#342Artes – Somos contra a censura

Artistas da Globo fizeram manifestações contra a censura artística

O presidente está desviando de denúncias de corrupção e ninguém fala nada. Senadores e deputados idem, e o povo se cala. Mas quando uma exposição de arte atenta contra o que eles chamam de “moral e bons costumes”, aí o povo se revolta. Teve manifestação e censura transvestida de boicote. Agora vereadores de Uruguaiana-RS querem dizer que tipo de livro pode ou não estar na Biblioteca Pública da cidade. Sabe onde mais aconteceu isso? Na Alemanha Nazista (além do Brasil na era da Ditadura Militar, claro).

Como a ignorância é a raiz de todos os males – e pra mim os atacadores de exposições são boa parcela dos males – vou contar de maneira bem reduzida, simplista e fácil de entender. Um dia Hitler chegou ao poder, correto? Ele chegou lá graças a uma propaganda muito bem articulada que o colocava como o salvador da nação. Aquele que iria trazer a Alemanha de volta. O cara que iria colocar o país desgovernado nos eixos. E chegou lá com discurso contra um grupo de pessoas, os tais dos judeus. Com esse discurso fácil, ele começou a ser adorado pelo povo.

Como ele inflamou o povo contra os judeus, logo as pessoas começaram a fazer manifestações contra toda a comunidade judaica. E ele não fez nada. Começaram a quebrar vidraças de lojas judaicas. Queimaram sinagogas. E Hitler tirou os policiais das ruas para não atrapalhar o “direito a livre manifestação” dos defensores da moral e bons costumes alemão. Livros com conteúdo “inadequado para o povo da Alemanha” foram queimados em praça pública. Você sabe como termina essa história, né? Com o massacre de mais de seis milhões de judeus.

Você acha que as pessoas que foram para as ruas quebrar lojas judaicas tinham noção de qual fim isso teria? Certamente não. Elas estavam cegas, fumegando em ódio. Elas não podiam enxergar o real mal de suas manifestações. Elas não viam o que estavam fazendo. Não percebiam que estavam sendo manipuladas. Achavam que defendiam os seus pensamentos, mas na verdade estavam defendendo os pensamentos do seu líder, que com isso fazia com que o povo o amasse, afinal, era ele quem tinha feito com que elas enxergassem o “real perigo” que os judeus apresentavam.

Hoje temos candidato sendo carregado pelo povo, e tido como o herói que vai salvar a nação – e isso na direita e na esquerda. Temos exposições sendo fechadas. Temos terreiros de umbanda sendo quebrados. O povo aceita a possibilidade de intervenção militar. Bibliotecas não podem ter todos os tipos de livro. A moral e os bons costumes estão acima de tudo. A fé só é sacra se for cristã. Ser gay é tido como ser doente. Grupos como o MBL que só aparece para inflar a população com essas pautas morais, enquanto o que defendem na verdade é uma pauta política sem clamor popular. E tudo isso enquanto temos um presidente com a aprovação igual a margem de erro das pesquisas. E as pessoas preferem atacar artistas de uma emissora, que até o ano passado era de direita, agora é comunista.

Onde vocês acham que isso vai parar?

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Vídeo do Dia | O MBL e a estratégia das pautas morais

Recentemente publiquei um texto recheado de ironia, no qual eu falo sobre as crenças cegas que algumas pessoas tem no MBL (Movimento Brasil Livre). Se ainda não leu, veja aqui – A ignorância é uma benção. Hoje eu abro o Youtube como faço diariamente e me deparo com um vídeo do Justificando, no qual a pesquisadora Esther Solano, cientista política e professora na Universidade Federal de São Paulo, acusa o grupo de abraçar pautas de teor passional, como religião e moral, apenas para incendiar o cenário e marcar presença diante da população. Uma vez que as pautas que são realmente defendidas pelo grupo, não tem apelo popular. Veja.

A ignorância é uma benção

A ignorância deveria ser mais cativada pela humanidade. Falo sério, ela é uma benção. Pensa bem, a ignorância faz você pensar que votar no Bolsonaro para presidente vai garantir que será derrubada a maioridade penal, afinal de contas, quem liga para Constituição? E um presidente tem poder para mudar tudo o que quiser, mesmo sem apoio do Congresso, né?

Imagina que louco, acordar um dia e ter a certeza de que todos os problemas de corrupção do país estão localizados em um único partido! Isso deve ser mágico. Imaginar que o MBL é um grupo apartidário que defende realmente a moral e os bons costumes da família tradicional brasileira, sem nenhuma pretensão de ascendência de poder político. Achar que eles trabalham por filantropia mesmo. Tudo uns meninos do bem, que querem salvar a nação. Mano, deve ser bom demais acordar pensando assim.

Acreditar realmente que o problema de pedofilia no país está nas obras de arte deve ser regozijador. Aí é só você compartilhar um texto furioso nas redes sociais e pronto! Não existe mais pedofilia em toda a nação verde e amarela.

Imagina você realmente pensar que com a polícia subindo o morro e matando gente pobre vai acabar o tráfico no Rio de Janeiro. Imaginar que o problema das droga é por falta de gente morta. Gente, pensar assim deve ser emocionante.

Quem vai contra o que você pensa está errado, e ponto final. Você sempre é o dono da razão. Meu pai amado, nada deve ser melhor do que pensar assim. Deveríamos muito valorizar mais a ignorância. Certamente dormimos melhor com ela, afinal, somos gado e o gado sempre caminha tranquilo para o abate.

Queermuseu – A arte serve pra que?

Recentemente foi cancelada a exposição “Queermuseu – cartografias da diferença na arte da brasileira”do Santander Cultural de Porto Alegre, após muitas manifestações de pessoas ligadas ao MBL. Segundo essas pessoas as obras ali expostas desrespeitavam símbolos religiosos e faziam apologia a pedofilia. Sendo assim eu te questiono: a arte serve pra que?