Série Mulheres Árabes | # 30 Layali Alawad

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* Este artigo é uma tradução livre da publicação feita no Creative Havens: Syrian Artists and Their Studios. Para acessar a publicação original, em inglês, clique aqui. (Fotos por: http://www.thomas-langens.de/)

Layali Alawad é uma jovem artista síria, formada em Técnicas Gráficas e Impressão pela faculdade de Belas Artes da Universidade de Damasco. Nascida em Aachen, na Alemanha, mudou-se com sua família para Damasco e, depois de alguns anos, voltou à Aachen, onde vive atualmente.

Creative Havens – Qual é a sua relação com o seu estúdio? O que ele representa para você? Como você se sente quando está lá?

LA – Enquanto o estúdio do artista é necessariamente um espaço no qual ele pode trabalhar e pensar, é também o seu próprio paraíso criativo. Para mim, meu estúdio é como um microcosmo próprio, aqui há outras regras, outras condições, outras prioridades.

As pessoas podem pensar que ele [o estúdio] é desorganizado ou mesmo confuso, mas eu vejo essa desorganização como um compromisso bastante dinâmico, gradual e progressivo: toda mudança significa desorganização do velho e organização do novo.

Assim, no meu pequeno estúdio de arte, um pequeno caos é a evidência da criatividade. Conta a história das lições aprendidas na exploração, da experiência adquirida e das emoções expressas.

CH – O layout, a organização e a localização do seu estúdio têm influência na criação das suas obras? Que papel esse espaço, tempo e solidão têm em seu trabalho?

LA – No passado, como eu ainda estava vivendo na Síria meu estúdio de arte foi fixado no porão da minha casa. Para mim, esta era obviamente uma situação ideal, já que meu estúdio era também o lugar onde eu estava acostumado a receber meus amigos e ensinar aulas particulares de arte para as crianças.

Hoje, já que estou vivendo na Alemanha, meu estúdio funciona como uma sala de estar. Pode ser um estúdio menos espaçoso e confortável do que aquele que eu tinha na Síria, mas como agora sou capaz de experimentar uma sensação de segurança, privacidade e liberdade na minha arte, não posso pensar em alternativa melhor neste momento.

CH – Você ouve música em seu estúdio? Você trabalha melhor com alguma música tocando ou necessita de silêncio completo quando está em seu ápice criativo?

LA – Eu sempre ouço música enquanto trabalho. A música deixa minha mente livre de distrações e torna meu fluxo de trabalho muito mais suave. Acredito que a música se torna parte da minha obra de arte; isso me ajuda a expressar minhas emoções e traduzir meus sentimentos em linhas e cores mais fáceis. Pessoalmente, eu realmente prefiro música oriental.

CH – Quais são suas práticas artísticas e seu processo de trabalho? Você planeja?

LA – Basicamente eu sempre planejo e desenhe esboços pequenos em fases anteriores, mas assim que eu começo com o processo de pintura, eu acedo para um mundo novo. Eu esqueço tudo sobre meus esboços e meu planejamento e eu crio um tipo completamente diferente de arte.

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CH – Sobre o que é a sua arte?

LA – Para mim, [a] arte é toda sobre emoções e é uma forma de nutrição da consciência e do espírito. Em cada pintura está toda uma vida presa, toda uma vida de medos, dúvidas, esperanças e alegrias. Assim, especialmente agora, durante a guerra furiosa, traduzir esses diferentes níveis emocionais e espirituais em seu trabalho é a vocação de um artista, e harmonizar o todo é tarefa de arte.

Eu gostaria de ser capaz de testemunhar no meu trabalho o que os diferentes seres humanos são obrigados a percorrer durante tempos de guerra. Estou feliz por minha arte tocar pessoas, como eu tento expressar tristeza humana sobre os rostos que eu pinto.

CH – Ser artista é um trabalho difícil. Você tem algumas dúvidas e grandes lutas/esforços?

LA – Nenhum artista nunca está completamente satisfeito com seu trabalho. [A] auto-dúvida é um pouco uma necessidade para um artista dar o melhor de seu talento e desenvolver suas habilidades. Meu trabalho nunca é tão bom como eu imaginei que seria. Eu sempre vou gostar de algumas obras mais do que outras, mas acho que evitar a auto-dúvida e luta é apenas uma miragem que iria me impedir de seguir em frente.

CH – Você alguma vez se arrependeu de ter se tornado artista? De onde sua energia vem?

LA – Eu nunca lamentarei ser um artista! A arte é vida para mim. Eu nem consigo me imaginar sem pinturas e cores ao meu redor. A energia criativa está aqui em mim constantemente, mas o entusiasmo e o grau de energia dependem de toda uma gama de influências internas e externas, como por exemplo, as minhas condições psicológicas e, por vezes, o tempo.

CH – O que te inspira?

LA – Os seres humanos e a sociedade são a minha inspiração. Qualquer emoção humana ou situações de vida pode ser uma fonte para a minha arte.

CH – Quanta satisfação você recebe em resposta ao seu trabalho?

LA – Eu me sinto satisfeita o suficiente com o meu trabalho, mas ainda desejo manter o foco e continuar progredindo.

A satisfação é uma recompensa, mas a perfeição é uma ilusão. Eu penso em cada obra que eu crio como um degrau em uma jornada muito mais longa. Eu nunca vou chegar ao próximo estágio de desenvolvimento como um artista, a menos que eu esteja disposta a deixar uma obra de arte de lado e passar para a próxima.

Em algum momento, eu tenho que deixá-la ir e seguir em frente. Eu tenho que aceitar o fato de que mesmo os maiores autores, compositores, músicos e artistas ainda estavam insatisfeitos com suas obras-primas de alguma forma.

CH – O conflito na Síria, que está acontecendo há alguns anos, teve um impacto sobre o elemento central da sua arte? O que mudou?

LA – Obviamente. Antes de ser uma artista, eu sou um ser humano. A maioria das minhas obras de arte foram criadas no meio da guerra. Se a minha arte está cheia de profunda tristeza, é porque expressa o sofrimento do meu povo.

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CH – Se você está vivendo fora da Síria, o lugar em que você está vivendo mudou sua arte?

LA – Atualmente, eu vivo na Alemanha. Obviamente, o ambiente e a sociedade, em que vivo agora, desempenham um papel importante no meu humor artístico.

Posso ver uma clara diferença no meu trabalho. Minhas pinturas na Síria tinham as marcas dos valores e tradições da família, já que na sociedade oriental a família é uma entidade muito predominante. Na Síria, estávamos acostumados a estar rodeados por muitas pessoas, o que às vezes era até mesmo difícil de lidar, e nos dava poucas chances de nos sentirmos independentes.

Enquanto na Alemanha há uma espécie de individualismo básico e independência que me inspirou na minha arte. Meu último trabalho é intitulado “Ícones Sírios”, mas paradoxalmente é inspirado pela independência dos europeus e seu modo de vida individual.

CH – Quais são as suas esperanças e sonhos para si mesmo como artista e, especialmente, como uma artista síria?

LA – Minha esperança como ser humano é que a guerra chegue ao fim e as pessoas deixem de sofrer. Meu desejo como artista é ver minha arte alcançar o coração das pessoas em toda parte e ser reconhecida internacionalmente.

Meu sonho como síria é que a sociedade árabe entenda e aprecie a importância da arte em nosso mundo, que reconheça seu verdadeiro valor e comece a introduzir a educação artística como parte integrante do sistema educacional escolar.


Este artigo faz parte da Série Mulheres Árabes, publicações diárias durante o mês de março, com o intuito de contribuir com a visibilidade das diferentes narrativas protagonizadas por mulheres árabes. O projeto é de autoria de Camila Ayouch, colunista do Regra dos Terços e estudante de Letras Português-Árabe na Universidade de São Paulo (USP).

Série Mulheres Árabes | # 29 Lina Shadid

* Este artigo é uma tradução livre da publicação feita no Creative Havens: Syrian Artists and Their Studios. Para acessar a publicação original, em inglês, clique aqui.

Lina Shadid é uma pintora impressionista síria. Fascinada pela natureza e luz, a artista tenta capturar um senso de humor etéreo e espiritual em suas pinturas. Atualmente, ela vive em Nova York, EUA.

Creative Havens – Qual é a sua relação com o seu estúdio? O que ele representa para você? Como você se sente quando está lá?

Lina Shadid – Minha relação com meu estúdio é possivelmente a mais bela que já experimentei. Eu trabalho lá diariamente de dia ou de noite, com entusiasmo e com toda a minha alma. A sensação de escapar do mundo mundano [sic] onde estou livre de todas as minhas dores é indescritível. Com o início de cada nova história, deixo-me surpreender por onde me levará a jornada da criação, sem saber realmente em que direção tomará.

CH – O layout, a organização e a localização do seu estúdio têm influência na criação das suas obras? Que papel esse espaço, tempo e solidão têm em seu trabalho?

LS – Enquanto trabalho no meu estúdio, meu humor varia entre ordem e desordem. Desordem é geralmente a atmosfera necessária para criar obras de arte originais, mas às vezes eu preciso organizar meu espaço, a fim de monitorar melhor os resultados. A coisa mais linda para mim é que meu estúdio é também o lugar onde eu moro. Assim que eu sinto o desejo de criar, desço para o porão da minha casa e começo a trabalhar. As coisas transbordam. Esta liberdade de criar é essencial para mim e, obviamente, a solidão é necessária desde o início até o fim. Algumas noites eu acabo ficando até o amanhecer sem obstáculos ao meu desejo de criação. Eu mesmo não sinto os efeitos do tempo passando.

CH – Você ouve música enquanto está trabalhando?

LS – Eu nunca posso começar a pintar sem ouvir a minha música favorita: música clássica em geral e, particularmente, Chopin e Tchaikovsky. Vibrar com a música leva minha mente para o reino da criação artística e eu, por sua vez, deixo meu pincel dançar através da tela. Às vezes eu escuto Oum Khalthoum, Abdel Halim Hafez ou Najat. Apesar de sua beleza, essas melodias árabes despertam tristeza em mim.

CH – Quais são suas práticas artísticas e seu processo de trabalho? Você planeja?

LS – É muito raro que eu esteja planejando uma pintura. Normalmente, eu simplesmente começo a pintar sem saber aonde vou chegar.

CH – Sobre o que é a sua arte?

LS – Minha arte é sobre a beleza da natureza e da luz, sob a forma de uma mulher ou uma mãe que espontaneamente e perpetuamente dá o seu amor. Gosto de humanizar a natureza e sua beleza que nem sempre somos capazes de ver. Em minhas pinturas estou tentando dizer palavras de amor e deixar a natureza contar sua própria história.

CH – Ser artista é um trabalho difícil. Você tem algumas dúvidas e grandes lutas/esforços?

LS – Isso era verdade no passado. Hoje eu sou capaz de superar essas lutas e dúvidas e continuar trabalhando. O único desejo que tenho é criar mais e mais.

CH – Você alguma vez se arrependeu de ter se tornado artista? De onde sua energia vem?

LS – Eu me sinto muito feliz com o que estou fazendo hoje em dia, embora nunca tenha planejado me tornar uma artista profissional no sentido materialista. Quando me sinto triste, minha atividade artística aumenta e eu vou mais rápido para terminar uma pintura. É como se eu estivesse acelerando a liberação das emoções.

Cada vez que eu vejo uma foto do meu pai ouço o sussurro vindo de longe: “Eu lhe disse uma vez que você se tornaria uma artista, certo?” Meu pai é a razão de por que estou criando, sua crença em mim e seu encorajamento são a minha principal motivação e, em seguida, vem o meu amor à natureza e à luz, que eu estou feliz em traduzir em minhas obras de arte. Minha maior felicidade vem das pessoas que amam meu trabalho e querem tê-lo.

A palavra “artista” tem sido o meu sonho desde a minha infância, e agora estou me perguntando: Eu sou uma artista? Eu sei que eu tenho que me tornar mais e mais (também para provar para mim mais e mais).

CH – Quanta satisfação você recebe em resposta ao seu trabalho?

LS – Eu estou constantemente me esforçando para fazer melhor, mas a minha satisfação sobre o meu trabalho está se tornando mais profunda dia após dia.

CH – O conflito na Síria, que está acontecendo há alguns anos, teve um impacto sobre o elemento central da sua arte? O que mudou?

LS – A Síria é a maior dor e a mais profunda tristeza do meu coração. Na arte, há uma grande diferença de percepção entre as culturas. Os artistas são mais valorizados na cultura ocidental, e desde que cheguei aos EUA eu poderia ir mais longe com meu trabalho e ver mais valor na minha criação.

CH – Se você está vivendo fora da Síria, o lugar em que você está vivendo mudou sua arte?

LS – Apesar da distância da minha pátria, minha presença aqui na América, onde eu estou vivendo, aumentou minha fé em minha arte.

CH – O que te inspira?

LS – Natureza, luz e amor me inspiram.

CH – Quais são as suas esperanças e sonhos para si mesmo como artista e, especialmente, como uma artista síria?

LS – Espero ter exposições em todos os Estados Unidos e em muitos outros países, e eu sonho em ter minha própria galeria onde eu possa mostrar a criatividade de artistas sírios e outros artistas de todo o mundo. Enquanto isso, o meu maior sonho é ver a paz voltando ao meu adorado país Síria.


Este artigo faz parte da Série Mulheres Árabes, publicações diárias durante o mês de março, com o intuito de contribuir com a visibilidade das diferentes narrativas protagonizadas por mulheres árabes. O projeto é de autoria de Camila Ayouch, colunista do Regra dos Terços e estudante de Letras Português-Árabe na Universidade de São Paulo (USP).

Série Mulheres Árabes | # 24 Noor Bahjat

Noor Bahjat.

* Este artigo é uma tradução livre da publicação feita pelo Creative Havens: Syrian Artists and Their Studios. Para acessar a publicação original, em inglês, clique aqui.

Noor Bahjat Almassri, graduou-se no topo de sua turma da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Damasco. Primeira artista jovem em residência na Galeria Ayyam. Nascida na capital da Síria, vive e trabalha em Dubai, Emirados Árabes Unidos.

Creative Havens – Qual é a sua relação com o seu estúdio? O que ele representa para você? Como você se sente quando está lá?

Noor Bahjat – O estúdio é o lugar onde eu posso me isolar e tomar distância de tudo, exceto de mim. É um espaço no qual posso confessar muitos dos meus sentimentos e me libertar da turbulência emocional – e também onde meu coração pode desejar algo mais profundo do que minhas experiências diárias.

Trabalhar no meu estúdio é uma maneira de expressar os impactos do que está acontecendo ao meu redor e do que me afeta – e dentro desse microcosmo para transcrever minha experiência de vida em uma perspectiva única, em linhas e cores.

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CH – O layout, a organização e a localização do seu estúdio têm influência na criação das suas obras? Que papel esse espaço, tempo e solidão têm em seu trabalho?

NB – Para ser honesta, eu não sou muito organizada, e às vezes eu quase me perco no estúdio. Mas quando a desordem se torna demasiadamente esmagadora, eu trago a ordem e, de tempos em tempos, até encontro algumas obras antigas ou ferramentas que eu tinha perdido, e então é como uma chance de começar de novo, de fortalecer e reestruturar minhas idéias para algumas obras de arte futuras.

As ideias e a maneira de ver a vida mudam à medida que o tempo passa, mas mudar de lugar de trabalho, por exemplo, obviamente tem uma grande influência tanto nas ideias como na qualidade do trabalho. Quando o estúdio de um artista é transferido para outro local, a atmosfera e as instalações mudam, e assim também, direta ou indiretamente, o processo artístico e produtividade, bem como os resultados.

CH – Você ouve música em seu estúdio? Você trabalha melhor com alguma música tocando ou necessita de silêncio completo quando está em seu ápice criativo?

NB – A música é essencial para mim. Eu sempre ouço música enquanto trabalho. A música é importante para a minha rotina diária e fluxo, porque me ajuda a ritmar meu trabalho e me manter focada. O que aconteceu ao longo do tempo é que, com a música certa, posso literalmente transportar-me para um lugar de alta emotividade e criatividade toda vez – tudo o que preciso é a música para me levar a esse lugar literal no centro das minhas pinturas e as coisas começam a disparar em criação.

A música move minha alma e está enraizada no princípio do trabalho e do prazer – quando os dois são combinados crio algo totalmente diferente. A música permite que essa dinâmica ocorra e é por isso que a uso, com abandono, no meu ciclo de trabalho e criatividade. O único momento em que há silêncio em meu estúdio é quando a música pára de tocar e eu não prestei atenção, porque voltada para dentro e concentrada em meu trabalho.

CH – Quais são suas práticas artísticas e seu processo de trabalho? Você planeja?

NB – O processo é bastante simples: coloco a tela diante de mim e a deixo me transportar para dentro dela, me entrego a ela e aguardo até que me leve aonde quiser. Geralmente, começo desenhando alguns retratos, e depois retiro algumas figuras e acrescento outras. Continuo assim até chegar a um estágio onde a pintura se comunica o suficiente comigo e expressa meus sentimentos. Eu tento ficar satisfeita no final olhando para as obras de arte como um espectador faria em uma exposição, um espectador que pára e olha profundamente em uma pintura expressiva.

CH – Sobre o que é a sua arte?

NB – Minha arte expressa o que ocupa minha mente e alimenta minha alma – como qualquer outro artista que tenta expressar suas emoções através de uma mídia que ele ama.

Cada pessoa tem sua própria maneira subjetiva de se aproximar e apreciar uma obra de arte ou uma pintura, e essa é a coisa mágica sobre a arte: enquanto o processo criativo pertence ao artista, emoções e reações pertencem ao espectador.

Nunca dou um título às minhas pinturas, pois não quero limitar outras ou colocar limites – a minha arte pretende dar espaço à imaginação e emoções livres dependendo da experiência de vida de cada um. Além disso, acho difícil e restritivo dar nomes a emoções, sonhos e experiências que posso expressar através de minhas pinturas.

CH – O que te inspira?

NB – Qualquer coisa bonita nesta vida que possa iluminar a inspiração em mim, qualquer coisa de substância, e qualquer coisa que provoque a reflexão: uma visão, uma foto ou mesmo uma conversa …

CH – Quanta satisfação você recebe em resposta ao seu trabalho?

NB – A satisfação é uma questão muito relativa; ela muda de acordo com o trabalho e o período de tempo. Há muitas das minhas pinturas que eu realmente amo e que me dão uma sensação de plena satisfação, enquanto isso há algumas outras para as quais ainda tenho algumas dúvidas.

Naturalmente, enquanto uma obra de arte recente explica mais sobre o meu “eu” atual, uma vez que contém a minha marca presente e um pedaço da minha vida no fundo, algumas das minhas obras mais antigas parecem ser menos satisfatório para mim hoje em dia. Isso pode provar a minha evolução pessoal e artística. No final cada obra recebe uma personalidade distinta e enfatiza a expressão artística humana dentro de um período específico de tempo e experiência de vida.

CH – Se você está vivendo fora da Síria, o lugar em que você está vivendo mudou sua arte?

NB – Obviamente, o lugar onde um artista vive tem uma grande influência no seu trabalho e em múltiplos níveis: a atmosfera, o ambiente, as pessoas e a vida cotidiana – todos estes fatores contribuem para a evolução da personalidade de um artista e o processo criativo.

Minha presença em Dubai mudou minha maneira de ver a arte em geral e mais especificamente o meu próprio trabalho. Tive a oportunidade de encontrar muitos grandes artistas sírios e internacionais, e isso participou sem dúvida da minha evolução como jovem artista. Intrinsecamente, cada sociedade pode ser capaz de construir algumas fronteiras e muros, e libertar-se de outras sociedades, mas o caráter cultural específico de cada país influencia a experiência pessoal do artista e, portanto, seu impulso artístico.

CH – Quais são as suas esperanças e sonhos para si mesmo como artista e, especialmente, como uma artista síria?

NB – Meu sonho é ser capaz de expressar minhas ideias e meus sentimentos de forma acadêmica e artística, tornando mais fácil tocar os outros e liberar emoções vibrantes.

Como uma artista síria, meu sonho é que o resto do mundo abra seus olhos e considere o povo sírio de uma maneira diferente – não como um povo sofrendo e disperso pela guerra, mas que veja os sírios como eles realmente são: educados e criativos, capazes de ser bem sucedidos em todos os campos e em qualquer lugar.


Este artigo faz parte da Série Mulheres Árabes, publicações diárias durante o mês de março, com o intuito de contribuir com a visibilidade das diferentes narrativas protagonizadas por mulheres árabes. O projeto é de autoria de Camila Ayouch, colunista do Regra dos Terços e estudante de Letras Português-Árabe na Universidade de São Paulo (USP).

Série Mulheres Árabes | # 14 Samia Halaby

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* Este artigo é uma tradução livre da publicação feita pela Ayyam Gallery. Para acessar a publicação original, em inglês, clique aqui.

Nascida em Jerusalém em 1936, Samia Halaby é uma importante pintora abstrata e uma estudiosa influente da arte palestina. Embora baseada nos Estados Unidos desde 1951, Halaby é reconhecida como uma pioneira da abstração contemporânea no mundo árabe.

Halaby começou sua carreira no início dos anos 1960, pouco depois de se formar pela Universidade de Indiana com um Master of Fine Arts em Pintura.

Enquanto ensinava no Instituto de Arte de Kansas City em 1964, viajou para o Mediterrâneo Oriental como parte de um subsídio de pesquisa de faculdade e estudou a abstração geométrica da arquitetura islâmica da região, que tem continuamente fatorado em seu trabalho.

Durante este tempo, Halaby lançou em uma série de experimentos que iniciaria sua longa investigação dos princípios materialistas da abstração: como a realidade pode ser representada através da forma.

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Também influenciada pelos movimentos abstratos da vanguarda russa, Halaby trabalha com a convicção de que as novas abordagens da pintura podem redirecionar maneiras de ver e pensar não apenas no âmbito da estética, mas também como contribuições para o avanço tecnológico e social. Esta noção subjacente levou a experiências adicionais em desenho, gravura, arte cinética computadorizada e “pintura sem molde”.

As obras de Halaby têm sido colecionadas por instituições internacionais desde a década de 1970, incluindo o Museu de Arte Solomon R. Guggenheim (Nova York e Abu Dhabi); Galeria de Arte da Yale University; Galeria Nacional de Arte, Washington D.C.; Instituto de Arte de Chicago; Museu de Arte de Cleveland; Institut du Monde Arabe; e o Museu Britânico.

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Samia Halaby: “Angels and Butterflies”, 200 x 200 cm, acrílico sobre tela.

As mostras individuais da artista incluem Beirut Exhibition Center (2015); Ayyam Gallery London (2015, 2013); Ayyam Gallery Al Quoz, Dubai (2014); Ayyam Gallery DIFC, Dubai (2011); e Ayyam Gallery Beirut (2010). Ela participou recentemente de exibições coletivas em Darat Al Funun, Amman (2015); National Academy of Arts, New York (2015); The Guggenheim Museum, Abu Dhabi (2014); Broadway 1602, New York (2014); e Institut du Monde Arabe, Paris (2009).

Em 2014, a Booth-Clibborn Editions publicou a segunda monografia da artista, Samia Halaby: Five Decades of Painting and Innovation (Samia Halaby: Cinco décadas de pintura e inovação).

Desde a década de 1960 até o final dos anos 1980, Halaby lecionou em universidades em todo os Estados Unidos. Ela foi a primeira professora associada em tempo integral na Yale School of Art, cargo que ocupou por uma década. Suas contribuições notáveis para academia americana incluem um programa inovador de estúdio de arte na graduação, que ela introduziu aos departamentos de arte em todo o centro-oeste.

Os escritos de Halaby sobre arte apareceram em Leonardo: Journal of Arts, Sciences and Technology; Jerusalem Quarterly e Arab Studies Quarterly, além de volumes editados, enquanto ela publicava de maneira independente a pesquisa Liberation Art of Palestine: Palestinian Paintings and Sculpture in the Second Half of the 20th Century (Arte de Libertação da Palestina: Pinturas e Escultura Palestinas na Segunda Metade do século XX), considerado um texto seminal da história da arte palestina. Seu livro mais recente, Drawing the Kafr Qasem Massacre, será publicado pela Schilt Publishing.


Este artigo faz parte da Série Mulheres Árabes, publicações diárias durante o mês de março, com o intuito de contribuir com a visibilidade das diferentes narrativas protagonizadas por mulheres árabes. O projeto é de autoria de Camila Ayouch, colunista do Regra dos Terços e estudante de Letras Português-Árabe na Universidade de São Paulo (USP).

Série Mulheres Árabes | # 10 Sara Shamma

Sara Shamma.

Nascida na Síria em 1975, Sara Shamma começou a pintar aos quatro anos de idade. Filha de pai sírio e mãe libanesa, cresceu em uma família de intelectuais, que incentivou seu amor pela pintura.

De 1982 a 1985, Shamma frequentou cursos de desenho para crianças em Adham Ismaiil Fine Arts Institute. Aos 14 anos, ela decidiu que seria pintora. Formou-se em 1998 no Departamento de Pintura da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Damasco.

Após sua graduação, Shamma participou de uma série de exposições individuais e coletivas.

Shamma foi convidada a se juntar à equipe de professores do Adham Ismail Fine Arts Institute em Damasco, onde lecionou por três anos a partir de 1998.

Além de sua própria prática e seu envolvimento na educação de jovens artistas, Shamma tem sido consistentemente ativa na cena de arte síria.

Ela foi membro do júri da Exposição Anual de Artistas Sírios realizada pelo Ministério da Cultura em Damasco, Síria, em 2006.

Shamma recebeu vários prêmios regionais e internacionais de arte, incluindo a medalha de ouro na bienal de Latakia (2001, Síria) e o 4º prêmio no BP Portrait Award (2006, Reino Unido).

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Os trabalhos de Shamma podem ser encontrados em coleções públicas e privadas em diferentes países, incluindo: Áustria, Canadá, Equador, Egito, França, Alemanha, Japão, Jordânia, Kuwait, Líbano, Holanda, Catar, Espanha, Síria, Tunísia, Turquia, Emirados Árabes, Reino Unido e Estados Unidos da América.

Em 2010, Shamma foi convidada a se tornar a “celebridade parceira” no Programa Mundial de Alimentação da ONU. Ela criou uma pintura para eles intitulada Fighting Hunger. Impressionada e toca pelo trabalho da organização, ela continuou a apoiá-los.

Em setembro de 2016, ela se mudou para Londres, onde agora vive e trabalha.


Este artigo faz parte da Série Mulheres Árabes, publicações diárias durante o mês de março, com o intuito de contribuir com a visibilidade das diferentes narrativas protagonizadas por mulheres árabes. O projeto é de autoria de Camila Ayouch, colunista do Regra dos Terços e estudante de Letras Português-Árabe na Universidade de São Paulo (USP).

Eu não nasci pra viver essa vida

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(foto | Erick Reis)

Eu não nasci pra viver essa vida. Muitos falam pra mim (inclusive eu mesmo) que a vida é dura, que nem sempre podemos fazer tudo o que queremos. Mas vozes falam pra mim (vindas de mim mesmo) que a vida não precisa ser vivida assim, ela pode e deve ser vivida fora do sistema.

Temos apenas duas opções, ou nos encaixamos nos moldes padrões e vivemos segundo os demônios do mundo, ou vamos na contramão disso e enfrentamos os nossos próprios demônios. Qual é mais cruel? Qual tortura mais? Qual caminho é mais penoso? Pra muitos é o próprio, pra mim, é o de muitos.

A vida segue com os seres perambulantes do planeta, a grande maioria seguindo apenas o fluxo do rio. Eles não se questionam para onde estão indo, apenas vão porque todos estão naquele caminho. Li em um livro de um cronista curitibano que “nós passaremos em branco”, é Luís Henrique Pellanda, você tem toda razão, passaremos. Podemos fazer o que quisermos, mas ao fim de tudo, ao nos depararmos com a cruel realidade do abismo dos famosos sete palmos abaixo da terra (se bem que hoje, talvez na tentativa de fugir desse destino, muitos tem optado por sepultar seus mortos em gavetas verticais) tudo o que tivermos construído se esfarelará, assim como nossa massa corpórea. De que adianta viver uma vida mecânica? Agradando aqueles que assim como nós, desaparecerão ao passar de algumas milhares de noites? De nada meu caro, de nada adianta.

Se quer ser eterno, eternize-se na pintura, pois veja bem, até hoje falamos dos selvagens homens das cavernas. Se quer ser eterno, eternize-se na música, quase 200 anos depois, ainda falamos de Ludwig Van Beethoven. Plante uma árvore, ou milhares delas assim como fez Sebastião Salgado. Cada um tem sua maneira de eternizar-se, alguns só precisam encontrar.

Mas para mim, a grande questão da vida não é o fato de passar em branco após o falecimento, a grande questão é encontrar e rabiscar a folha central de si, para não passar em branco pra você mesmo.  Essa cruel realidade atormenta as noites de sono daqueles que a vislumbram mas ainda não conseguiram palpá-la. Esse é o mundo no qual vivemos.