Goiás faz propaganda machista por não entender o verbo #EleNão

Olhares sensuais de mulheres super maquiadas. Close nos seios. Novos rostos femininos com caras e bocas. Mais closes nos seios. Por mais inacreditável que pareça, o assunto aqui é: lançamento do novo uniforme de um clube de futebol. No vídeo, em nenhum momento as modelos aparecem como jogadoras, ou sequer torcedoras do clube. A propaganda é clara: tenta vender o novo ‘manto’ através da sensualidade e sexualização dos corpos femininos. Pois é, o Goiás não aprendeu nada com 2018.

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Mulheres que sofreram assédio ou abuso sexual têm mais chances de desenvolver doenças

De acordo com a publicação científica Jama Internal Medicine, publicada no início de outubro nos Estados Unidos, mulheres que sofreram agressão sexual ou abuso têm três vezes mais probabilidade de desenvolver depressão e duas vezes mais chances de apresentar ansiedade do que mulheres sem histórico de trauma sexual. Aquelas que sofreram ataques sexuais ou assédio ficaram duas vezes mais propensas a ter insônia.

O estudo incluiu 304 mulheres não fumantes com idade entre 40 e 60 anos. O levantamento apontou que 19% das mulheres relataram já ter sofrido assédio sexual, 22% afirmaram ter passado por agressão sexual em algum momento da vida e 10% disseram que passaram por ambas as situações.

“Como o assédio ou o abuso sexual interferem diretamente nas áreas emocionais do cérebro, as mulheres podem sofrer consequências desastrosas que incluem também o transtorno de estresse pós-traumático, além de absenteísmo no trabalho, dores somáticas, fobia social, perda de confiança em si e transtorno obsessivo compulsivo (TOC)”, explica o professor e psicólogo do Centro Universitário Internacional Uninter, Ivo Carraro.

Já as mulheres que relataram ter sofrido assédio sexual no local de trabalho apresentaram pressão arterial alta, situação que poderia colocá-las em risco, pois problemas com pressão arterial elevada podem causar Acidente Vascular Cerebral (AVC) como Isquemia ou Aneurisma Cerebral, doenças renais e ataques cardíacos. Segundo Carraro, as vítimas precisam procurar ajuda profissional para superar as pressões psicológicas. “Elas precisam criar uma realidade psíquica vencedora em situações ameaçadoras, bem como esquivar-se do efeito perturbador causado pelo assédio sexual sofrido no ambiente de trabalho”, recomenda o psicólogo.

Fonte: PG1

Vídeo do Dia | O futuro é feminino ou o quê?

Um futuro feminino não é um futuro no qual a humanidade viverá uma supremacia das mulheres. É um futuro feminista, no sentido de termos todos os mesmos direitos. O ser feminino poderia, num futuro assim, ser vivido em toda sua essência, tanto por homens quanto por mulheres, independente do seu gênero. E falando em gênero, isso seria secundário, uma vez que não é sua sexualidade que te define como indivíduo. Veja o vídeo produzido pela Trip TV.

Festival de empoderamento feminino através da música

Olha que notícia boa, vem aí em Curitiba uma festa que visa trazer à tona discussões sobre a presença feminina no cenário musical, o Festival Sonora.  Com uma equipe formada exclusivamente por mulheres, o Ciclo Internacional de Compositoras acontece entre os dias 28 e 30 de setembro, na Casa Ocitocina e no Centro Cultural Sesi Heitor Stockler de França.

A programação abrange showcases e rodas de conversa sobre temas como gestão de carreira, estética artística, representatividade na indústria musical e mulheres negras na música. A primeira edição também conta com um sarau de lançamento, além de festas de abertura e encerramento para completar as atividades.

“Em geral, as mulheres no campo da música são conhecidas como cantoras e instrumentistas, mas raramente são vistas, ouvidas e valorizadas por serem compositoras”, observa a etnomusicóloga e musicista Laíze Guazina. Segundo a pesquisadora, a intenção é dar visibilidade às mulheres, formando referências e incentivando novas gerações.

Produção colaborativa
Criado de forma colaborativa no Brasil em 2016, o Sonora também já aconteceu em Portugal, na Irlanda, na Espanha, na Argentina e no Uruguai. “Quando conheci o festival, fiquei encantada com esse movimento tanto na composição quanto no backstage, refletindo a importância do papel feminino”, conta a produtora cultural Aline Valente Lobo.

Em Curitiba, é realizado sem fins lucrativos e de maneira independente por 12 mulheres, envolvendo produção cultural, sonorização, curadoria, comunicação, design e audiovisual. “Queremos construir um evento horizontal, para dar voz a nós, mulheres, que atuamos em diversos âmbitos da indústria musical”, afirma a produtora cultural Leticia Martins.

O festival é aberto a públicos de todos os gêneros e áreas profissionais. O lançamento terá entrada gratuita e as demais atividades custam R$ 20 por dia (exceto festas), com passaporte de R$ 35 para os dias 29 e 30. A compra pode ser efetuada pela plataforma Sympla e toda a verba arrecadada será revertida para fomentar custos do evento.

Programação
28/9 | QUINTA-FEIRA

19h: Abertura com sarau, discotecagem e bate-papo
Local: Casa Ocitocina – Rua Des. Ermelino de Leão, 274
Entrada gratuita

22h: Festa Ladies Night #8
Local: Paradis Club – Rua Paula Gomes, 306
Ingresso: $10 (para participantes do Sonora)
—–
29/9 | SEXTA-FEIRA
Local: Casa Heitor Stockler de França – Av. Mal. Floriano Peixoto, 458
Ingresso: $20 (ou passaporte de $ 35 para os dias 29 e 30)

10h30: Bate-papo Gestão de carreira
Convidadas: Estrela Leminski, Bacabi, Raissa Fayet e Juliana Cortes

14h: Bate Papo: Estéticas, criações e identidades
Convidadas: Babi Oeiras, Grace Torres e Cida Airam

15h20: Showcases
Estrela Leminski
Raissa Fayet
Cida Airam

17h20: Bate-papo Mulheres na produção e na técnica
Convidadas: Leticia Martins, Michelle Hesketh, Débora Opolski, Livia Milhomem Sá e Adri
Menegale

18h40: Showcases
MC Hilminha
Kvs Kamille
Punkake
—–
30/9 | SÁBADO
Local: Casa Heitor Stockler de França – Av. Mal. Floriano Peixoto, 458
Ingresso: $20 (ou passaporte de $35 para os dias 29 e 30)

14h: Bate Papo: Mulheres negras na música: oportunidades e desafios
Convidadas: Janaína Queiroz, Janine Mathias e Lilian Soares

16h20: Showcases
Lay Soares
Amira Massabki
Bruna Bruschle
Luana Godin

22h: Festa de encerramento #Ruído EnCena
Local: 351 – Trajano Reis, 351
Ingresso: $10 (para participantes do Sonora)

> Serviço
Festival Sonora Curitiba
Data: 28, 29 e 30 de setembro (quinta, sexta e sábado)
Locais: Casa Ocitocina e Centro Cultural Heitor Stockler de França
Ingressos: Plataforma Sympla
Informações: Facebook 

Mulheres Guerreiras #10 | Maud Wagner

Hoje a série #MulheresGuerreiras traz a história da primeira tatuadora reconhecida dos Estados Unidos. Maud Wagner nasceu em fevereiro de 1877. Nessa época as mulheres que tinham tatuagens pelo corpo era conhecidas como rebeldes, símbolo de desvio dos costumes tradicionais, elas chegavam a ser exibidas em exposições.

Artista circense, Wagner viajava por seu país em diversos circos itinerantes. Em uma dessas viagens conheceu “o homem mais marcado da América” como era conhecido na época Gus Wagner, tatuador, que tinha 264 tatuagens pelo corpo.

O cara logo se apaixonou por Maud e propôs um encontro. Ela topou, mas com uma recompensa em troca – uma tatuagem. Assim começou esse relacionamento e logo pintou o casamento.

Dessa união de muita tinta na pele e amor a flor da mesma nasceu Louvetta, que por ter perdido o pai muito cedo nunca permitiu ser tatuada por ninguém, mas aos nove anos já registrava sua arte na pele dos americanos.

Maud Wagner aprendeu com seu marido a técnica tradicional de “handpoked”, onde o desenho é criado de maneira completamente artesanal, sem uso de máquina a tatuagem é feita ponto a ponto.

Ainda antes de Gus Wagner morrer, o casal viajou por todo o país, como tatuadores e tatuados eram atrações de feiras, shows e demais eventos.

Aos 83 anos Maud faleceu, ainda que não tenha visto a queda do preconceito contra tatuagens, e nem contra as mulheres, Maud colaborou muito para a quebra de paradigmas.

Vídeo do Dia | Feminismo é luta por igualdade – Leandro Karnal

O feminismo é questão de sobrevivência. Homens e mulheres precisam andar em igualdade. O feminismo não defende apenas os direitos das mulheres. O feminismo é bom e necessário para ambos os sexos. A luta pela igualdade tem gerado resultados, mas esses ainda são muito pequenos se comparados com as disparidades entre ambos os sexos. Confira agora a reflexão de Leandro Karnal sobre esse assunto no #Vídeododia

Mulheres Guerreiras 09 | Indira Gandhi

Hoje a série #MulheresGuerreiras traz o nome de Indira Gandhi, a primeira mulher a se tornar chefe de governo na Índia.

Ela nasceu no dia 19 de novembro de 1917, em Allahabad. Filha única de Kamla e Jawaharlal Nehru, um dos pais da independência indiana. Neta de Motilal Nehru, que foi um famoso advogado que abandonou a profissão para aliar-se a Mahatma Gandhi na luta pela Independência da Índia e foi também co-fundador e presidente do Congresso Nacional Indiano.

Indira fez parte da ala estudantil do Partido Trabalhista britânico e se inscreveu na Cruz Vermelha Internacional na época da II Guerra Mundial. Casou-se com Feroze Gandhi, um jornalista de Allahabad que participara do movimento do Congresso e era seu amigo de infância.

Aos 47 anos, Indira é eleita pela primeira vez para o Parlamento tornando-se a Ministra de Informação e Comunicações durante o governo de Shastri. Em 1967 ela se torna a Primeira Ministra da Índia e a primeira mulher, a assumir um cargo de chefe de governo naquele país.

Indira realizou um programa de nacionalização dos bancos, assinou um tratado de amizade com a União Soviética em 1971, prestou apoio militar ao movimento liderado por Mujibur Rahman que em 1971 conseguiu a separação da parte leste do país, nomeada de Bangladesh. Indira foi responsável em grande parte pela vitória da Índia no conflito contra o Paquistão (1971) e pelo rápido desenvolvimento da indústria nuclear na Índia em 1974.

Houve uma época em que ela foi perseguida, e decretou estado de emergência governando com poderes quase que ditatoriais. Indira combateu o grupo militar Sikh e foi assassinada em 31 de outubro de 1984 por dois membros de sua guarda pessoal que pertenciam ao grupo.

As minas no topo é uma afronta

Comecei a ouvir Rap lá por 2002. Racionais, Estilo Cachorro, foi a música que me iniciou nesse universo. Pra mim a cultura do Ritmo e Poesia era isso: levada envolvente, rimas, homens armados e com roupa larga cantando um monte de coisa que minha mãe não ia gostar de me ver repetindo. Na minha cabeça de garotinho de 9 anos rap era coisa de homem, de preto favelado, de gente que queria matar a polícia e era adorado pelas menininhas. Eu demorei muito pra entender que podia existir muito além daquilo.

A primeira mulher que eu ouvi rimando foi a Cris, do S.N.J.. E foi incrível: além de um verso totalmente diferente daquilo que eu escutava, foi a parte da música que precisei ouvir apenas duas ou três vezes para decorar e sair cantando. Depois de “Pensamentos”, tudo o que eu pensava sobre o Rap mudou. Comecei a enxergar através do sangue nas letras, inclusive nas dos Racionais.

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Cris S.N.J.

De lá pra cá, comecei a acompanhar outras mulheres MC’s. Nas rodas de improviso, nos grupos, na internet. Porém, nunca parei pra refletir sobre como mesmo com uma enxurrada de boas letras e de lançamentos, pouquíssimas foram as mulheres que despontaram na cena.

Foi quando me questionei sobre isso que ecoou na minha mente a virada de beat da primeira música que ouvi, com “Estilo cachorro, não é machismo”.

Se o rap é a casa das minorias e a voz das classes que precisam delas, qual o motivo dessa falta de espaço e de valorização da minas? Se a ideia do “machismo opressor” é tão mimimi como vemos estampados nas postagens espalhadas pela internet em textos gigantescos dos comentaristas, qual seria então o real motivo que faz com que esses trabalhos não sejam vistos? Se realmente a gente não está sendo influenciado por essas razões, e mesmo assim não conseguimos enxergar a importância das mulheres para o movimento, só posso acreditar na Tia Lívia Cruz e afirmar que ”as mina no topo é uma afronta”.

Sempre que algo se destaca e incomoda quem está no topo, é natural que exista o desconforto, e é isso que está acontecendo na cena do Rap. Embora a gente (amantes da cultura) tenha acreditado durante muito tempo que todas as bandeiras estavam sendo levantadas, estamos tendo de engolir o choro e ver as mulheres roubarem a cena de assalto. Cada dia mais empoderadas e com rimas cada vez mais ácidas, diversas mc’s estão dando uma grande aula de respeito, e mostrando como o Rap tem muito para evoluir para chegar ao status de “máximo respeito”.

Abaixo algumas das minas que fazem parte da minha playlist. Tem aí um som pra indicar? Coloca aí nos comentários.

Lívia Cruz – Ordem na Classe

Stefanie Roberta – Mulher MC

Flora Matos – Canta Pra chamar

Drik Barbosa – Sem clichê

Karol Conka – É o poder

Clara Lima – Realmente

Paz!

Regra Entrevista | Helouise Prado e o filme A Culpa é Minha?

Cena do documentário "A Culpa É Minha?"
Cena do documentário “A Culpa é Minha?”

No Brasil uma mulher é estuprada a cada três horas. Nesse número estão inclusos apenas os casos onde foi efetuada a denúncia através do telefone 180, do Governo Federal. Das 103 milhões de mulheres que vivem no nosso país, uma a cada cinco considera já ter sofrido algum tipo de violência por parte de algum homem, segundo os dados da Fundação Perseu Abramo de 2010.

Que roupa você estava usando? Onde você ia tão tarde assim? Isso é hora de mulher andar sozinha na rua? Você estava bêbada? Muitas mulheres encontram essas perguntas quando vão buscar por socorro após serem violentadas sexualmente, o que acaba gerando diversos outros traumas que podem destruir a sua maneira de se ver e se encaixar em sociedade. Fruto de uma cultura machista, esse tema precisa ser debatido e suas reais raízes e consequências precisam ser expostas.

Leia: Como me tornei homem de verdade

Recentemente publicamos aqui no Regra uma entrevista exclusiva com o grupo Mulamba falando exatamente sobre o abuso sexual contra mulheres. Mas não é só na música que encontramos materiais que denunciam essa realidade cruel. A jornalista Helouise Prado lançou no final do ano passado o documentário A Culpa é Minha?, que mostra essa realidade pelo prisma das vitimas. O que acontece quando uma mulher é violentada? Quais são os problemas que a acompanham? Como a sociedade passa a enxergar essa vitima? Esses são apenas alguns dos tópicos abordados nesse material.

Helouise passou a se sentir ligada pelo tema a partir do momento em que identificou ao seu redor diversas mulheres que já viveram esse mesmo problema. Não tendo como agir judicialmente diante das circunstâncias – por saber do medo que as vitimas tinham de seus agressores – a jornalista passou a se aprofundar nos estudos do feminismo, e entrou para um grupo de apoio a vitimas. Foi aí que ela descobriu que o problema era muito maior do que se podia imaginar. “O problema da violência doméstica não se baseia só na agressão física, mas que ela afeta o psicológico e que deixa traumas quase que irreparáveis” afirma Helouise.  Foi diante dos números que a jornalista sentiu “a obrigação de contribuir de alguma forma, foi aí que surgiu a ideia de fazer um documentário baseado na história vivida por elas, até para que essas mulheres pudessem se sentir mais humanas a ponto de enxergar uma luz no fim do túnel”, afirma.

Leia: “E os namoradinhos?”

Helouise conversou com nossa equipe sobre o documentário, acompanhe a entrevista completa abaixo, na sequencia o filme.

Regra dos Terços – De onde vem a sua ligação com o tema?
Helouise Prado – Vi que muitas mulheres próximas a mim viviam o problema dentro de casa, mas que ao mesmo tempo eu não conseguia ajudar essas mulheres judicialmente, até porque, sabendo o histórico delas e o medo em que elas viveram – e que umas ainda vivem – não haveria uma denuncia formal tão cedo por parte delas. Eu comecei a estudar o feminismo, depois entrei em um grupo de apoio a vítimas de relacionamentos abusivos e lá me vi perplexa com a quantidade de relatos chocantes. Vi que o problema da violência doméstica não se baseia só na agressão física, mas que ela afeta o psicológico e que deixa traumas quase que irreparáveis. Me senti na obrigação de contribuir de alguma forma, foi aí que surgiu a ideia de fazer um documentário baseado na história vivida por elas, até para que essas mulheres pudessem se sentir mais humanas a ponto de enxergar uma luz no fim do túnel.

RT – Você acredita que toda mulher sofre ou sofreu algum tipo de abuso? Como isso se dá?
HP – Sim, eu acredito. O abuso começa desde quando ainda somos crianças e incentivadas, por exemplo, a acreditar que o beliscão vindo do coleguinha é um ato de amor, onde escutamos a frase: “mas filha, ele fez isso porque gosta de você”. Quem nunca ouviu uma dessas, não é mesmo?
Eu creio que toda a mulher já sofreu ao menos uma passada de mão no bumbum, por exemplo, dentro do coletivo. Infelizmente, a cultura machista ainda está enraizada não somente na criação dos homens, mas na das mulheres também, porque ao longo da pesquisa presenciei muitas mulheres se diminuindo, questionando os próprios abusos que passaram e culpando umas as outras. Isso tudo só vai mudar quando nós, enquanto sociedade, mudarmos a nossa postura ao educar novas crianças, exemplo que uma das entrevistadas também fala no filme. São nas pequenas atitudes em casa, como a divisão de tarefas sem separar por gênero, por exemplo.

RT – Como foi todo o processo para a produção do documentário?
HP – Consegui as entrevistadas com mulheres da frente feminista, que me ajudaram muito em indicações e, algumas delas até me convidaram a conhecer melhor os espaços delas e tudo mais. Elas foram muito acolhedoras.
A dificuldade que encontrei foi em conseguir quem falasse. O processo é complicado para quem já deu muitas entrevistas, porque muitos jornalistas ainda possuem pouco conhecimento sobre o movimento e acabam transmitindo uma mensagem suja e preconceituosa para quem assiste, além de que, muitas das vezes culpabilizam as vítimas de forma indireta em reportagens, o que desmotiva muito algumas delas a voltarem a se expor.
Na prática, foi conturbado, pois eu comecei focando apenas nos depoimentos das meninas e, até então, ficaria apenas nas experiências de vida e superação delas, o que pra mim, estava tudo indo bem. No processo de edição descobrimos um problema muito maior, porque todas as entrevistadas apontavam a culpa como ponte divisória entre elas e a busca por ajuda e senti que isso não podia passar batido.
A partir daí, mudamos todo o roteiro, o foco e até o nome do documentário. Editamos em pouquíssimos dias, mas foi uma loucura! Conclui minha pesquisa com base em dados que consegui com a SESP e fomos traçando a linha condutora em base nestes dados, sempre incluindo a delegada para dar a voz da credibilidade nestas estatísticas.
Usei o trecho informal da Ludmila como forma de condução porque, além dela falar muito bem sobre tudo que envolvia meu tema, ela é super expressiva. Coisa de atriz mesmo. Onde ela falava, eu via a possibilidade de encaixar todo o restante, sentimos a necessidade de deixar ela contar e dar a linha a sequência das outras meninas.

RT – Qual é sua expectativa com ele?
HP – Eu espero poder alcançar através do documentário essas mulheres que ainda estão em situação de risco. Estou divulgando nas páginas dos amigos, vou exibir na Cinemateca de Curitiba e divulgar muito para que lote a sala (risos). Além de poder levar em DVD nas ONGS que acolhem mulheres da periferia.

RT – Quais são os próximos trabalhos que você tem em mente?
HP – Vou dar sequência, criando uma série web documental baseada nas pautas feministas, com cerca de cinco ou mais episódios, cada um abordando uma questão dentro do movimento. Depois também quero fazer outros filmes com temas sobre a margem da pobreza em Curitiba, por exemplo, ou com pessoas aleatórias na XV para saber suas histórias, bem coisa de Eduardo Coutinho.


Quem quiser entrar em contato com a Helouise é só mandar um e-mail para jornalismohelouise@gmail.com.

Leia: Mulheres Guerreiras 05 | Patti Smith

Mulamba e a P.U.T.A

Uma música forte, uma mensagem simples de ser entendida, e um desenho de uma realidade cruel. A música P.U.T.A do grupo Mulamba viralizou nas redes no mês de novembro, com todo o mérito. A canção trata sobre o abuso sexual contra mulheres, os discursos machistas e a ira de mulheres fortes, que com toda a sua alma expõe no decorrer da canção os medos e ódios daquelas meninas que só querem viver em paz. O Regra dos Terços conversou sobre o grupo, as composições, feminismo e machismo com as compositoras e cantoras Amanda Pacífico e Cacau de Sá. Abaixo segue o clipe, na sequencia a entrevista:

Regra dos Terços – Segundo os dados oficiais a cada 11 minutos uma mulher foi violentada no ano de 2014, totalizando 47.646 casos. Mas esses são apenas os casos onde as mulheres tiveram condições de denunciar, todos nós sabemos que essa realidade é muito pior. Como vocês encaram essa realidade?
Amanda Pacífico – Com tristeza, mas ao mesmo tempo, é aí que lembramos da importância de levantarmos essa bandeira na nossa música. De fazer chegar no ouvido dessas mulheres que se sentem sem força de denunciar ou de sair de um relacionamento abusivo, e encorajá-las a seguir a diante, firmes e donas de si.
Cacau – Com a tristeza dum igual que se pergunta o motivo de tanto ódio? Mesmo com medo não me nego o direito de ser, viver e transparecer toda essa indignação no som e na vida

R – Vocês são fortes na expressão e nos gestos. Acredito que todo ser humano tem essa força dentro de si, algumas pessoas por não terem tido os meios para desenvolver esse lado acabam se mostrando mais frágil e é nessa hora que os algozes se aproximam e dominam a situação. Vocês acreditam que ao exporem as suas forças por meio da arte, vocês dão a essas pessoas as ferramentas necessárias para se perceberem senhoras de si?
A – Acho que essa nossa força vem exatamente da nossa inquietação de querer transformar o que a gente enxerga. A gente se sente na obrigação de chegar pra essas mulheres de maneira incisiva mesmo, tentando, à partir do nosso exemplo, resgatar de dentro delas essa força que também existe e nos alimenta.
C – Acredito que “os meios” da força que trago é pra ser força em quem precisa. Assim como me valho da força dos outros. Acredito que quando qualquer pessoa acredita no que tenho me leva a acreditar… Sendo assim é mais da soma dos eus outros é que me tomo senhora de mim.
R – De que maneira a cultura machista coopera para que os números de mulheres violentadas continue tão alto?
A – Coopera quando lidamos com isso com naturalidade. Quando não repreendemos um hábito machista de um homem ou da própria mulher, e até reproduzimos o hábito ou a frase, por estar enraizado no nosso cotidiano. Esse auto policiamento precisa ser diário, digo isso pra mim também! Todos nós já nos pegamos fomentando o machismo involuntariamente. Uma piada reproduzida, uma cantada.
A nossa música “Mulamba” nasceu disso também. De uns caras que, no nosso show, “chegaram” repetidas vezes em mulheres na balada sem o consentimento delas.
C – De muitas maneiras, “Desde olha filhão que tia gostosa, quando tu crescer..” ou “filha, olha a louça, não saia pra rua é perigoso!” Um machista perto de outro falando de tudo o que se poderia fazer com a secundarista que passa e sua sainha, pra mim colabora pra que o cenário continue assim.

R – Como vocês encaram o feminismo nos dias atuais?
A – Fico muito feliz de poder viver essa organização de nós mulheres. Nunca se falou tanto em feminismo como nos dias atuais, de maneira elucidativa, por pessoas que jamais teriam acesso ao tema. A nossa música vem pra somar nesse momento e queremos um dia não precisar explicar o óbvio.
C – Acho que tem coisas maravilhosas e coisas ruins e como toda e qualquer forma de grupo tende ao extremismo as vezes, o que não é muito saudável em qualquer linha de raciocínio. Meu ponto de vista.

R – O clipe de P.U.T.A viralizou na rede. Vocês acreditam que conseguiram expressar nesse trabalho o grito entalado no peito das mulheres brasileiras?
A – Temos certeza. Foram 500 mil visualizações…. Mulheres de vários cantos do país nos mandando mensagens, relatando alguma história de assédio, nos agradecendo pela representatividade ou contando da emoção de se identificar com o que a música narra. Queremos que a P.U.T.A e a Mulamba (nossa outra música, que também tem esse papel do empoderamento) cheguem a mais mulheres a cada dia.
C – SIM, mas ainda não é o suficiente. Um grito pra séculos de dor! Eu quero mais… Chegar mais longe e falar com a realidade de mulheres reais assim como nós.

R – O que se passou na mente de vocês quando se depararam com o sucesso desse trabalho
A – É muito louco ver a repercussão e o feedback de tanta gente. Todo dia a gente se emociona, quando recebemos em troca tanta coisa bonita. Sensação de dever cumprido como artista e de sentir a utilidade e a urgência da nossa fala.
C – Até hoje me pergunto isso. Mas a certeza de ter dado minimamente o recado tá ai. Nas discussões e fomentadores em torno do assunto. Tua procura só te faz fomentador desse trabalho junto com a gente, por exemplo.

R – Como foi o processo de composição da canção? O que inspirou vocês?
A – Ano passado eu li um post no Facebook de uma amiga, relatando o medo de descer do ônibus na rua escura ao voltar da faculdade e quando via que uma mulher descia junto, se sentia mais segura. Eu notei que esse medo era de toda mulher, inclusive meu. Aquilo martelou na minha cabeça por um tempo, até saírem os primeiros versos. Mostrei pra Cacau e a gente sentiu na hora que estávamos falando de algo muito sério e delicado. Sentamos na sala e em umas duas horas nasceu a P.U.T.A.
C – Natural. Não sei bem dizer, mas quando estamos todas juntas as coisas começam a acontecer naturalmente… Entre Amanda e eu, no processo de pensar uma canção ou mesmo quando vem em conjunto… Se faz natural.

R – Algo mudou depois do lançamento?
A – Muito! A nossa voz reverberou muito mais. Muitas pessoas nos param pra dizer que se sentiram representadas, que precisávamos desse recado no mundo. Muitos caras também, entenderam o recado, vão aos shows e cantam junto. Somos gratas também ao Haistudio, que nos presenteou com o vídeo.
C – Se algo mudou? Sim, descobrimos que somos bem mais que seis. Descobrimos que somos todas as mulheres que nos trombam pra falar sobre o cansaço que é ser a “fêmea” desses machos tantos. Somos todas as outras que por qualquer motivo não falam ou ignoram nosso trabalho.
R – Como surgiu o grupo Mulamba e qual é o objetivo da banda daqui em diante?
A – A Naira (baixista) e eu nos conhecemos na nossa outra banda, a Orquestra Friorenta. Daí tivemos a ideia de fazer um especial Cássia Eller, só com mulheres. As meninas já tocavam juntas em outras bandas, a Farrapos e a Hounds. Esse especial foi em dezembro de 2015, de lá pra cá foram alguns especiais da Cássia e de outras mulheres, como Elza, Rita Lee, Marisa, Gal. E o autoral veio chegando naturalmente desse encontro que acabou dando certo.
Agora a gente tá em fase de finalização do EP, que lançaremos em março e continuaremos o nosso caminhar.
C – Surgiu como um presente pra Cassia Eller, um som em tributo no dia do aniversário dela e uma coisa foi puxando outra… Vimos o quanto nos somamos juntas e ai estamos. E o que queremos daqui pra frente, continuar tocando e passando a mensagem que tiver que levar
R – Qual é o recado que vocês deixam para as mulheres brasileiras?
A – Que o medo não te vença. Se permitam ser visíveis e livres, como boas P.U.T.A.S que somos!
C – O recado que eu deixo é : mulher saia de casa, vá ver sol e lembrar que as flores tem caules capazes de virar troncos fortes. Não estás ficando empoderada , nasceste poderosa!!! O ventre que pesa o feto tá em ti. Ensina teu guri e tua guria a serem iguais.

Além de Amanda e Cacau, o grupo também é formado por Caro Pisco (Bateria), Fer Koppe (Cello), Naíra Debértolis (Baixo) e Nat Fragoso (Guitarra).

Curtiu? Então não esqueça demonstrar isso seguindo a página da banda no Facebook. Mas se você além de curtir, virou fã, saiba que nesse sábado (10/12) elas se apresentarão em Curitiba, confira os detalhes e confirme sua presença aqui.

Quer ver sua banda divulgada aqui? Nos encaminhe o material para regradostercos@gmail.com.