas hoje, nessa fase ele tem medo de não ser ele mesmo. Medo de deixar de ser limbo para ser flor. Como todos querem que ele seja. Ser limbo é o que faz ele ser quem ele é. Ele sente orgulho de si. Mas não quer ficar lá. Ele deseja sonhar de novo. Ele vai mais uma vez tentar dormir em todo o seu caos.

Você também pode ficar triste

A tristeza existe para que possamos gostar da felicidade
A tristeza existe para que possamos gostar da felicidade

A tristeza também faz parte da nossa vida, não podemos evitar isso. É graças a ela que valorizamos tanto os momentos de felicidade. É preciso o tumultuo para percebemos quão bem nos faz calmaria. Então da próxima vez que a dor bater à sua porta não fuja, cumprimente-a, a chame para entrar, abrace-a, compreenda os seus motivos e somente depois de tudo isso, convide-a gentilmente a se retirar com um “até logo”. Acredite em mim, isso também faz bem.

Se a vida fosse feita apenas de gozos não veríamos a felicidade de uma maneira tão positiva assim, seria apenas mais um sentimento, mais um estado de espírito. Você não liga para o asfalto da sua rua porque ele tem cor de asfalto e todos os asfaltos são iguais. Os sentimentos funcionam da mesma maneira, se eles tivessem todos o mesmo tom, seja de cinza ou de laranja, não daríamos importância para eles.

É por isso que eu venho lhe afirmar que a tristeza existe para que possamos gostar da felicidade, para entendermos o quanto ele é boa, o quanto nos faz bem e assim valorizarmos  a cada instante em que se faz presente. Já dei algumas dicas para atrair a felicidade para perto de você aqui no Regra, faça isso, mas sem pressa. Primeiro entenda o que trouxe a tristeza para o seu eu, visualize a lição que isso lhe trouxe, reflita. Depois sim, chame a felicidade e deleite-se nela e em todas as suas cores.

Eu já fui invisível, assim como você

transtornoOi, quero falar com você se que sabe que é invisível. Eu quero te contar um pouco sobre como eu me sinto, quem sabe assim o seu sentir se faça mais claro na sua cabeça. Quando eu era criança olhava para as outras pessoas e podia ver nos gestos delas o quão diferentes eram de mim. Lembro-me de uma árvore que tinha no meio da arquibancada da escola, era o lugar onde ninguém se arriscava sentar, pois as folhas caiam e deixavam tudo com a aparência meio feia – pelo menos era assim que as pessoas viam -, não pra mim. Aquele era o meu pequeno pedaço de paraíso.

Mas nesse paraíso a felicidade não fazia morada. Eu me lembro de olhar para aqueles adolescentes contentes, que iam de um lugar para o outro, sem tardar em escancarar os seus sorrisos, e me perguntava o motivo que me levava a ser tão diferente deles. Eu demorei a fazer amizades, demorei a ter coragem para chegar em uma garota, demorei para me sentir útil nessa Terra. Ninguém sabia que me sentia assim. Por isso vim aqui falar com você, que não tem ânimo para sair por aí e mandar o mundo ir à merda – hoje eu consigo, então talvez amanhã você também possa.

Vim falar contigo para lhe avisar que já fui como você – ainda meio que sou -, por isso sei que um dia você só será esse garoto às vezes. Na maioria do tempo irá sorrir para as outras pessoas, e fará coisas para que elas lhe sejam gratas. Talvez um dia você seja bem quisto pelos outros e verá todo o esforço que fez para ser aceito gerar resultados. E quando o menino da árvore voltar? Bem, eu escrevo, provavelmente você também encontrará sua válvula de escape.

Quando eu era apenas o garoto que sentava embaixo da árvore eu não pude ler nenhum texto assim, talvez isso tivesse me ajudado a pelo menos perceber que eu não era menor ser humano dessa Terra. Existem outros pequeninos por aí, essa notícia teria me ajudado a mudar um pouco meus dias. Mas bem, agora você já sabe e se precisar conversar sobre isso me manda um e-mail [ericknreis@gmail.com], pode ser? Desejo sorte pra você garoto(a),e sei que provavelmente nem nos conhecemos (ou nos conhecemos?), mas não estou brincando que você pode me escrever.

Um grande abraço.

Não há vantagem alguma em ser invisível

De tempos em tempos, uma sensação estrondosa toma conta de mim e, quando a encaro – outra vez -, percebo que não sei se ela é boa ou ruim. Aí, pra tentar descobrir, sempre recorro a uma obra que, para mim, é de uma grandiosidade sem fim.

Já não é mais segredo que o filme As Vantagens de Ser Invisível é o meu favorito há, pelo menos, uns 3 anos. Meu primeiro contato com ele foi um dos mais aceitáveis, digamos assim. Vi que a Emma Watson era uma das protagonistas e, então, como boa fã da saga Harry Potter, resolvi assistir. E que ótimo que usei dessa “desculpa”, pois sem ela esse filme talvez não estaria nos meus top melhores filmes da vida.

Pra quem não conhece, o filme conta a história de Charlie (interpretado maravilhosamente pelo Logan Lerman), um adolescente que está se recuperando de uma depressão desencadeada por conta do suicídio de seu melhor – e único – amigo e que irá encarar, pela primeira vez, o terror do Ensino Médio. Enfrentar uma depressão já não é algo fácil, então imagine enfrentá-la sabendo que não possui mais ninguém além de sua própria companhia. Charlie leva uma vida monótona e, digamos, careta. Pelo fato de querer ser escritor – e ser considerado como nerd por conta disso -, ele não recebeu as melhores boas vindas que alguém poderia receber. Pelo contrário, ele acabou sofrendo bullying por andar com um livro embaixo do braço e por ser sempre solitário e quieto.

Com o decorrer do filme, é mostrado as inúmeras dificuldades que Charlie possui para se aproximar de alguém. É mostrado, também, a coragem que ele toma quando se senta próximo a um repetente de uma das aulas que faz, Patrick, em um jogo de futebol da escola. Ou, ainda, a determinação que ele tem em ir até a rodinha de dança de Patrick e sua meia-irmã, Sam, bem no meio da pista do Baile de Boas Vindas, e se tornar parte daquilo também. Aproximar-se de pessoas estranhas nunca é fácil para quem, por natureza, é introvertido. Mas é possível, basta fazer uso de diversas tentativas. E Charlie conseguiu utilizá-las muito bem.

Mas e quem não consegue? E aqueles que continuam em seus cantos, quietos, sem boca pra nada? O que acontece com eles? Responderei a essa pergunta com base em experiências próprias: nada. Não acontece nada. A gente continua tentando. Nem sempre dá certo, mas o pouco que dá já é muito gratificante.

Charlie teve a sorte daqueles veteranos o acolherem tão bem – depois de terem descoberto que ele não possuía mais nenhum amigo – e poder fazer parte de algo e poder se sentir pertecente àquilo. Isso realmente possui um significado enorme para quem nunca se sentiu importante; para quem nunca foi “notado”.

Sei que sou quieto e que devo falar mais. Mas se soubesse as coisas que passaram pela minha cabeça, você saberia o que significou de verdade.

THE PERKS OF BEING A WALLFLOWER

O dia a dia de quem não sabe mais o que está acontecendo em sua vida é um misto de alegria e tristeza. Mas, nesse misto, há também a certeza de que tudo vai melhorar, nem que demore para isso acontecer.

No momento em que aquela sensação estrondosa toma conta de meu peito – que comentei lá no começo desse texto -, eu percebo que alguns sentimentos não são para serem entendidos, mas apenas sentidos. Em sua forma mais crua e nua mesmo. É preciso sentir tudo o que vem até nós, para que, assim, possamos ter uma maior convicção de quem somos e para onde vamos. O próprio Charlie narra no filme que nós não escolhemos de onde viemos, mas podemos escolher para onde iremos. Nem sempre o caminho vai ser simples, muitas vezes aqueles que você considera como amigo não estarão ali para te apoiar quando você mais precisar. Não importa o quão bom você tenha sido para eles, eles simplesmente não estarão. E a culpa não é deles. Na verdade, a culpa não é de ninguém. Nem deles, nem sua. Porque você não tem controle sobre a sensação de se sentir solitário mesmo com tanta gente ao seu redor.

Eu tento me lembrar quando me sinto ótimo, como agora, que haverá outra semana terrível algum dia. Então procuro guardar o maior número de detalhes que posso e, assim, na próxima semana terrível, vou poder lembrar esses detalhes e acreditar que vou me sentir bem novamente. Não funciona muito, mas acho muito importante tentar.

Essa sina de sempre colocar os outros na frente ao invés de nós mesmos ou o de achar que não somos merecedores de algo grande é algo tão normal que chega até a ser ridículo. Essa obsessão de achar que sempre precisamos estar mostrando o quão tudo é importante pra gente chega a ser algo assustador. Para os outros, não para a gente. Porque a gente, na verdade, só não quer ser mais invisível depois de ter sido “descoberto”. E, de uma forma ou outra, a gente acaba se sentindo tão grande, tão bem, que tudo o que queremos é abrir os braços na caçamba de uma caminhonete e sentir o momento atingindo o nosso rosto com uma trilha sonora perfeita para caracterizar tudo da melhor maneira possível.

Porque esse é o momento bom dentro de vários ruins que já foram enfrentados. Porque esse é o momento bom do agora e nós não sabemos se ele continuará assim amanhã. Nós não queremos ser invisíveis, nós só queremos ser infinitos.

Eu sei que serão apenas histórias algum dia e nossas imagens vão se tornar fotografias antigas. Todos nós vamos ser pai ou mãe de alguém, mas agora, esses momentos, não são histórias. Isso está acontecendo, eu estou aqui. E nesse momento, eu juro… Nós somos infinitos.

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