É louco esse bilhete

É verdade também, mas é acima de tudo louco. Por tanto e tanto tempo eu tentei profissionalizar esse blog aqui. Fazer dele um gigantesco portal com milhões e milhões de acessos, até que agora, com as costas começando a doer eu percebo que no fundo o que me faz feliz é simplesmente o ato de me comunicar.

Eu nunca levei o blog muito a sério, como prioridade na minha vida, isso também é verdade, mas a culpa não foi minha, pois como iria preencher tantas linhas com minhas palavras toscas sendo que precisava trabalhar no mercado formal para pagar a internet que me permite escrever essa joça?

Sigo trabalhando no mercado formal, tem dias que cinco horas, que é o que o sindicato do jornalista permite. Tem dia que 12, que é o que a realidade nua e crua do dia a dia de noticiar obriga. Você deve estar se perguntando onde quero chegar, né? Eu avisei que é louco esse bilhete.

A grande questão é a seguinte, nada na minha realidade mudou referente ao blog, apenas o que sinto comigo. Por muito tempo me cobrei demasiadamente por não conseguir me dedicar exclusivamente a esse blog. Sempre quis a fama, o prestígio, a grana, não por vaidade [apenas], mas sim, porque isso me permitiria fazer dessa aqui, a Casa da Mãe Joana número um da minha vida.

Seria um sonho, acordar, fazer um café e escrever pra vocês até o anoitecer. Mas a realidade como se impõe não me permite mais achar que isso vá acontecer, pelo menos tão cedo. Observar minha vida tomando os contornos que está tomando e perceber que no mundo real, no mundo de gente de carne e osso, querer ter um blog é um luxo, querer viver exclusivamente dele é um disparate.

[Leia com uma voz irritantemente aguda] Mas Erick, tem muita gente que vive assim, não desista, acredite nos seus sonhos, você é maior que as dificuldades… – Acho muito bonitinho você tentar me convencer disso. Sei que suas intenções são as melhores possíveis, mas no fundo você é apenas mais um iludido que nem eu. Hoje, quase completando três anos para trinta, eu percebo que temos que tocar a vida e jogar o jogo.

Sou filho de uma manicure, com um caminhoneiro, que são separados desde que tenho oito meses. Minha mãe saiu do sertão da Bahia sem nunca ter estudado, meu pai viveu uma vida toda nas estradas desse país. Ambos tentaram me dar o melhor, mas estudei a vida toda em escola pública. Trabalho desde os 14 anos. Hoje sou formado, já tive meu próprio programa de TV, viajei o Brasil inteiro fazendo reportagens, trabalho na filiada da segunda maior emissora do país. Acho uma puta grosseria com a vida eu ficar me lamentando porque não posso viver de escrever para a internet.

A ficha meio que caiu, saca? Por tantos anos fui aquele menino mimado que bate o pé no corredor do mercado porque não pode ter aquele chocolate, mas que em casa tem três potes de Nutella o esperando. E sim, o meu trabalho formal é meu pote de Nutella, as lembranças das viagens que fiz são meus potes de Nutella, ter feito uma puta festa de casamento massa pra caceta é outro pote de Nutella. Não é justo comigo e nem com a vida que eu me lamente tanto por não poder comprar uma barrinha de chocolate da Nestlé.

Demorou mas a ficha caiu. Esse blog, meu canal, meus projetos fotográficos, são meus hobbies, se um dia eu vier a viver deles será bom, mas se isso nunca vier a acontecer agora eu sei que é porque estou ocupado demais aproveitando as oportunidades que a vida me da. E falando em oportunidades, tem algo novo que está prestes a acontecer e que vai revolucionar minha trajetória profissional. Assim que puder contarei aqui para vocês. Mano do céu, a vida da umas voltas que até deixa a gente meio tonto. É muito louco esse bilhete.

Mensagens perdidas

Tenho pensado muito nesses últimos dias. Tenho lembrado de muita coisa. Coisas que aconteceram há dias, meses, quiçá anos. Acredito que esse seja o meu maior defeito: lembrar. O meu cérebro não consegue diferenciar as memórias boas das nem tão boas assim. Não são ruins, não, longe disso. Até porque se fossem, eu nem faria “questão” de lembrá-las. Elas só não são tão boas, a ponto de me fazer parar e ficar pensando sobre elas. Pensando em onde as coisas desandaram. Entende como?

Eu sou dessas que não pode conhecer uma pessoa nova. É sério, a cada vez que conheço alguém, expectativas são criadas, espalhadas, quando não vividas. E aí eu te pergunto: como que se vive de expectativas? Pois eu vivo. E nem sempre é uma experiência boa. Mas pelo menos é uma experiência. Certo? E experiências, bom… elas são feitas para serem experimentadas.

Não me arrependo de nada do que já vivi até aqui. Ok, minto, não me arrependo de QUASE nada. Mas, pelo menos eu sei que dessas coisas as quais me arrependo, eu sequer cheguei a fazê-las. Então, a culpa é toda e inteiramente minha. Mas de resto… não, não me arrependo. Eu dei a cara a tapa mesmo, conversei, chorei, me apaixonei… eu só esqueci de avisar as outras pessoas sobre isso, o que acabou me deixando vivendo sozinha algo que era para ser compartilhado. E essa sim é a parte mais triste das lembranças que trago dentro da minha cabeça – e também do meu coração.

No meio de uma dessas sessões de intensas lembranças – ontem, mais precisamente -, resolvi deixar de lado todo o meu rancor, mágoa, raiva ou seja lá o que eu estivesse sentindo no momento e ir atrás. Sim, eu deixei de lado tudo o que já me machucou até então pra dizer a alguém que eu sentia falta; que eu lembrava com muito carinho de tudo o que vivemos até ali. Se surtiu efeito? Talvez, não sei. Não, na verdade não. A coisa toda desandou, foi pra um outro lado e, pior, eu nem imaginaria que isso poderia acontecer. E fiquei até feliz que tenha acontecido, assim pude perceber que nada nesse mundo gira em torno de mim ou dos meus problemas ou da minha saudade incessante.

Pude perceber, através desse ato imprevisível, digamos assim, que às vezes faz bem botar tudo pra fora. Sei que nunca prestei pra guardar tudo o que sinto a sete chaves e é até mesmo por isso que eu escrevo. Escrevo e não é pouco. E quando algo não anda conforme o planejado, eu escrevo para tentar voltar para o caminho escolhido. Se o caminho envolve outra pessoa, aí eu escrevo pra tentar esclarecer o porquê daquilo tudo estar acontecendo. E eu escrevo, e continuarei escrevendo, até não ter mais o que dizer; até ficar aquele silêncio que diz muito mais do que as palavras conseguem dizer.

…ou até ficar o silêncio de mensagem não recebida ou lida e não respondida.

A síndrome da página em branco

Eu não sei se algum de vocês já passou pelo tenebroso TCC da universidade, mas é a segunda vez que enfrento isso – agora para a conclusão da minha pós-graduação. Não vou dizer que é algo simples, porque não é. TCC requer pesquisa, leitura e muita, mas muita força de vontade. Mesmo. E, como acabei subestimando esse último item (Cezar, se você estiver lendo este texto, me desculpe!), recebi uma bela lição de casa por parte de meu orientador: reescrever aquelas quase 400 palavras que saíram de forma (bem) preguiçosa em um longínquo domingo de manhã.

Acredito que isso tenha acontecido para abrir os meus olhos de vez e me fazer encarar este artigo, de míseras 15 páginas, da forma que ele realmente merece: com amor, carinho e dedicação. Pois bem, mais livros foram lidos (ou partes deles, confesso), artigos foram impressos, nomes como Umberto Eco e Michel Foucault estão pulsando diante de meus olhos por conta de suas lindas teorias sobre a literatura. Ah, sim, o tema de meu trabalho é a literatura – subversiva, ainda por cima. E se você não sabe o que isso significa, não me pergunte. É justamente para entender direito o que é essa tal subversão que estou estudando o assunto.

Foi no meio de tantas páginas e palavras (in)coerentes que cheguei na obra “Labirinto da Palavra”, de Claudia Lage. Eu já tinha lido um livro de autoria dela, que adquiri num desses sebos perdidos no litoral paranaense. Ele era de contos e lembro de como me apaixonei facilmente pelas histórias e pela forma com que Claudia escreveu todas elas. Talvez tenha sido o destino que me colocou a autora novamente em meu caminho, só que dessa vez era pra algo maior. Bem maior.

Labirinto da Palavra é um livro que contém inúmeras crônicas sobre a literatura, criação e vida literária – exatamente o que estou pesquisando, não? A ideia era ler apenas algumas partes dele, partes essas que me ajudassem na introdução de meu trabalho. Mas, conforme fui lendo, despretensiosamente, aquela forma simples e cativante de Claudia escrever foi me envolvendo. Quando dei por mim, já estava querendo compartilhar a sensação incrível que aqueles textos transmitiam para todos os amigos e colegas escritores. Não, não o fiz. Apenas compartilhei um texto em meu Facebook e que teve um like – de minha mãe, e que não, ele não foi lido por ela.

Eu me vi imersa naquela dúvidas apontadas pela autora, como o que me motiva a escrever. Quando a li ali, naquelas páginas ocres cheias de letrinha, eu pensei “EU NÃO SEI”. Eu escrevo por… escrever. Oras. Precisa de algum motivo específico? Acredite, nem Claudia soube responder a essa pergunta. E não foi só essa que ela abordou em suas crônicas. Na realidade, de onde surgiu essa, tinha muitas outras: o que é realidade?, o que é imaginação?, quais foram os livros marcantes na vida de cada grande escritor?, o que é uma escrita singular?.

Conforme devorava cada página das 190 totais, eu entrava um pouquinho mais em parafuso. É como meu psicólogo diz: levei alguns belos tapas de luva daquela escritora carioca. Porém, foi com essa mesma escritora carioca que pude enxergar que eu, a nível de escritora (coisa que não me considero como tal), possuo muita coisa em comum com aqueles nomes gigantescos que ouvimos durante toda a vida – Clarice, Lygia, Saramago

Eu, como todos esses citados, possuo sede de escrever. Eu, como todos esses autores, não consigo ler um texto de autoria própria sem querer alterá-lo. Eu, como todos esses grandes escritores, também possuo o medo de não ser lida. Eu, assim como Flaubert e Cortázar, também tenho medo da primeira e da última página de um livro escrito por mim.

Sim, eu tenho medo; de não saber como começá-las e, muito menos, terminá-las. Afinal, toda história tem começo, meio e fim. E nós, como donos da verdade daqueles pedaços de papeis, não queremos que esse fim chegue. Porque, depois dele, o que será de todo o trabalho que tivemos? O que será de nossas vidas ao ter que encarar (mais) uma primeira página em branco? Para onde será transportado todo o nosso medo de viver a realidade quando podemos, simplesmente, escrever alguns rascunhos a partir de nossa imaginação?

É, acho que encontrei a minha resposta para aquela pergunta sobre o que me motiva a escrever – os meus mais profundos e escondidos medos. E não, mesmo com a leitura desse livro maravilhoso, eu não escrevi uma página sequer de meu trabalho.