Regra Resenha | Morangos Mofados, de Caio Fernando Abreu

Morangos Mofados - capa | Créditos: Rafaela Manicka
Morangos Mofados – capa | Créditos: Rafaela Manicka

Ouso em dizer que meu primeiro contato com Caio Fernando Abreu foi através de umas frases e/ou trechos perdidos de sua obra no meu finado tumblr. Era pra isso mesmo que ele me servia, né? Compartilhar frases de dor e sofrimento sobre a vida para tentar transmitir algo às pessoas. Isso sendo bom ou ruim (mais pra ruim, eu sei), a plataforma me pôs em contato com um dos escritores que mais admiro atualmente. Não pra me pagar de pseudo-intelectual, nada disso. Afirmo essa questão apenas porque ele consegue colocar pra fora tudo aquilo que um dia eu quis colocar também. Caio afirma, lá ao final do livro, que pra escrever é preciso doer; sangrar. Não foi exatamente com essas palavras, mas foi algo mais ou menos desse tipo que foi mencionado por ele.

Desde sempre sabia que Morangos Mofados era uma de suas obras pioneiras. Porém, eu não sei bem o porquê de nunca ter realizado a sua leitura antes – talvez tenha sido a preguiça de procurar o livro ou o fato de não querer gastar (o que é irônico vindo de mim). Porém, na viagem que fiz a Porto Alegre no fim do ano passado, acabei me deparando com uma edição de bolso, exclusiva da Saraiva, num preço convidativo. E é claro que não resisti e a trouxe junto de mim. Pois bem, dois meses depois da compra, cá estou eu para resenhar a história. A história não, na verdade, Morangos Mofados contém diversos contos e, esses, são divididos em dois blocos: o mofo e os morangos.

Traduzindo o nome desses blocos para algo um pouco mais desenvolvido, pode-se dizer que Caio, em o mofo, traz os sentimentos bem à flor da pele. As personagens principais das histórias acabam se expondo tanto que, as outras, tentam não absorver absolutamente nada daquilo. O motivo eu não sei bem dizer. Porém, em um conto específico dessa parte, O dia em que Urano entrou em Escorpião, a personagem estava tão fixada num determinado assunto que, ao final da história, todas as outras também estavam. Ou seja, a loucura de uma, indiretamente ou não, passou para quem estava ao seu redor. Mas, fora esse caso isolado, os contos dessa primeira parte trazem o que eu gosto de chamar de cutucões nas feridas abertas.

– Você ligou o rádio?
– Ainda não. Como é mesmo o nome dessa música?
– “Por um desespero agradável” – ele mentiu outra vez, depois corrigiu: – Não. É só “Desespero agradável”.
– Agradável?
– É, agradável. Por que não?
– Engraçado. Desespero nunca é agradável.
(Pela passagem de uma grande dor, pág. 36-44)

Já na parte os morangos, há um naco de esperança que passeia entre os contos. Naco, esse, que talvez sirva para amenizar todo o caos imposto na parte anterior. As personagens já se permitem um pouco mais. Ainda se doem, é verdade, mas a permissão para algo maior é evidente conforme a leitura vai sendo realizada. E talvez seja por isso que eu gosto tanto da escrita desse gaúcho, pois a vida nada mais é do que um compilado de altos e baixos. A vida é um conjunto de acontecimentos que nem sempre são bons, mas também nem sempre são ruins. E a esperança, afinal, existe, quer você queira enxergá-la, quer você não.

– Mas não seria natural.
– Natural é as pessoas se encontrarem e se perderem.
– Natural é encontrar. Natural é perder.
– Linhas paralelas se encontram no infinito.
– O infinito não acaba. O infinito é nunca.
– Ou sempre.
(O dia que Júpiter encontrou Saturno (Nova história colorida), pág. 131-138)

Novamente (como na resenha anterior que fiz aqui no site), em uma escala de 5 estrelas, Morangos Mofados conseguiu todas as 5 para si.

Sobre o autor:

Caio Fernando Abreu - divulgação
Caio Fernando Abreu – divulgação

Caio Fernando Abreu nasceu em Santiago do Boqueirão, no Rio Grande do Sul, em 12 de setembro de 1948. Estudou letras e artes cênicas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mas abandonou ambos os cursos. Escreveu romances, contos e peças teatrais, e recebeu vários prêmios literários. Entre suas obras destacam-se O ovo apunhalado (1975), Morangos mofados (1982), Triângulo das águas (1983), Os dragões não conhecem o paraíso (1988) e Onde andará Dulce Veiga? (1990). Caio faleceu em Porto Alegre, em 25 de fevereiro de 1996.

Regra Indica | Philomena

Philomena (Stephen Frears, 2013)
Philomena (Stephen Frears, 2013)

Philomena é um filme que, por mais que comece com uma cena do repórter Martin Sixsmith, conta a história de Philomena Lee, uma irlandesa que, lá na nos anos 50, engravidou fora do casamento. Por conta desse ato pecador, foi deserdada pela família e obrigada a permanecer em um lar de freiras desde então.

Lá, deu a luz à criança e permaneceu por anos trabalhando no local para poder “bancar” as despesas que dava às irmãs. Philomena – e as demais moças que possuíam filhos no local – só podia passar uma hora diária com a sua criança, Anthony, o que já mostra o tamanho da dor de uma mãe ao se separar do próprio filho. Porém, imagine essa separação de forma permanente, como aconteceu com Phil. Sim, as freiras colocaram para adoção cada uma das crianças e com Anthony não foi diferente.

Durante incansáveis 50 anos, a protagonista da história permaneceu procurando sobre o paradeiro de seu menino. E foi no meio dessa busca que entra a participação de Martin, ex-repórter da BBC demitido injustamente por algo que não foi dito por ele. No meio de vários burburinhos sobre a sua conduta profissional, um naco de esperança foi lhe dado após uma conversa ocasional que teve com a filha de Phil. Ela explica rapidamente sobre o que se passava com a mãe e perguntou se ele não podia ajudar. Após uma resposta negativa e o fato de estar desempregado, pensou melhor e decidiu ajudar aquela senhora.

O filme é baseado em fatos reais e possui um ritmo muito gostoso, com lágrimas e risadas que fluem de maneira muito natural. A angústia de Phil não só passa para Martin, mas também para nós, meros espectadores. A história é muito comovente e possui um rumo jamais imaginado lá no início dela. Além disso, recebeu vários prêmios, como o de melhor roteiro pelo Prêmio BAFTA de Cinema e também pelo Festival de Veneza.

Assista abaixo ao trailer e procure o filme o quanto antes para assistir (dica: tem no Netflix):

Por que o filme “Coraline e o Mundo Secreto” assusta as crianças?

Com direção de Henry Selick, Coraline e o Mundo Secreto, teve sua estreia no cinema em 2009. De autoria do consagrado Neil Gaiman, o filme tem como base o mundo infantil, porém, os relatos de que muitas crianças não tiveram uma boa experiência com a trama é frequente.

Mães apavoradas e filhos assustados, assim pode ser a descrição das pessoas saindo do cinema após assistir o filme. Mas por que Coraline e o Mundo Secreto assusta as crianças? Bem, existem muitas teorias! Uma delas até liga a história à feitiçaria, como relata o portal de notícias – um tanto extremista – americano The Vigilant Citizen.

Encontrar a resposta para essa pergunta não é assim tão difícil, nem tão mágica quanto aparenta ser. Coraline em um momento do filme se vê perdida e sem seus pais, no lugar de sua mãe existe uma outra mãe que é a grande vilã da trama. Está aí um ponto crucial. Os pais são a base que dá confiança à uma criança, mexer com isso e colocar pitadas de horror deixará qualquer baixinho com medo – até mesmo adultos, na verdade – .

Não é de hoje que essa temática é usada, Alice no País das Maravilhas e até mesmo O Mágico de Oz já tiraram o sono de muita gente por aí. De qualquer forma, devemos respeitar a licença poética de Neil Gaiman e esperar para ver Coraline 2 nos cinemas.

Regra Resenha | Índice Médio de Felicidade, de David Machado

Índice Médio de Felicidade - capa | Créditos: Rafaela Manicka
Índice Médio de Felicidade – capa | Créditos: Rafaela Manicka

Começo este texto dizendo que, se eu não tivesse ido a um bate-papo na Escola de Escrita com o autor deste livro, talvez eu nunca conheceria esta primorosa obra. Talvez o termo talvez seja muito pesado, mas acredito que seja por aí mesmo. Inclusive, a história do livro é tão maravilhosa e aconchegante que, antes mesmo de lê-la, eu já havia feito um texto aqui pro Regra sobre o seu assunto principal. Sem mais delongas, estou falando de Índice Médio de Felicidade, obra mais recente do português David Machado, publicado aqui no Brasil pela Editora Dublinense.

Antes de explicar resumidamente a história, gostaria de enfatizar o quão gostosa é a leitura da obra. De início, um pouco confusa pelo fato da editora ter escolhido deixar os termos portugueses no meio do texto, confesso. Porém, conforme a história vai se desdobrando, você nem percebe mais que está lendo gajo ou puto ao invés de garoto. E isso é um dos tantos pontos interessantes que a obra traz, pois é explícito, ali, que o português de Portugal é bem diferente do português do Brasil – mas isso a gente meio que já sabia, certo?

Índice Médio de Felicidade conta a história de Daniel, um homem na faixa de seus 30 anos, casado, pai de dois filhos e desempregado. Por conta da forte crise econômica que assola o seu país, Daniel se vê em uma realidade que jamais tinha imaginado – ou, melhor, planejado, já que, em certo momento, descobrimos que ele possui um Plano para toda a sua vida (sim, com P maiúsculo mesmo, já que o Plano é um cadernão onde ele escreve basicamente como toda a sua vida deve ser). Mesmo diante da situação em que se encontra (a mulher com os filhos do outro lado do país, um amigo, Xavier, enclausurado dentro de casa há mais de 12 anos e o outro, Almodôvar, preso há vários meses por conta de um assalto que a crise o fez cometer), ele permanece otimista sobre a vida. Inclusive, antes dessa onda de azar o assolar, ele, junto dos dois amigos, cria um site onde o principal objetivo é fazer com que as pessoas tenham uma plataforma a fim de se ajudarem.

– Lá fora, as pessoas ainda são como antes?
– As pessoas são sempre as pessoas, respondi-lhe.
– Ainda há pessoas que precisam de ajuda?
– Toda a gente precisa de ajuda.
– Porque é que não pedem?
– Não sei. Se calhar, não conhecem o site.

Um ponto bacana para enfatizar aqui é o fato dos personagens serem muito parecidos com as pessoas da vida real. Exemplo clássico é quando nos questionamos sobre como será o futuro de nossas crianças diante de tal situação aterrorizante que estamos vivendo. Para isso, exemplifico rapidamente com as três existentes no livro:

  1. Vasco: filho de Almodôvar que, sem o pai, se vê perdido na imensidão que é a vida e acaba tendo contato com pessoas erradas e indo para um caminho totalmente contrário do que dizem ser o correto.
  2. Flor: filha de Daniel, se refugia da realidade em meio às palavras, sejam elas em jornais ou livros de ficção.
  3. Mateus: também filho de Daniel e, como sua irmã, se refugia da realidade em jogos eletrônicos, ao invés de palavras.

O livro todo é baseado, praticamente, no tal do índice médio de felicidade, que de fato existe e é usado para classificar os países conforme a média de felicidade de seus habitantes. Quem nos apresenta isso é o Xavier e, desde o momento em que o termo aparece, a história toda se volta a ele. De início, os índices dos personagens eram meio pessimistas – segundo a visão de Daniel, o otimista (e talvez o único) -, mas, conforme a leitura, esse índice se eleva a partir de um plot sensacional que o autor nos presenteia já no fim da história.

Índice Médio de Felicidade é, como eu disse lá no início, uma obra primorosa e que deve o seu devido reconhecimento. Primeiro porque retrata a realidade humana de uma maneira natural e sincera e, segundo, porque ela nos traz diversos ensinamentos sobre como a vida deve ser encarada – até mesmo diante dos momentos difíceis e que parecem não ter fim.

Eu pensei: somos invencíveis. Desde que continuemos a acreditar, somos invencíveis e coisas incríveis podem acontecer. E de repente senti electricidade no meu sangue e a cabeça cheia de palavras, todas as palavras. O silêncio daquele dia sumiu-se na torrente de pensamentos. Era tão absurdo, Almodôvar, por causa de um momento tão fortuito havia tanta força no meu corpo.

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Índice Médio de Felicidade – página 316 | Créditos: Rafaela Manicka

Em uma escala de 5 estrelas, David Machado conseguiu facilmente as 5 com essa história. Recomendo – e muito – a leitura! 🙂

Sobre o autor:

David Machado - divulgação | Créditos: Mar Babo
David Machado – divulgação | Créditos: Mar Babo

David Machado nasceu em Lisboa, em 1978. Publicou os romances O fabuloso teatro do gigante, Deixem falar as pedras e Índice Médio de felicidade (Prémio da União Europeia para a Literatura, Prémio Salerno Libro d’Europa), que, em breve, será adaptado ao cinema. Publicou, além disso, vários contos para crianças. Os seus livros estão publicados em mais de uma dezena de línguas.

Crítica | Abusado de Caco Barcellos

A obra “Abusado” foi escrita por Caco Barcellos durante quatro anos. Lançado em 2003 o livro reportagem retrata o mundo do crime através da história do traficante carioca Marcinho VP, codinome dado para Juliano VP. Caco passeia por toda a história do morro da Dona Marta, desde sua fundação até o momento atual. De maneira livre ele passa a contar através da vida de Juliano as histórias das várias gerações que comandaram o tráfico de drogas na região.

O leitor se depara com um garoto que nasceu em uma região muito pobre, viveu em meio a casebres onde a higiene quase que não existe, o saneamento básico não chega até os moradores, a menos que os mesmos se unam e construam estruturas (quase sempre precárias) de escoamento de esgoto e de tubulações de água. Alguns contrastes são mostrados, como a vagabundagem quase que involuntária de alguns moradores que vivem pelos bares da região, contrapostas com os garotos que vivem pendurados nos canos construindo ou mesmo remendando tubulações de água.

Diante da precariedade da vida no seu entorno o ainda menino Juliano foi se espelhando naqueles que eram os heróis do morro, os que tinham melhores condições financeiras. Lendo ainda os primeiros capítulos você já começa a se questionar até que ponto esse menino (assim como tantos outros) de fato teve a oportunidade de escolher qual futuro seguir. Barcellos vai mostrando os rumos do crime que foram tomados por Juliano e as escolhas de honestidade feitas por alguns dos seus colegas, diante dessas mostras você se questiona sobre as reais possibilidades de escolha que cada pessoa tem. Alguém que nasce nessa região, completamente desprovida de qualquer assistência ou mesmo esperança de melhora, pode mesmo ser culpada caso faça uma escolha errada?

Perante as guerras do morro e do destino dos soldados do tráfico, fica nítido que o caminho da criminalidade é cruel e muitas vezes fatal. Parafraseando o contexto como um todo, é como se o Estado dissesse para os bebês que nascem no morro, “você está condenado a morrer muito cedo, faça algo para que isso não aconteça, mas eu não vou te ajudar, muito pelo contrário, irei te oprimir, afunilarei os seus caminhos, não deixarei você se desenvolver financeiramente, te julgarei por ser pobre, e se você não se manter na linha eu te prendo ou mato”.

A obra retrata ainda a bondade de alguns moradores do morro, assim como também deixa nítido a maldade de outros. A corrupção policial, sem a qual (dentre vários outros fatores) o tráfico de drogas não existiria é muito bem escancarada nas mais de quinhentas páginas.

Caco Barcellos ainda conta sobre como foi o processo de escrita do livro, numa narrativa onde ele revela como foram os encontros com Juliano, revelando até mesmo os seus medos. Compre a obra clicando na imagem abaixo e se prepare para ter outra percepção de mundo.