O filme do Danilo Gentili, Queermuseu e a incoerência da sociedade

Nos últimos tempos algo que tem sido extremamente debatido na internet é o limite da arte. Ela tem ou não que ser podada? A arte é uma representação da realidade, isso todos precisam ter em mente. Seja essa realidade física, algo que realmente aconteça no dia a dia, ou simplesmente uma realidade imaginária, que vive apenas na mente de algumas pessoas, por tanto é real para elas.

Se quadros que denunciam a pedofilia não podem ser vetados – obviamente estou me referindo ao caso do Queermuseu -, filmes que representam a mesma denúncia também não. A menos que o filme diga claramente para o público “saia por aí e seja pedófilo”, ele não pode ser considerado uma apologia. E mesmo se ele disser isso, precisa ser levado em conta todo o contexto do enredo.

O que não consigo compreender é como a mesma pessoa que critica uma exposição de arte por conter imagens com essa denúncia consegue apoiar um filme que age igualmente. A recíproca também é verdadeira. Se você acha que quadros artísticos podem representar pedofilia, o cinema não pode ser vetado disso. É uma questão de coerência.

Recentemente o filme do Danilo Gentili “Como se tornar o pior aluno da escola” recebeu uma crítica de um jornalista da Folha, que citava exatamente uma cena de pedofilia que acontece na trama. Gentili rebateu o profissional publicando o vídeo na íntegra da entrevista. Depois de receber uma enxurrada de agressões o jornalista foi demitido do veículo.

São tempos estranhos. Tempos em que as pessoas não seguem uma linha coerente de raciocínio. Tempos em que as opiniões são pautadas em tweets. São tempos líquidos, já diria Bauman.

Vídeo do Dia | Quem defende a criança viada?

O youtuber Murilo Araújo lançou ontem no seu canal um vídeo que levantou mais uma vez os temas que tem sacudido o país: QueerMuseu e MAM. Murilo é católico e gay, o que faz com que ele tenha uma noção bem ampla do assunto abordado – no caso do QueerMuseu. A grande questão levantada gira entorno dos repudiadores das mostras de arte aqui abordadas, que alegam veementemente que estão ali defendendo as crianças. Mas, onde estão esses mesmos defensores quando a criança é vitima de preconceito na escola? Veja o vídeo.

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#342Artes – Somos contra a censura

Artistas da Globo fizeram manifestações contra a censura artística

O presidente está desviando de denúncias de corrupção e ninguém fala nada. Senadores e deputados idem, e o povo se cala. Mas quando uma exposição de arte atenta contra o que eles chamam de “moral e bons costumes”, aí o povo se revolta. Teve manifestação e censura transvestida de boicote. Agora vereadores de Uruguaiana-RS querem dizer que tipo de livro pode ou não estar na Biblioteca Pública da cidade. Sabe onde mais aconteceu isso? Na Alemanha Nazista (além do Brasil na era da Ditadura Militar, claro).

Como a ignorância é a raiz de todos os males – e pra mim os atacadores de exposições são boa parcela dos males – vou contar de maneira bem reduzida, simplista e fácil de entender. Um dia Hitler chegou ao poder, correto? Ele chegou lá graças a uma propaganda muito bem articulada que o colocava como o salvador da nação. Aquele que iria trazer a Alemanha de volta. O cara que iria colocar o país desgovernado nos eixos. E chegou lá com discurso contra um grupo de pessoas, os tais dos judeus. Com esse discurso fácil, ele começou a ser adorado pelo povo.

Como ele inflamou o povo contra os judeus, logo as pessoas começaram a fazer manifestações contra toda a comunidade judaica. E ele não fez nada. Começaram a quebrar vidraças de lojas judaicas. Queimaram sinagogas. E Hitler tirou os policiais das ruas para não atrapalhar o “direito a livre manifestação” dos defensores da moral e bons costumes alemão. Livros com conteúdo “inadequado para o povo da Alemanha” foram queimados em praça pública. Você sabe como termina essa história, né? Com o massacre de mais de seis milhões de judeus.

Você acha que as pessoas que foram para as ruas quebrar lojas judaicas tinham noção de qual fim isso teria? Certamente não. Elas estavam cegas, fumegando em ódio. Elas não podiam enxergar o real mal de suas manifestações. Elas não viam o que estavam fazendo. Não percebiam que estavam sendo manipuladas. Achavam que defendiam os seus pensamentos, mas na verdade estavam defendendo os pensamentos do seu líder, que com isso fazia com que o povo o amasse, afinal, era ele quem tinha feito com que elas enxergassem o “real perigo” que os judeus apresentavam.

Hoje temos candidato sendo carregado pelo povo, e tido como o herói que vai salvar a nação – e isso na direita e na esquerda. Temos exposições sendo fechadas. Temos terreiros de umbanda sendo quebrados. O povo aceita a possibilidade de intervenção militar. Bibliotecas não podem ter todos os tipos de livro. A moral e os bons costumes estão acima de tudo. A fé só é sacra se for cristã. Ser gay é tido como ser doente. Grupos como o MBL que só aparece para inflar a população com essas pautas morais, enquanto o que defendem na verdade é uma pauta política sem clamor popular. E tudo isso enquanto temos um presidente com a aprovação igual a margem de erro das pesquisas. E as pessoas preferem atacar artistas de uma emissora, que até o ano passado era de direita, agora é comunista.

Onde vocês acham que isso vai parar?

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A ignorância é uma benção

A ignorância deveria ser mais cativada pela humanidade. Falo sério, ela é uma benção. Pensa bem, a ignorância faz você pensar que votar no Bolsonaro para presidente vai garantir que será derrubada a maioridade penal, afinal de contas, quem liga para Constituição? E um presidente tem poder para mudar tudo o que quiser, mesmo sem apoio do Congresso, né?

Imagina que louco, acordar um dia e ter a certeza de que todos os problemas de corrupção do país estão localizados em um único partido! Isso deve ser mágico. Imaginar que o MBL é um grupo apartidário que defende realmente a moral e os bons costumes da família tradicional brasileira, sem nenhuma pretensão de ascendência de poder político. Achar que eles trabalham por filantropia mesmo. Tudo uns meninos do bem, que querem salvar a nação. Mano, deve ser bom demais acordar pensando assim.

Acreditar realmente que o problema de pedofilia no país está nas obras de arte deve ser regozijador. Aí é só você compartilhar um texto furioso nas redes sociais e pronto! Não existe mais pedofilia em toda a nação verde e amarela.

Imagina você realmente pensar que com a polícia subindo o morro e matando gente pobre vai acabar o tráfico no Rio de Janeiro. Imaginar que o problema das droga é por falta de gente morta. Gente, pensar assim deve ser emocionante.

Quem vai contra o que você pensa está errado, e ponto final. Você sempre é o dono da razão. Meu pai amado, nada deve ser melhor do que pensar assim. Deveríamos muito valorizar mais a ignorância. Certamente dormimos melhor com ela, afinal, somos gado e o gado sempre caminha tranquilo para o abate.

Queermuseu – A arte serve pra que?

Recentemente foi cancelada a exposição “Queermuseu – cartografias da diferença na arte da brasileira”do Santander Cultural de Porto Alegre, após muitas manifestações de pessoas ligadas ao MBL. Segundo essas pessoas as obras ali expostas desrespeitavam símbolos religiosos e faziam apologia a pedofilia. Sendo assim eu te questiono: a arte serve pra que?