Entenda todo o processo do impeachment, as manifestações e o futuro da esquerda brasileira

Desde o dia 02 de dezembro de 2015, quando o então presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha  aceitou o pedido de afastamento da presidente Dilma Rousseff muitas manifestações foram vistas no país. Inicialmente diversos setores da direita se organizaram para clamar pelo afastamento e, com um pouco de atraso, a esquerda aos poucos foi se mobilizando e indo às ruas também para se contrapor ao impeachment. As acusações que levaram Dilma a ser impeachada giram em torno das denúncias de pedaladas fiscais que teriam – segundo as acusações – sido cometidas em 2014. O ápice da direita nas ruas aconteceu de maneira mais massiva a partir do momento em que a operação Laja Jato, comandada pelo juiz Sérgio Moro, começou a divulgar áudios e conteúdo de delações que envolviam ou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ou a alta cúpula do PT.

Com 367 votos favoráveis ao impeachment, a Câmara dos Deputados encaminhou o pedido para o julgamento do Senado. E foi no dia 31 de agosto de 2016, com 61 votos favoráveis e 20 contrários que Dilma Rousseff perdeu definitivamente o seu mandato de presidente do Brasil. Desse dia em diante centenas de milhares de pessoas têm ido às ruas em todo o país protestando contra o governo de Michel Temer, que foi eleito em 2014 como vice de Dilma e foi um dos principais articuladores para que o impeachment acontecesse.

Temer enfrenta reprovação do seu governo desde que as primeiras denúncias contra a presidente Dilma apareceram. Ele enviou uma carta a Dilma, que supostamente foi vazada, na qual ele afirmava ter sido apenas um vice decorativo. Um áudio de um suposto treinamento de discurso caso Dilma fosse afastada temporariamente pela Câmara, na qual ele tentava mostrar o quanto ele tinha boas intenções pelo país também resultou em uma forte desaprovação do seu governo antes mesmo de iniciar. A revista Veja fez um perfil de Marcela Temer, esposa de Michel, onde dizia o quanto ela é bela, recatada e do lar, o que gerou um grande desconforto nos diversos setores de esquerda feminista por colocar a mulher como submissa ao homem e impor um padrão de comportamento aprovado por aqueles que defendem a família tradicional brasileira.

Ao assumir o poder, ainda em caráter temporário, Temer de imediato anunciou o fechamento dos ministérios de Cultura e o Ministério das Mulheres, de Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, além de outras sete pastas. Outro fator que ajudou a denegrir a imagem de Temer perante os diversos movimentos da esquerda foi o fato dele não escolher nenhuma mulher e nem negros para fazer parte do seu alto escalão de governo. Temer assim iniciou o seu mandato, ainda que em caráter de interino, com o pé esquerdo.

Após o impeachment definitivo da presidente Dilma Rousseff, Michel Temer fez um pronunciamento oficial onde afirmou que não mais aceitaria ser chamado de golpista, adjetivo pelo qual tem sido chamado desde sua carta enviada e segundo o mesmo, acidentalmente vazada para a presidente. No mesmo dia centenas de milhares de pessoas saíram às ruas em todo o país com palavras de ordem contra o governo de Temer. Alguns Black Blocs chamaram a atenção da grande mídia por depredar patrimônios públicos e alguns bancos e concessionárias. Do outro lado as mídias alternativas como o Mídia Ninja e Jornalistas Livres escancararam agressões policiais a manifestantes, não apenas aos Black Blocs como também a manifestantes que apenas seguiam pelas ruas entoando palavras de ordem.

Os vídeos das repressões policiais, o fato do Senado ter aprovado dois dias após a cassação de Dilma uma flexibilização das pedaladas fiscais, e o posicionamento de Michel Temer quanto as manifestações declarando que as mesmas eram feitas por pequenos grupos de 40 a 100 pessoas, inflamou e muito o número de adeptos nas manifestações. Só em São Paulo 100 mil pessoas foram às ruas no último dia 04 pedindo a saída do presidente Temer, segundo a organização. A aprovação do governo como ótimo ou bom é de apenas 8% em capitais como Salvador-BA e Aracaju-SE. O presidente inicia assim seu governo já com uma crise de proporções catastróficas.

Se em todo o país Temer não encontra grandes níveis de aprovação, em Curitiba não é diferente. A capital ficou internacionalmente conhecida como a capital da Lava Jato, por ter formado a força tarefa que deu início a todo o caso. A capital ainda tem levado o nome de República de Curitiba. Segundo os adeptos a esse termo, o apelido é pelo fato de na cidade a lei funcionar, mas a origem do apelido vem de um dos trechos dos áudios vazados nas operações, em que o ex-presidente Lula se refere a cidade como República de Curitiba, uma alusão a República do Galeão, que devido a investigações e acusações não imparciais levaram ao suicídio de Getúlio Vargas. Curioso é perceber que nessa mesma cidade as ruas agora tem sido tomadas por pessoas que não concordam com o impeachment de Dilma e que exigem novas eleições presidenciais.

Ainda no dia do afastamento definitivo da presidente, Curitiba já apresentou as primeiras manifestações. Segundo os organizadores, 3 mil pessoas foram às ruas em uma manifestação pacífica contra o governo de Michel Temer. Seguiram-se manifestações nos dia 01, 04 e 06, esse último alcançando um número de 10 mil participantes, segundo a organização, mil segundo a PM. Nos atos dos dias 01 e 04 alguns grupos de Block Blocs ganharam notoriedade na mídia por depredarem a sede do jornal Gazeta do Povo, do PMDB e de bancos.

Diante da imagem midiática negativa gerada pelas ações diretas dos grupos mascarados a organização que lidera as manifestações em Curitiba – CWB Contra Temer – lançou uma nota declarando que não incentiva e nem compactua com as depredações e pichações, mas que por sua vez não tem como impedir os manifestantes de o fazerem. Alguns membros da organização tem sofrido constantes ameaças de pessoas que não concordam nem com as manifestações e nem com as depredações.

Se de um lado pessoas têm tido suas vidas ameaçadas por lutar por novas eleições, de outro lado algumas pessoas não acreditam que essas manifestações irão levar a lugar algum. É o caso do ambulante Eduardo, que desde as manifestações do dia 31 de agosto tem ido às ruas vender faixas com o dizer “Fora Temer”. “Tem tido manifestação de tudo quanto é lado, mas mudar alguma coisa não vai mudar nada não”, opina o comerciante. Enquanto Eduardo tem ido para as manifestações por ver nelas uma oportunidade de ganhar um trocado a mais, integrantes do MST também vieram para Curitiba manifestar no último dia 06. “Temer não foi eleito por voto popular”, diz o integrante do movimento José da Silva. “Tem que ser proclamada a eleição direta”, opina o militante.

As próximas manifestações do grupo CWB Contra Temer estão marcadas para o dia 12, por ser o dia da votação da cassação de Eduardo Cunha na Câmara dos Deputados.

Para buscar entender qual deve ser o caminho tomado agora pela esquerda brasileira após o impeachment, o Regra dos Terços com o apoio da organização do CWB Contra Temer e com a UPE – União Paranaense dos Estudantes –  irá debater o tema “O papel da esquerda como nova oposição”, na sétima edição do Regra Soma que acontecerá no Casarão do Estudante no próximo dia 17. A entrada é gratuita, mas os lugares são limitados.

Eles falam paz, mas plantam a Guerra

Uma criança acorda todos os dias com os PM’s invadindo a sua casa e matando o seu pai. Ao despertar percebe que foi só um sonho, uma lembrança daquela noite sombria.

No início de todo o processo de impeachment o senhor Luiz Inácio Lula da Silva aparecia cada vez mais na mídia, o país estava cada vez mais afundado em problemas econômicos. A Laja Jato estava a cada minuto pipocando com novas denúncias e processos que de uma maneira ou outra respingavam na cúpula do PT.  De repente vieram os primeiros vazamentos, áudios de delações e ligações. Lembro-me perfeitamente da noite em que estava voltando para casa de carona no carro de um amigo enquanto ouvia na rádio os áudios dos grampos entre o ex-presidente Lula e a presidente Dilma.

Lembro-me do momento em que me encontrava ainda em dúvida sobre qual deveria ser o rumo tomado no Congresso. Lembro-me de ter estado em cima do muro. Recordo ainda de uma longa conversa com um amigo economista, que veio de um lugar muito semelhante que eu, da periferia. Esse amigo, no momento doutorando em economia fora do país, se deu o trabalho de fazer um baita artigo me explicando os motivos que o levavam a acreditar que tudo que estava acontecendo fazia parte de um plano, com o objetivo maior de tirar os direitos das minorias e dos trabalhadores. Com argumentos solidificados na história, esse amigo me alertava para o fato de que tudo que estava acontecendo era apenas uma repetição histórica. Nesse momento resolvi parar de apenas tentar argumentar com base em matérias de jornais os fatos que aconteciam no país. Passei a observar as fases da operação Laja Jato, os vazamentos, as declarações e quem e como noticiava tudo isso. Fiz mais, para entender o presente busquei a resposta no passado, li algumas obras e me impressionei.

Não se trata aqui de defender esse discurso de ódio de empregado vs patrão, muito pelo contrário. Se trata de defender um discurso que está pautado na igualdade de direitos e principalmente de oportunidades. Essa mesma galera que fala que bandido bom é bandido morto nunca leu O Abusado, de Caco Barcelos e acha que entende o dia-a-dia de um favelado – não que quem venha a ler necessariamente vá entender. Obviamente eles também nunca entraram numa favela. Essa turma nunca se deu o trabalho de ler O Dono do Morro de Misha Glenny para entender que nem todo traficante é viciado, ou entrou nessa vida por opção. Para entender que pra droga e a arma chegar no morro, algum colega de colarinho branco lucrou com isso. E vem vocês me falar que o que afundou o Brasil foi o PT, me poupe.

Sabe qual foi o real motivo que tirou a Dilma do poder? Foi não manter uma boa relação com a imprensa, pecado esse também cometido por Collor. Outro “erro” de Dilma foi pensar nas classes sociais mais pobres, “erro” cometido por Jango. Você acha que a Dilma caiu por que o PT afundou o Brasil? Mas você já parou pra pensar que o Brasil afundou a partir do momento em que o Congresso não deixou passar mais nenhum projeto petista? A jogada é simples, barramos os projetos, o país afunda, o povo fica puto, inventamos uma desculpa e tomamos o poder. Se o motivo do impedimento foi de fato um crime de responsabilidade por que diabos a presidenta ainda goza de seus direitos políticos?

Sempre que um governo de esquerda, ou que aparentou ter apatia por tal, assumiu o poder foi interrompido. É simples, basta ler os livros de história!, não é difícil, juro. É só ler.  Aí o povo vai pras ruas – assim como a direita fez – o povo quer o afastamento do atual presidente no mesmo dia em que ele assume tal posto – assim como a direita fez na reeleição de Dilma – e os caras vem dizer que a esquerda tem que deixar o Temer governar? De novo essa história de que os seus direitos não são os nossos direitos?

A verdade é que o povo está cansado dessa ladainha de faça o que eu mando não faça o que eu faço. O povo está cansado de ver suas esperanças serem roubadas. O povo está cansado de ver a mídia massacrando toda e qualquer oportunidade de melhora nas comunidades. Está na história, busquem e vejam quando a imprensa falou pela primeira vez do Morro da Santa Marta no Rio de Janeiro. Olhe pra história e veja quando os escravos foram libertados. Olhe e veja que o povo, os negros, as minorias só tem vez na mídia, só tem vez no mundo quando eles atrapalham ou quando eles podem ser úteis. O morro da Santa Marta apareceu quando teve uma grande guerra que atrapalhou a vida dos mauricinhos das regiões vizinhas. E os negros foram libertados quando o mercado precisava de novos consumidores. Não seja burro e nem hipócrita, pois o povo já cansou de ser capacho.

 Um vídeo mostra nas manifestações dessa semana em Caxias do Sul, policiais espancando um senhor negro de 51 anos, o senhor cai no chão e os policiais continuam o espancamento, o jovem de 21 anos vendo seu pai naquela situação dá um chute em um policial e é indiciado por tentativa de homicídio. A PM diz que vai apurar o caso pra ver se os policiais não cometeram excessos. O vídeo mostra os espancamentos por parte dos policiais. O garoto está preso e só ele está.

Eu estava no massacre dos professores no Centro Cívico em Curitiba e até o momento o mandante segue impune. A pergunta que fica é: Até quando? Até quando quem ataca a população vai seguir impune e quem defende a classe operária vai sofrer represálias? Quantos Jangos terão que cair para que o povo possa ter um pedaço de terra?

Tenho sido muito questionado quanto ao fato do PT isso, a Dilma aquilo. Mas tem que ser muito ignorante pra não entender que não se trata da Dilma, não se trata de PT, se trata do favelado, do negro, dos gays e de toda a classe operária estar cansada de ver seus direitos usurpados por um Estado branco, rico e preconceituoso. Não se trata apenas do Lula ser ou não perseguido pelo Moro, se trata do jovem que defende o pai e é preso, enquanto PM’s espancam sem punição. Se trata do sistema, se trata da desigualdade, se trata da revolta de não aguentar mais ser massacrado todos os dias por um chefe explorador que só vê lucro. E mais uma vez reitero, não se trata de funcionário vs patrão, se trata de explorados vs exploradores.

Deixem nossos representantes em paz, deixem nosso voto valer alguma coisa, deixem nossas vozes serem ouvidas, deixem nossos negros soltos, deixem nossas crianças irem para a escola, deixem nossas mães montarem suas cooperativas, deixem nossos pais pintarem quadros ao invés de dirigir os seus carros. Quando conquistarmos tudo isso o que pediremos Estado, é que deixe essa criança dormir sossegada.

O abismo e o lobo

Pra onde olhar, se em cima está o caos, em baixo o desespero, na direita o lobo e na esquerda o abismo? Por onde caminhar se todas as opção estão minadas dentro de um terreno disfarçado de paraíso? O que escolher, se as nossas opções são sempre muito questionáveis?

O Brasil foi colonizado pela escória de Portugal. A monarquia veio pra cá não por bel prazer, e sim para não morrer nas mãos de Napoleão, ou seja, nem mesmo os reis queriam nos governar. A independência? Não veio do povo brasileiro para o povo brasileiro, afinal, quem assumiu o poder era aquele que o tinha, o príncipe de Portugal. As primeiras eleições só poderiam ser feitas por aqueles que tinham terras e eram alfabetizados. O primeiro presidente com apelo popular, não foi eleito pelo povo e Getúlio ainda instalou uma ditadura. O segundo presidente com apelo popular sofreu um golpe, Jango foi perversamente perseguido por tentar instalar uma Reforma Agrária. O terceiro presidente com apelo popular recebeu diversas denúncias de corrupção e sofreu um impeachment, e Collor declarou na noite de ontem que nenhuma das denúncias foram comprovadas até hoje (há controvérsias).  E por falar nos dias atuais, a primeira presidente mulher do Brasil acaba de ser afastada por 180 dias para provavelmente nunca mais chegar ao topo do poder. Mas antes dela veio a presidência de Lula, que seria o quarto presidente com apelo popular no país, mas esse está atolado até o pescoço em denúncias de corrupção.

Dilma não tem nenhuma denúncia de estar envolvida em crimes de caráter corrupto. Ela que foi presa após o golpe de 64, diz sofrer as consequências de mais um golpe no país. Do outro lado encontra-se uma oposição que a acusa de ter cometido crime de responsabilidade fiscal, oposição essa que tem no seu líder maior, o atual Presidente da República Michel Temer, uma figura de caráter questionável com atitudes imaturas e politicagem de baixo nível. Temer deixou “vazar” uma carta a presidente Dilma, onde ele se abstinha de todo o problema nacional, acusando a então presidente, de o deixar como vice decorativo. Esse mesmo Temer também deixou “vazar” um áudio onde ele tentava acalmar a população em seu “treinamento” do discurso que faria ao assumir o país. Um homem que não tem coragem de assumir seus posicionamentos de maneira direta. Temer é como um namorado que termina com sua donzela através de carta ou nos dias atuais, através de Whatsapp por não ter coragem de encara-la cara a cara, é esse homem que assume o poder. No seu ministério nenhuma mulher, e na sua casa, uma “mulher exemplar”, assim como ele pretende que seja o povo: submisso, recatado e do lar.

Mas qual seria o campo ideal? A permanência do PT? Economicamente o país está atolado em dívidas, moralmente o PT não tem mais relevância, uma vez que tem como seus representantes vários acusados de crimes milionários de corrupção. Então o impeachment foi justo? Como seria se apenas 34 deputados dos 511 que votaram pelo impeachment tiveram votos suficientes para serem eleitos? Os outros estão lá graças a um sistema político que só existe para manter o poder nas mãos de quem sempre o teve. Vivemos uma democracia de fachada, um sistema eleitoral de fachada, é só olhar para a história e ver que no presente quase nada mudou. O Governador do Estado do Paraná também utilizou de pedaladas fiscais, mas sabe o que o mantém sem sofrer um impeachment? O fato dele ser do tipo de pessoa que quando tem que optar pelos professores ou pelo poder aquisitivo do Estado, ele faz a escolha menos humana.

Para que lado correr se na esquerda está o abismo moral e financeiro que o PT deixou e na direita está o lobo sem moral, sem apelo popular, sem nenhum mulher com cargo de grande relevância e principalmente, sem escrúpulos? Precisamos de você MBL, engolindo o seu orgulho e pegando nas mãos da CUT, e precisamos de você CUT, com humildade e coragem, caminhando junto com você MST, que precisa pegar na mão do senhor empresário para que possamos ver mais uma vez 2013 se repetir. Precisamos de você povo brasileiro para que seja forçada uma Reforma Política. Reforma essa que leve ao poder alguém com apelo das massas, que atenda as exigências financeiras desde que jamais deixe de lado as exigências humanitárias que nosso povo tanto precisa. Estamos carentes de líderes humanos e morais, estamos carentes de um povo heroico e visionário. Estamos sem pai, sem mãe, sem líder e se não fizermos nada estaremos distantes de um futuro que não seja igual ao presente.

O que fazer se na direita está o abismo e na esquerda um outro?