Regra Indica | 5 livros para surpreender o seu 2018

Durante todo o ano de 2017 fiz questão de anotar os livros que lia, só para fazer um balanço de quantos conseguiria ler no total. Foram 40 livros – dentre eles ficção, não-ficção, romances, de crônicas ou contos, sobre publicidade ou teoria da literatura, e por aí vai. O legal de ter feito isso é que percebi que saí um pouco da minha zona de conforto e, consequentemente, conheci um pouco mais de outros gêneros e também me surpreendi com a quantidade de material bom que há entre os escritores de nosso país.

O grande “culpado” por tudo isso foi o curso de Letras Português que comecei a cursar nesse mesmo ano. Não tinha como o cenário ser diferente, certo? Por causa dos meus professores, pude ter contato com autores que antes nunca tive interesse, além de, a cada leitura, ser um pouquinho mais crítica com ela. Tudo isso me amadureceu como leitora e apreciadora da literatura.

Diante disso, separei os 5 melhores livros que li no último ano (em minha opinião, que fique bem claro) e espero que vocês deem uma chance a cada um deles – ou, pelo menos, um deles. Vamos lá?

1 – Índice Médio de Felicidade (David Machado, 2013)

Numa escala de 0 a 10, o quão satisfeito você se sente com a sua vida? A vida de Daniel é nota 8, mas ele se vê obrigado a refazer esses cálculos estranhos e subjetivos quando uma grave crise atinge Portugal e começa a demolir seus planos. Desempregado, longe da mulher e dos filhos, vendo os amigos em situações difíceis e toda uma nova geração ameaçada, Daniel tem seu otimismo colocado à prova. A cada revés, à medida que seu índice médio de felicidade cai, uma força inexplicável dentro de si só parece aumentar. Na sua jornada para recuperar a esperança na felicidade, ele percebe que poderá desistir de tudo, menos de ajudar aqueles que ama. (Google Books)

* Clique aqui e leia a resenha que fiz sobre o livro.

2 – Gota D’Água (Chico Buarque e Paulo Pontes, 1975)

Versão brasileira de Medeia, Chico Buarque e Paulo Pontes se reuniram para revitalizar o texto de Eurípedes, escrito quase meio milênio antes de Cristo, submetendo-o uma injeção de nossa realidade urbana. Medeia é uma história de reis e feiticeiros. Gota D’Água é uma história de pobres e macumbeiros. Medeia é Joana, mulher madura, sofrida, moradora de um conjunto habitacional. Jasão aqui é Jasão mesmo, ainda jovem, vigoroso, sambista que desponta para o sucesso com uma música chamada “Gota D’Água”. Creonte também conserva o nome, e na nossa peça é o todo-poderoso do local, dono das casas, muito rico, o poder corruptor por excelência. A filha de Creonte é Alma, mocinha de veleidades pequeno-burguesas. A aia de Medeia é Corina, amiga e confidente de Joana, que enquanto lavam roupa vão desenrolando o fio da história. (Google Books)

3 – Olhai os Lírios do Campo (Érico Veríssimo, 1938)

Eugênio Pontes, moço de origem humilde, a custo se forma médico e, graças a um casamento por interesse, ingressa na elite da sociedade. Nesse percurso, porém, é obrigado a virar as costas para a família, deixar de lado antigos ideais humanitários e abandonar a mulher que realmente ama. Sensível, comovente, Olhai os Lírios do Campo é um convite à reflexão sobre os valores autênticos da vida. (Google Books)

4 – Detetive à Deriva (Luís Henrique Pellanda, 2016)

Nas crônicas de Detetive à Deriva, as belas estranhezas do dia a dia – como uma família de urubus nas alturas de um prédio, um par de botas abandonado, um solitário bebê chinês na calçada e um enigmático rastro de pétalas – estabelecem a relação entre o flâneur e o investigador, entre os observadores da poesia cotidiana e os autores policiais. Fugindo da tendência atual de transformar o espaço da crônica na imprensa em tribuna de opinião, Luís Henrique Pellanda, grande renovador e um dos principais autores contemporâneos do gênero, inspira-se nas ruas e nas janelas de sua Curitiba. Em pistas que só o cronista vê, o mistério das coisas pequenas se revela ao leitor com a leveza e o encanto de uma história bem contada. (Google Books)

5 – Ele Tem o Sopro do Diabo nos Pulmões (Marcelo Amado, 2016)

Lá de cima, da caravela que passa, aquele é apenas um lugar estranho, distinto. Mas é ali embaixo que as almas banidas devem ficar eternamente presas nas terríveis Gotas de Âmbar. No entanto, algo se mostra muito errado quando um homem consegue burlar o seu destino. E, ao se envolver com uma misteriosa mulher, tentará escapar desse mundo abissal. Depois, um jovem se tornará o maestro do espetáculo circense mais horrível da Terra. Uma figura enigmática em busca do melhor – ou pior – para o seu espetáculo perfeito, doentio. O romance de horror Ele Tem o Sopro do Diabo nos Pulmões apresenta o grotesco e o sobrenatural que transitam por uma atmosfera carregada de gore, insanidades e um toque de steampunk. Bem-vindo ao maior espetáculo de horrores já visto! Bem-vindo ao Cirque Le Monde Bizarre! Mas tome cuidado para não ser a próxima vítima das insanidades do… leal Tissot. (Amazon)


Espero que vocês apreciem cada leitura dessas assim como eu apreciei. Bom 2018! 😉

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As Intermitências da Morte

Hoje eu vou falar do melhor livro que li nesse ano! As Intermitências da Morte de José Saramago ressuscitou aquilo que desde o fim do ano passado estava morto em mim: a fome de devorar um livro o mais rápido possível. Saramago é o um deus da literatura – por mais que negue a existência de qualquer divindade.

O livro começa com a seguinte frase: No dia seguinte ninguém morreu. A partir de então você é sugado para dentro da história e se envolve com a luta que vai da Igreja ao Estado, do cidadão “de bem” à máfia. Tudo isso narrado à maneira única de Saramago. Ele cria as suas regras de ortografia, suas vírgulas são pontos. Seus pontos são raros.

A Igreja Católica começa a ter que bolar estratégias de comunicação para manter o seu papel, pois sem a morte não há ressurreição, sem ressurreição… O Estado começa a tentar articular maneiras de evitar o caos que está para tomar o país.

As funerárias cobram planos do Governo para que não venham à falência. Uma nova lei é criada para salvar o negócio daqueles que cuidam dos moribundos. Que lei é essa? Os mafiosos aproveitam a situação de caos para lucrar. O Estado negocia com os mafiosos. Diante do aperto os cidadãos de bem começam a fazer coisas eticamente condenáveis. Mas que seria a ética diante da extrema necessidade?

E a morte? Essa maldita mostra-se necessária. A sua ausência trouxe para esse país mais dor do que se poderia imaginar. A morte também tem sentimentos. Meu God, que livro é esse? É a oitava maravilha do mundo. O melhor livro que li nesse ano. Está na minha lista de livros prediletos, certamente.

Obrigado Dabliu, pelo presente mais que especial!

Série Mulheres Árabes | # 21 Ahdaf Soueif

Ahdaf Soueif.

Ahdaf Soueif é uma escritora egípcia. É autora de duas coleções de contos – Aisha (1983) e Sandpiper (1996) – e dois romances, In the Eye of the Sun The Map of Love (1999).

Publicou em 2004 um livro de ensaios chamado Mezzaterra. Seu trabalho mais recente é Cairo: My City, Our Revolution (2012), em que traz um relato pessoal da Revolução Egípcia de 2011.

Em entrevista ao site NewStatesman, Soueif respondeu à pergunta “A revolução afetará a ficção árabe?”

No Egito, o romance tem se preocupado com eventos há muito tempo. Nos últimos anos, tivemos romances que foram descrições de distopia – se nada muda, é escuro, um pesadelo. O romance está conectado com a vida, e o que está acontecendo será refletido nele.

Atualmente, Soueif vive entre Londres e Cairo, atuando como comentarista política e escritora para o The Guardian.


Este artigo faz parte da Série Mulheres Árabes, publicações diárias durante o mês de março, com o intuito de contribuir com a visibilidade das diferentes narrativas protagonizadas por mulheres árabes. O projeto é de autoria de Camila Ayouch, colunista do Regra dos Terços e estudante de Letras Português-Árabe na Universidade de São Paulo (USP).

Regra Indica | 5 sugestões de livros para ler durante o ano

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Como boa amante de livros que sou, tenho aquela famosa listinha dos meus preferidos da vida. Pelo fato de estarmos no início do ano, resolvi compilar os 5 mais especiais que já li até hoje – e que possuem uma grande importância na minha vida literária – e deixá-los aqui como sugestão para você também apreciar as grandes obras que são.

Coloque como meta individual ler um ou dois desses 5. Ou, se quiser encarar o desafio, por que não todos eles? Garanto que você não irá se arrepender, além de adquirir ensinamentos belíssimos com eles. E aí, topa?

1 – O Pequeno Príncipe (Antoine de Saint-Exupéry, 1943)

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O primeiro livro dessa lista não tinha como ser outro, já que esse é, de longe, o meu livro favorito. Talvez seja por conta de ser um dos meus primeiros contatos com a literatura, após as fábulas e contos da Bíblia, mas talvez seja também por conta da história que o livro traz. Não me lembro bem a idade que tinha quando o li pela primeira vez, mas posso chutar uns 8 ou 9 anos – e é claro que, naquela idade, eu encarei a história apenas como uma sobre um principezinho que vem de outro planeta para o nosso e que tem uma jiboia que come um elefante, essas coisas. Mas, com o passar dos anos, e com as releituras que fiz, ensinamentos preciosos vieram de encontro a mim, como aquele da famosa frase “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.

Esse, sim, é um livro que poderia ser obrigatório nas escolas, pois possui uma linguagem simples, mas é de uma profundidade indescritível.

2 – A Droga da Obediência (Pedro Bandeira, 1984)

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Quando eu tive a oportunidade de estudar em um colégio particular (num longínquo 2001), tive a oportunidade, também, de estar sempre dentro de uma biblioteca, lugar recheado de livros para a idade que tinha na época – incríveis 8 anos. Além da biblioteca do colégio em que estudei, comecei a frequentar também a Biblioteca Pública do Paraná, não só por ter acesso a conteúdos de pesquisas escolares, mas também por aquele lugar trazer inúmeras possibilidades de leituras diferentes das que estava habituada até então. E uma das que trago com muito carinho desde essa fase é a saga d’Os Karas, história criada por Pedro Bandeira.

Em “A Droga da Obediência”, Bandeira traz a história de cinco estudantes – Miguel, Crânio, Magrí, Calu e Chumbinho -, um grupo de “detetives” que são incubidos de desvendar o mistério de uma droga internacional que está sendo experimentada em alunos dos melhores colégios de São Paulo. Nesse livro, e em todos os outros da saga, Os Karas tem importância fundamental na hora de desvendar mistérios esquisitos que acontecem em seu cotidiano. Afinal, é assim que Os Karas são: o avesso dos coroas, o contrário dos caretas!

* A saga completa é composta, ainda, pelos livros: Pântano de Sangue (1987), Anjo da Morte (1988), A Droga do Amor (1994), Droga de Americana! (1999), A Droga da Amizade (2014).

3 – Harry Potter e a Pedra Filosofal (J. K. Rowling, 1997)

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Fã assumida de Harry Potter que sou, não podia deixar de indicar a leitura do clássico da saga, certo? Acredito que a maioria das pessoas já conhece a história do bruxo mais queridinho dos últimos tempos, mas não custa nada repetir: Harry é filho de dois grandes bruxos, porém fica órfão ainda quando bebê. Por conta disso, ele é criado por seus tios – que são trouxas (não-bruxos) -, mas, em seu aniversário de 11 anos, recebe uma visita inusitada do guardião das chaves de Hogwarts (uma das escolas de magia e bruxaria mais importantes do mundo), Hagrid, e descobre que, na verdade, é um bruxo.

A história desse primeiro livro da saga introduz a nós os primeiros passos do bruxinho no mundo da magia, bem como o início de sua amizade com Rony e Hermione, dois importantes personagens não só para essa história, mas também para todas as outras. Para quem gosta de uma boa literatura fantástica, essa saga é um prato cheio de aventuras e sentimentos.

* A saga completa é composta, ainda, pelos livros: Harry Potter e a Câmara Secreta (1998), Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (1999), Harry Potter e o Cálice de Fogo (2000), Harry Potter e a Ordem da Fênix (2003), Harry Potter e o Enigma do Príncipe (2005), Harry Potter e as Relíquias da Morte (2007). Mais recentemente (2016), foi lançado o livro Harry Potter e a Criança Amaldiçoada, roteiro de uma peça teatral cuja história se passa 19 anos depois do término do último romance.

4 – A Menina que Roubava Livros (Markus Zusak, 2005)

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Eu não sei de onde vem a minha paixão por histórias sobre a Alemanha nazista, sejam elas literárias ou cinematográficas, e eu até tentei descobrir isso nesse outro texto que escrevi aqui no Regra. O meu primeiro contato com essa temática foi com esse livro icônico de Zusak, que é narrado pela Morte e conta a história da menina Liesel. Como descreve o título, Liesel realmente rouba livros, sendo o primeiro deles o “O Manual do Coveiro”, livro que o coveiro que enterrou o seu irmão mais novo deixou cair sem perceber. Como não sabia ler, pede ajuda ao seu pai adotivo, Hans, que a ensina a junção das letras no porão de sua casa. Com o decorrer da trama, ela se aventura cada vez mais nesses roubos, aprendendo sempre alguma coisa com as suas leituras.

Meu carinho por essa obra vem de algum tempo já, pois ela não é apenas uma história, mas sim uma história que mostra a realidade de uma criança querendo ir muito mais além da guerra que assolava o seu país. E nem preciso comentar como ficou meu emocional quando fiquei sabendo da adaptação da história para o cinema, né? Então ótimo. ♥

5 – A Sombra do Vento (Carlos Ruiz Zafón, 2001)

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Zafón conseguiu despertar em mim uma grande paixão com a saga que tem início nesse livro. A aclamada história d’O Cemitério dos Livros Esquecidos se passa em Barcelona, no ano de 1945, e começa narrando que Daniel Sempere está completando 11 anos e, por conta de não conseguir lembrar-se do rosto de sua mãe, é levado pelo seu pai até um misterioso lugar localizado no coração da cidade – o tal do cemitério de livros que nada mais é do que um depósito de obras esquecidas. Dentre várias presentes, Daniel depara-se com um exemplar de “A Sombra do Vento”, de Julián Carax, e fica fascinado com ele. Ao tentar ir atrás de mais informações sobre obra e autor, descobre que poucas pessoas os conhecem, além de perceber que há alguém que está queimando todos os exemplares do livro em questão.

Pra quem é fã de suspense e aventura, essa é uma história completa que, além de tudo isso, traz um enredo num cenário misterioso e que aborda o encanto que os livros trazem à nossa vida.

* A saga completa é composta, ainda, pelos livros: O Jogo do Anjo (2008), O Prisioneiro do Céu (2011), O Labirinto dos Espíritos (2016).


Bom, essas são as 5 obras literárias fundamentais que me fizeram ser o que sou e a gostar do que gosto. Espero que vocês gostem de cada uma delas, caso as leiam. E se você quiser compartilhar as suas obras preferidas, deixe aqui nos comentários! Quem sabe nós não temos algo em comum, hum?! 😉

Curitiba cada vez mais Literária

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Curitiba está se consolidando no ramo da literatura – se é que já não se consolidou. Sim, é isso mesmo. E que bom que é!

Sempre estive ligada com a literatura, desde que me entendo por gente, mas não como nesses dois últimos anos. A partir do momento que você se insere no meio editorial da coisa – no meu caso foi através de publicações de alguns contos em livros físicos -, você começa a enxergar o ramo com outros olhos. Você começa a se interessar não só pela literatura em si, mas também por quem a faz – muito bem, por sinal.

A nossa cidade, já há algum tempo, tem constantes atividades acerca do assunto, tendo início, talvez, na Biblioteca Pública do Paraná. Há três anos, ainda, teve o início do Litercultura – o Festival Literário de Curitiba. Já o Sesi também traz uma vasta gama de opções, incluindo a sua já famosa Sabatina Literária. E se você acha que acabou, está enganado, pois há dois anos Curitiba também recebe eventos do tipo na Esc. Escola de Escrita.

Agora, em 2016, chegou a vez da Literatura (com L maiúsculo mesmo) ter o seu espaço na Bienal de Curitiba – que já é consolidada na área de Cinema e Artes Visuais. A Curitiba Literária, como foi batizada, é o assunto principal do evento desse e do próximo ano e está trazendo grandes nomes da literatura a diversos espaços da nossa cidade – como a já citada Biblioteca Pública, a Livraria Cultura e a UFPR. A proposta de tudo, segundo a curadoria, é “se colocar no centro de um importante momento para a cultura brasileira”. E acredito fielmente que estão conseguindo, pois nomes como Cristovão Tezza, Bernardo Carvalho, Caetano Galindo e José Castello já fizeram a sua parte nesse grandioso evento.

Crédito: Divulgação / Guilherme Nascimento
Crédito: Divulgação / Guilherme Nascimento

A programação teve início agora em novembro – mas se estende até fevereiro de 2017 – e conta com atividades como mesas literárias, palestras, saraus e exposições. Os ingressos são gratuitos, mas é recomendável que se chegue antecipadamente ao local, para que o seu lugar seja garantido.

Pra quem tem fome de literatura e escrita, assim como eu, a Bienal de Curitiba de 2016/2017 é um prato cheio, quase transbordando.

SERVIÇO
Curitiba Literária – Bienal de Curitiba
Data: novembro/2016 a fevereiro/2017
Horários e locais: vide site – www.bienaldecuritiba.com.br/2016/literatura
Entrada franca

É preciso falar sobre empatia

Segundo o dicionário, empatia é o “processo de identificação em que o indivíduo se coloca no lugar do outro e, com base em suas próprias suposições ou impressões, tenta compreender o comportamento do outro”. Ou seja, empatia é ver o mundo através dos olhos do outro; é entender a situação como um todo não através de nossos preconceitos e preceitos, mas sim através da percepção da outra pessoa – seja ela quem seja.

O mundo atual encontra-se em um verdadeiro caos, onde as pessoas não se respeitam mais e tudo acontece apenas para conquistar o que tanto querem. O mundo se transformou em um lugar mesquinho, egoísta, xenófobo, racista e etecétera. Porém, como para todos os comuns há as excessões, ainda é possível encontrar pessoas boas e que emanam o bem para o seu próximo – independente de sua idade, raça ou classe social.

Há tipos e tipos de pessoas boas e que podem ser divididas em 3 categorias principais: uma agrega as forçadas, outra as simpáticas e a última as empáticas. Explico:

1) As forçadas são todas as pessoas que fazem alguma coisa contra a sua vontade. São aquelas que ajudam o guardador de carros ali da rua com algumas moedas, mas apenas porque há alguém insistindo para que ela faça aquilo. O sentimento (ou a sensação) daquela pessoa pode até ser bom, mas não verdadeiro.

2) As pessoas simpáticas são aquelas que propagam o lado positivo de ser para os outros, são aquelas que sorriem quando precisam sorrir – ou até mesmo quando não precisam -, são aquelas que demonstram que o que sentem é verdadeiro e bom. Pessoas simpáticas às vezes não ajudam o guardador de carros ali da rua mas não porque não querem, e sim porque não podem. Não tenho nada hoje, amigo. Desculpa.

3) As pessoas empáticas – existentes, porém em menor número – são aquelas que definitivamente se colocam no lugar do outro. São aquelas que sentem e vivem o outro, sem sequer precisar fazer muito esforço. A empatia já faz parte delas e faz com que essas pessoas sintam não só a sensação boa de alguém, mas a ruim também, a ponto delas entenderem tudo – ou pelo menos quase tudo – do que se passa com ele.

Ser empático não é simples e eu, em momento algum, afirmei isso. Porém, é só com a prática que adquirimos essa característica. É só exercitando-a, dia após dia, que nós nos tornamos um pouquinho melhores do que fomos ontem. Talvez você esteja se perguntando como começar a praticar tal ato e tá tudo bem. Não há nada de errado em ter dúvidas, muito menos em querer saná-las. E é até por isso que resolvi escrever este texto. Eu quero apresentar a vocês – e a outros também, por que não? – duas obras que tratam a empatia de uma forma simples, singela e completamente verdadeira.

A primeira, literária, chama-se Extraordinário, escrita por R. J. Palacio. O livro conta a história de um menino de 11 anos, August (ou Auggie, como é chamado pela família e colegas), que possui uma doença muito rara. Até aí, tudo “normal”. A questão é que essa doença atingiu o seu rosto completamente, deformando-o desde o os olhos – que são caídos, quase no meio das bochechas – até as orelhas – que são praticamente inexistentes. Auggie levara uma vida normal até o início da quinta série em uma escola regular, ele mesmo narra isso pra gente logo no início. Todos o consideravam como uma criança deficiente e com necessidades, mas a verdade era que ele não passava de uma criança normal, que estudava (mesmo sendo em casa), brincava e se dedicava ao vício de fã que Star Wars lhe proporcionava.

 Primeira imagem divulgada da adaptação de Extraordinário para os cinemas.
Primeira imagem divulgada da adaptação de Extraordinário para os cinemas.

R. J. Palacio teve uma grande sacada ao escrever seu livro. Ao contrário de alguns livros que contam a história de cabo a rabo apenas através do ponto de vista do protagonista, ela decidiu alternar a narração da história entre August, Olivia (ou Via, sua irmã), Miranda (amiga de Via), Jack e Summer (amigos de Auggie), entre outros. São essas diferentes narrações que dão todo o encanto e beleza que a história tem. São essas narrativas, de cada um desses personagens, que nos mostra como a empatia pode ser exercida no dia a dia. Imagine só você precisar ser amigo de alguém que foi rejeitado sua vida inteira? Pois Jack imaginou, rejeitou, se esforçou e conseguiu. Mesmo sendo forçado no início (lembra-se desse grupo de pessoas?), o garoto conseguiu ver em August a essência de um menino que só queria estar naquela escola para estudar e aprender e, quem sabe, um dia parar de ser evitado pelos demais. Ele não queria amizades, não queria que os outros sentissem pena, nem nojo, nem nada disso; queria apenas ficar na dele, enfrentar tudo aquilo e talvez passar despercebido pelos olhares fixos em seu rosto.

O livro de Palacio é uma excessão dentro de tantas obras. Ele não traz uma história de drama, ele traz uma história de superação. Ele é tão leve e possui uma narrativa tão simples, mas convidativa, que o li em cerca de 3 dias. Foram quase 72 horas lendo 320 páginas e, olha, acreditem quando digo que leria mais 320 sem problema algum. Portanto, leiam. Deem uma chance ao livro que, como seu próprio nome, é extraordinário. Mas bom, seguindo, vamos à segunda obra que mencionei, dessa vez audiovisual.

Há alguns meses, o Regra (sim, esse site mesmo) indicou o filme Little Boy. Demorei para assisti-lo, mas há 2 dias finalmente ele foi a minha escolha no Netflix. E que escolha, que filme sensacional (obrigada Erick!). Little Boy conta a história de Pepper, um menino que, por ter uma altura bem inferior aos outros meninos de sua idade e, por isso, não ter amigos, tinha apenas seu pai como parceiro. Até ele ir à guerra e deixar Pepper “sozinho”. Digo entre aspas porque o garoto não estava totalmente sozinho, ele tinha a sua fé e esperança de que, se seguisse uma velha lista do Antigo Testamento, a Segunda Guerra Mundial acabaria e seu pai voltaria rapidamente para a sua casa e sua família. Durante o filme todo, é mostrada a trajetória de Pepper em busca da concretização daquilo que ninguém entendia – inclusive em como o garoto precisou deixar tudo aquilo que tinham lhe falado até então sobre os japoneses (inimigos dos americanos na Guerra) de lado para se aproximar e criar um laço com um deles que morava na cidade há diversos anos.

Cena da despedida de Pepper e seu pai em Little Boy.
Cena da despedida de Pepper e seu pai em Little Boy.

Little Boy passa uma mensagem bela sobre a inocência de uma criança – inocência, essa, que o mundo nos rouba -, mostra como é possível fazer o bem a si e aos outros e afirma que acreditar fielmente em algo é sempre válido. A linguagem, tanto visual quanto a provinda do roteiro, é simples como Pepper; ela faz com que qualquer pessoa se coloque no lugar daquela criança que se despede do pai sem ter a certeza de que irá vê-lo novamente algum dia. E ela mexe. Ah, como mexe! Não me lembro de ter chorado tanto assistindo a um filme. Os pontos de virada do filme com certeza foram estrategicamente pensados para te pegar justamente quando você menos espera. E isso, meus amigos, é uma maneira sutil – e devastadora – de nos mostrar o que a empatia pode nos causar.

Então, com base nessas duas obras de arte espetaculares que pude experimentar na última semana – e também me baseando em tudo o que disse no início desse texto – afirmo: sim, é preciso falar sobre empatia. Não só para mudar o seu ser ou o seu viver, mas também para ajudar o outro e, quem sabe, poder mudar o mundo. Afinal, nós somos tudo aquilo que emanamos e praticamos – seja ele o bem ou o mal, a alegria ou a tristeza, a apatia ou a empatia. Entende?

A arte de ler o prefácio

 Levei cinco anos para terminar de ler Dom Casmurro, clássico escrito por Machado de Assis, publicado em 1899 e considerado um dos livros mais fundamentais da literatura brasileira. Durante esse tempo tentei várias vezes fazer a leitura completa, visto a importância da obra, mas, por capricho, sempre desisti em qualquer capítulo.

 Meu primeiro contato com Dom Casmurro foi através de uma adaptação para a televisão intitulada Capitu, e só no ano seguinte fui apresentado ao livro nas aulas de literatura do ensino médio. Na história o protagonista e narrador, Bento Santiago, faz relatos desde sua mocidade até os dias em que está escrevendo o livro, passando pela sua vida no seminário e seu caso com Capitu, mas a trama principal da narração resulta do ciúme doentio em seu relacionamento.

 Nunca entendi muito bem porque ciúme, adultério e tragédia faziam aquela obra tão aclamada, até que certa vez, em mais uma de minhas tentativas de concluir a leitura, comecei pelo prefácio, discurso preliminar que expõe o motivo da obra e processos seguidos por ela, e dessa vez fui até o final.

 

 Apesar do meu descaso com a literatura eu quase sempre fui próximo das artes, já que aos os onze anos de idade passei a estudar no Conservatório Municipal de Arte da minha cidade. Frequentemente vou em museus, teatros e concertos, mas, ao contrário de mim, isso não é comum entre meus amigos, fato que eu sempre tentei entender e só consegui durante a faculdade.

 A arte, manifestação humana de ordem estética, acontece por meio de várias linguagens, como: arquitetura, escultura, pintura, dança, música, poesia e cinema (Manifesto das Sete Artes), através das quais são expressadas ideias e emoções de significado singular pra cada obra.

 A linguagem artística, assim como a linguagem verbal, possui um aspecto dinâmico e, mesmo obedecendo a certos princípios organizacionais, suas convenções variam conforme momento histórico e espaço social. Dado que, como meio de expressão, a arte dá forma às vivências humanas, conhecer seus códigos formais: gêneros, estilos, técnicas, temas, contexto, é o que possibilita sua compreensão de forma consciente.

 

 Depois de conhecer as influências literárias que levaram Machado de Assis a escrever Dom Casmurro, sua intertextualidade com Otelo de Shakespeare e o contexto histórico sobre o qual a obra foi construída, eu possuía as referências necessárias que me permitiram compreender a obra em sua totalidade e entender que sua composição não estava baseada em ciúme, adultério ou tragédia e sim em ironia, ceticismo e ambiguidade.

 Em suma, a capacidade de interpretação que um indivíduo possui a respeito dessa linguagem está diretamente relacionada ao domínio que se detém das referências necessárias à sua apreensão, e ainda que as práticas culturais populares sejam uma das principais fontes de familiarização da cultura, para muitas produções será necessário ler o prefácio.

O escafandro e a borboleta

França, 1996.

No silêncio do quarto 119, Jean-Dominique Bauby emerge do coma. Cerca de dois meses antes, o então redator-chefe da revista Elle sofrera um acidente vascular cerebral, comprometendo todas suas funções motoras. Incapaz de movimentar-se, comer, falar e até mesmo respirar sem a ajuda de aparelhos, fora atingido por aquilo que a medicina chama de “locked-in syndrome”, literalmente, trancado no interior de si mesmo.

Com exceção do olho esquerdo, seu corpo fora fadado à inércia. Dadas as circunstâncias, não havia tempo a perder em sua nova morada, o Hospital de Berck. Aprendeu a se comunicar através de piscadas e, assim, decidiu escrever um livro. Cartões-postais de uma terra distante.

Permito-me ser tomada “pelo acesso de riso nervoso que o acúmulo de catástrofes sempre acaba por provocar quando decidimos tratar o último golpe do destino como piada”. Ainda que sob circunstâncias distintas, também estou presa em meu corpo. Assim como Jean-Dominique, faço das palavras minha morada, transcrevendo-as em cadernos de viagem imóvel. Infelizmente, elas não tangem a importância que suas piscadas têm em minha vida.

Para Jean-Dominique Bauby, onde quer que esteja: Obrigada por me lembrar que mesmo dentro do escafandro, eu ainda sou uma bela borboleta.

Quantas histórias cabem em uma História?

Eu nunca fui muito fã de História e sempre achei que fosse porque a matéria é mais chata do que o habitual. Durante 23 anos eu sempre coloquei na minha cabeça que não entendia nada dos fatos e acontecimentos porque aquilo tudo era chato e não me importava. Mas estava errada, pois nesse ano, no meio de uma aula que tive na minha pós, percebi que o que me faltou foi apenas um professor que me fizesse prestar atenção na beleza que toda história traz. Afinal, todo mundo tem uma história, certo?

Bom, voltando ao ponto que comecei. Mesmo eu não gostando nem um pouco de História, sempre me interessei pela época da Segunda Guerra Mundial. Por conta do Nazismo, mais especificamente. Já adianto que não sou nenhuma neo-nazi e que não simpatizo com as atrocidades que o Führer cometeu na época. Só que algo me prende a atenção e eu ainda não sei bem o que é. Já passei por vários conteúdos sobre esse assunto, inclusive já analisei diversos deles em trabalhos universitários. O primeiro deles foi sobre o livro “A menina que roubava livros” que, aliás, considerei como meu livro favorito durante muitos anos. Desde que terminei de lê-lo, sonhava com o dia em que alguma produtora de cinema iria arcar com a responsabilidade de adaptar a história para as telonas, mas naquele longíquo ano de 2009, isso era praticamente impossível. Um best-seller mundial que não teve seus direitos comprados imediatamente? Esqueça. Mas ainda bem que não esqueci, pois finalmente em 2014 o tão aguardado filme foi lançado e a sensação de assisti-lo era semelhante a de quando coloquei a obra em minhas mãos para ler aquelas páginas.

Dessa obra icônica de Markus Zusak, caminhei ainda por “O menino do pijama listrado”, “O diário de Anne Frank”, “Caçadores de obras-primas”, “A dama dourada”, “A chave de Sarah” e, com certeza, várias outras. A memória não é uma grande amiga minha e é até por isso que muitas vezes não me lembro da história de um livro ou do nome de um filme. Lembro-me bem do sentimento que se apossou de meu peito quando terminei de ler um diário tão íntimo da pequena Annelies. Era um misto de revolta com gratidão por ter tido alguém tão única no mundo. Uma menina com tão pouca idade, mas que já encarava o mundo da maneira que ele realmente era – e continua sendo, infelizmente. Uma menina sonhadora que se atinha aos pequenos detalhes dos dias intermináveis que passava no anexo secreto. Uma menina que só queria que a guerra acabasse pra ela poder voltar pra casa e viver a sua vida do jeito que merecia: como uma pessoa – e não uma judia.

Nesse último final de semana, esteve em cartaz aqui em Curitiba uma peça de teatro baseada no diário dessa menina. E é claro que vocês já sabem o que fui conferir no sábado a noite: sim, a peça baseada no diário da pequena Anne Frank. Foram 90 minutos de fascínio, de terror, de agonia. Confesso que ri em algumas partes, como naquela em que a senhora van Pels precisou defecar em um balde por não poder ir ao banheiro. E, nisso, não tem nada de engraçado. Muito pelo contrário, essa situação além de cruel, é humilhante. Mas nós, acomodados em nosso bem estar e na nossa rotina inacabável, nos divertimos com as dificuldades e desgraças de alguém que sequer conhecemos.

Aproveitando a deixa, dia desses assisti o filme “Ele está de volta”, uma sátira de como seria o retorno de Hitler nos dias atuais. Confesso, mais uma vez, que ri em várias partes do filme, até porque ele é irônico do início ao fim. Mas, mesmo sendo irônico, dá pra ter uma noção de que o mundo seria horrível se Hitler ressuscitasse e, milagrosamente, conseguisse ascender ao poder mais uma vez! Nós seríamos manipulados novamente por um ser sem pudor e coração – tão sem coração que chega a matar um cachorro com um simples tiro, apenas porque o animal estava enchendo o seu saco. Agora, pare e pense: se ele fez isso com um cachorro, quantas outras crueldades ele não fez para com seu povo?

Câmaras de gás? Tiros a queima roupa? Humilhações públicas ao fazer com que os judeus usassem uma estrela amarela no peito?

É… Todo mundo traz consigo uma história. Algumas possuem uma beleza indiscutível. Já, outras, aterrorizantes. E talvez seja por isso que me fascino tanto com esses fatos. Pra aprender tudo aquilo que não devo praticar em hipótese alguma.