Os papéis do dia a dia

A cada dia que passa, temos diversos papéis para exercer na vida. Em um, sou mulher, que trabalha, que passa por perrengues de diversos tipos, que acredita, que batalha e sonha. Já em outro, volto a ser menina, que chora, que grita, que não consegue entender o motivo de tudo dar certo para todos menos para ela. Em outro, ainda, sou filha, que tem medo, que não vê motivo pra sair de casa, que quer abraçar o mundo mas sabe que a mãe vai brigar com ela por conta dessa vontade. São diferentes papéis protagonizados por uma mesma pessoa – que, no caso, sou eu mesma.

Somos protagonistas de nossas próprias vidas. Às vezes é complicado assumir isso, mas, sim, nós somos. Então, nessa lógica, tudo o que der errado – ou sair fora da curva que estamos acostumados – é, de certa forma, culpa nossa. Não digo aqui que devemos assumir todas as culpas que nos são impostas, não é isso. Até porque tem culpas que nem são nossas, então não tem porquê assumi-las também. Mas preste atenção em tudo o que você diz e faz. Você é realmente aquilo que quer ser? Será que não está se precipitando em alguns momentos e assumindo ações que nem suas são? É bem importante saber separar a simpatia do amor próprio. O segundo sempre vem antes do primeiro, ok?

Muito do que fazemos não acontece do jeito que esperamos. Há fatos que surgem sem percebermos e há aqueles que não surgem por não querermos. Não tem como ter tudo o que se deseja. É preciso assumir um papel diferente por dia pra tentar chegar onde sempre quis. Eu sou daquelas que sempre quer mais; que não se contenta com pouco. Volta e meia me vejo analisando momentos que passaram e que sei que deveriam ter acontecido exatamente daquele jeito. Não há controvérsias quando se diz que é do passado que se traz as melhores glórias, pois é bem isso que acontece. Só se está nas condições atuais por conta do que já passou. E quanta coisa passou, foram tantas que não tem nem como descrevê-las de maneira certeira. Cada uma delas com uma protagonista diferente, cada uma delas com um eu diferente.

Eu sou composta por vários eus. Cada um protagonista de uma história diferente. Histórias que não se repetem, que custam a apagar. Eu não quero que se apaguem, cada papel principal que exerci foi de grande importância para o meu crescimento. Cada tombo que levei, também. São com os tombos que aprendemos a levantar sozinhos e a dar o melhor de nós mesmos nos dias posteriores. Não é sempre que os dias estarão ensolarados, não são em todos que vamos esboçar o melhor de nossos sorrisos. Mas é sempre importante lembrar que cada papel foi fundamental para traçar a história que chamamos de nossa.

Nada mais importa além do que queremos. Nada mais importa além da nossa própria história. Nada mais importa além do nosso protagonismo. O nosso próprio protagonismo da nossa própria vida.

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Sobre Sentir

eu sinto, não como os demais. sinto devagar, sem pressa. tento não pular etapas. e gosto de pensar que todo novo relacionamento pode ser algo mais. algo duradouro e que agregue. mas hoje só vejo pessoas rasas.

rasas de sentimentos; rasas de intensidades; rasas de emoções; rasas de vontades.

vejo pessoas carentes de histórias, querendo tê-las para contar no tempo passado da juventude, mas rasas na construção de cada linha que faça sentido para essa história.

vejo pessoas imediatistas, carentes de outros e de alguéns, mas rasas o suficiente para não conseguir dar nada em troca. sim, eu acredito que seja uma troca, uma troca de sentimentos.

vejo a ansiedade do novo, a curiosidade pelo desconhecido, a euforia pela quantidade; mas não há espaço para o profundo, para o intenso, para a loucura. loucura, sim, por que não?

enfim, vejo pessoas rasas. rasas demais.

Quantas histórias cabem em uma História?

Eu nunca fui muito fã de História e sempre achei que fosse porque a matéria é mais chata do que o habitual. Durante 23 anos eu sempre coloquei na minha cabeça que não entendia nada dos fatos e acontecimentos porque aquilo tudo era chato e não me importava. Mas estava errada, pois nesse ano, no meio de uma aula que tive na minha pós, percebi que o que me faltou foi apenas um professor que me fizesse prestar atenção na beleza que toda história traz. Afinal, todo mundo tem uma história, certo?

Bom, voltando ao ponto que comecei. Mesmo eu não gostando nem um pouco de História, sempre me interessei pela época da Segunda Guerra Mundial. Por conta do Nazismo, mais especificamente. Já adianto que não sou nenhuma neo-nazi e que não simpatizo com as atrocidades que o Führer cometeu na época. Só que algo me prende a atenção e eu ainda não sei bem o que é. Já passei por vários conteúdos sobre esse assunto, inclusive já analisei diversos deles em trabalhos universitários. O primeiro deles foi sobre o livro “A menina que roubava livros” que, aliás, considerei como meu livro favorito durante muitos anos. Desde que terminei de lê-lo, sonhava com o dia em que alguma produtora de cinema iria arcar com a responsabilidade de adaptar a história para as telonas, mas naquele longíquo ano de 2009, isso era praticamente impossível. Um best-seller mundial que não teve seus direitos comprados imediatamente? Esqueça. Mas ainda bem que não esqueci, pois finalmente em 2014 o tão aguardado filme foi lançado e a sensação de assisti-lo era semelhante a de quando coloquei a obra em minhas mãos para ler aquelas páginas.

Dessa obra icônica de Markus Zusak, caminhei ainda por “O menino do pijama listrado”, “O diário de Anne Frank”, “Caçadores de obras-primas”, “A dama dourada”, “A chave de Sarah” e, com certeza, várias outras. A memória não é uma grande amiga minha e é até por isso que muitas vezes não me lembro da história de um livro ou do nome de um filme. Lembro-me bem do sentimento que se apossou de meu peito quando terminei de ler um diário tão íntimo da pequena Annelies. Era um misto de revolta com gratidão por ter tido alguém tão única no mundo. Uma menina com tão pouca idade, mas que já encarava o mundo da maneira que ele realmente era – e continua sendo, infelizmente. Uma menina sonhadora que se atinha aos pequenos detalhes dos dias intermináveis que passava no anexo secreto. Uma menina que só queria que a guerra acabasse pra ela poder voltar pra casa e viver a sua vida do jeito que merecia: como uma pessoa – e não uma judia.

Nesse último final de semana, esteve em cartaz aqui em Curitiba uma peça de teatro baseada no diário dessa menina. E é claro que vocês já sabem o que fui conferir no sábado a noite: sim, a peça baseada no diário da pequena Anne Frank. Foram 90 minutos de fascínio, de terror, de agonia. Confesso que ri em algumas partes, como naquela em que a senhora van Pels precisou defecar em um balde por não poder ir ao banheiro. E, nisso, não tem nada de engraçado. Muito pelo contrário, essa situação além de cruel, é humilhante. Mas nós, acomodados em nosso bem estar e na nossa rotina inacabável, nos divertimos com as dificuldades e desgraças de alguém que sequer conhecemos.

Aproveitando a deixa, dia desses assisti o filme “Ele está de volta”, uma sátira de como seria o retorno de Hitler nos dias atuais. Confesso, mais uma vez, que ri em várias partes do filme, até porque ele é irônico do início ao fim. Mas, mesmo sendo irônico, dá pra ter uma noção de que o mundo seria horrível se Hitler ressuscitasse e, milagrosamente, conseguisse ascender ao poder mais uma vez! Nós seríamos manipulados novamente por um ser sem pudor e coração – tão sem coração que chega a matar um cachorro com um simples tiro, apenas porque o animal estava enchendo o seu saco. Agora, pare e pense: se ele fez isso com um cachorro, quantas outras crueldades ele não fez para com seu povo?

Câmaras de gás? Tiros a queima roupa? Humilhações públicas ao fazer com que os judeus usassem uma estrela amarela no peito?

É… Todo mundo traz consigo uma história. Algumas possuem uma beleza indiscutível. Já, outras, aterrorizantes. E talvez seja por isso que me fascino tanto com esses fatos. Pra aprender tudo aquilo que não devo praticar em hipótese alguma.