Quando temos incerteza precisamos comer merda

Tudo na vida é questão de escolha e isso pode se tornar um fardo. Ter que escolher não é tão simples quanto pode parecer. Mas a cada minuto que passa, a cada fração de tempo que nos envelhece, precisamos escolher mais e mais. E é nessa situação de merda, em que a nossa vontade será feita, que nos encontramos no caos.

É tipo aquela velha história do gênio da lâmpada, que aparece e lhe dá três desejos, o único desejo que não pode ser pedido, é o de ter mais desejos. Se o gênio não alertasse a nós, pobres mortais, certamente escolheríamos justo a opção proibida. E eu te garanto que não é nem tanto por ambição e sim por medo de escolher errado e não poder escolher outro caminho quando chegar o tempo do após.

Diante dessa encruzilhada nos escondemos na incerteza e ficamos embaixo do muro, não em cima como pregam as vãs filosofias, mas embaixo, onde não se pode mais levantar se não comer um caminhão de merda. Porque esse muro da incerteza não fica instalado na terra e sim na mais profunda e densa merda que somos.

E quando estamos assim tudo o que desejamos é que venha o tal do destino, o mesmo desgraçado que nos colocou na situação de ter que escolher, e decida por nós. Mas quando isso não acontece precisamos arriscar, comer a nossa merda a bolonhesa e sair para um dos lados do muro. Nesse momento o maior medo que nos assola é de escolher justamente o lado que tem a grama menos verde.

No fundo, o que deveríamos focar é na realidade de que qualquer lugar é melhor do que estar embaixo do muro, mesmo que o local escolhido não seja o melhor lugar do mundo. Mas, nesse momento eu não consigo mais continuar a falar sobre isso, pois preciso começar a comer essas merdas que estão ao meu redor.

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Aventura em cima do muro: Explosão de verdades cordiais (Novembro 2016)

Texto enviado por Asaph Eleutério

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Viver uma vida em cima do muro

O presente momento político brasileiro pede atenção. Urra do lado de fora de portões fechados por estudantes secundaristas, mobiliza-se à favor da eleição de Donald Trump em plena Av. Paulista. Os brasileiros outrora cordiais, sangue-bão, e concordantes transmutaram-se – sob a lua cheia do estelionato da riqueza do país por meio das copas e olimpíadas em enormes lobisomens sangue-ruim-discordantes. Monoliticamente discordantes.

As “verdades” que cobrem seus urros são subprodutos das visões de mundo que o mundo lhes fornece. Como diziam os gregos “doxas”, opiniões, mas, no presente momento político brasileiro, se tornaram “dogmas” altamente questionáveis e inflamáveis, na minha opinião (que com absoluta certeza está errada, para alguma outra). Qualquer posição poderá ser usada contra você no tribunal dos lobisomens sangue-ruim-discordantes.

Eu me via escondido atrás da minha parati 2005, com meus amigos empalidecidos e frente (ou de costas) a um encurralamento acidental ocorrido no estacionamento da escola estadual em que fomos nos apresentar em apoio às ocupações secundaristas. Desocupadores contra outra ocupadores, divididos por uma grade, que bloqueava meu carro da um portal para bem longe de uma zona de conflito.

Leia: Um dos momentos mais tristes da vida

Eu, atrás da minha parati 2005, dizia comigo: eu não ligo. Ora, estar em cima do muro em tal troca de tiros de discordâncias e adrenalinas à flor das peles era o mesmo que tomar um terceiro partido. Eu, dirigindo da minha parati 2005, saindo entre um misto de medo e reprovação, no meio de uma situação política explosiva não estava dando a mínima. Lembro, sou bem sincero quando escrevo, então, é isso aí mesmo. Estava preocupado com a minha mãe, que estava em casa, com dores de barriga.

Nossa saída foi quase um momento de colapso da ocupação, que estava sendo atacada por desocupadores insatisfeitos com direitos a gritos de palavras de ordem de caráter ofensivo e monitorada por policiais militares à paisana (que eu vi, estavam lá, a meia quadra e meio que rindo da situação da saída da parati 2005, tripulada por três gasparzinhos, com as janelas abertas e ouvindo um som alto pra fingir que estavam “tranquilebas”).

A única coisa em que refleti, quando o sague voltou a circular devidamente no cérebro foi: como será que estar neutro em uma circunstância se tornou tão ruim assim, no presente momento político brasileiro?

Leia: É verdade que estar só é duro?

Me sinto na margem de ambos os lados – onde sempre estive – e, desculpem, mas a minha posição política é em cima do muro. E aconselho a todos a me acompanharem, neste incrível mundo, onde conversamos ao invés de urrar e digladiar contra grades. Pouco se tira de proveito de ações como esta, além de jocosas aventuras.


Gostaria de ver sua crônica publicada no Regra dos Terços? Então faça como o Asaph, encaminhe um e-mail para regradostercos@gmail.com e boa sorte!