Devaneios

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Hoje eu só queria ficar quieta num canto escuro. Sem ninguém ao redor, compartilhando o momento apenas junto ao silêncio. Às vezes o silêncio faz bem, ele diz tanto sobre a gente. Os pensamentos se dissipam na mente e, quando você se dá conta, já é tarde. Não tem mais como voltar ao estado inicial. Agora, tudo já se misturou às angústias e aflições que o mundo moderno traz para todos. Que atire a primeira pedra quem nunca sofreu de ansiedade em um lugar novo e cheio de desconhecidos. Descobrir coisas novas nunca foi o meu forte, eu prefiro me redescobrir.

Aliás, eu gosto de me contemplar. Silenciosamente me contemplo e me dispo de todos os sentimentos e sensações e medos que insistem em me rodear. A sensação é boa, a serenidade vem logo depois. A vida até parece certa em momentos como esse, mas basta um piscar de olhos para tudo voltar ao normal. Eu nunca gostei de ser normal, sempre preferi ser aquela que todos falam de um jeito ou de outro. Prefiro ser alguém que eu queira ser do que fingir ser quem nunca quis. Pessoas vazias me assustam. Pessoas vazias de individualidade então, ainda mais.

Quem são as pessoas que constroem o nosso mundo? Elas deveriam realmente estar envolvidas nisso? O nosso mundo não deveria ser construído por cada pessoa que nele habita? A dificuldade da compreensão é tamanha que já não sei se vale a pena discutir sobre ou não. Onde é que tudo isso vai parar? Para onde iremos quando tudo terminar? Eu não quero que termine, ainda tenho tanto a fazer. Tenho tanto a sonhar. Ainda quero prevalecer, fazer do chão que piso o meu infinito particular. Todos querem, poucos têm. Já não sei o que tenho, só sei que ainda falta algo. Falta alguém.

Vários passos dados em direção alguma, às vezes me pergunto como foi que cheguei aqui. Justamente onde estou é onde menos deveria estar. O meu lugar é longe, não sei se sequer existe, gostaria de sair para procurar. Uma companhia essencial ainda necessito, mas todas as coisas estão se encaixando, não sei bem onde colocar uma peça adicional. Quem sabe dentro de algo ou de alguém. Desde que não seja em outro a não ser eu, tudo bem.

Os diferentes sons do silêncio

“Tragam-me de volta os raios de luz que iluminavam a minha alma, sem ela eu não sei se sou capaz.”

Seria irônico dizer que o vazio, quando alocado bem no meio do peito, dói? Pergunto isso apenas para saber se o que se passa comigo é normal ou não. Penso que a ausência de algo não deveria fazer tanto estrago assim, mas pelo visto estive enganada por todos esses anos. Gostaria de saber o porquê disso acontecer logo agora. Não é justo cultivar algo tão bom para, depois de algumas palavras mal ditas, tê-lo arrancado de forma bruta e contínua. Dias se passaram desde o sumiço de tal sentimento, mas o buraco continua intacto, quando não alguns centímetros maior. Não era pra ser assim, nada disso estava no planejado. Mas eu não tenho controle sobre o que acontece em minha vida. Talvez nas pequenas coisas, mas não em algo desse tipo.

Os dias vão continuar assim? Cinzas, apáticos, ausentes de alegria? Eu costumava me encantar com os pássaros de manhã. Costumava, também, a sorrir para quem estivesse através de minha janela, só para ver se teria o sorriso de volta. Faz tempo que não o tenho, até mesmo o meu espelho esqueceu de como sorri. É tudo tão duro, árduo. Já me vejo sem forças para seguir e permanecer, ao menos, lutando por mais um dia. Dias assim não deveriam existir. Tragam-me de volta os raios de luz que iluminavam a minha alma, sem ela eu não sei se sou capaz. Eu nunca fui e com essa ausência de tudo, talvez não tenha a chance de tentar ser.

Já cansei até de minhas próprias visitas, os meus fantasmas pedem para eu não mais aparecer. Eu sei que no fundo tudo vai ficar bem, o problema é justamente entender que isso pode levar um pouco mais de tempo ainda. Se eu pudesse, já tinha dado um jeito em tudo, mas é meio impossível esperar que um milagre aconteça no meio desse mar de coisa ruim que me assombra. Não estou preparada para ouvir o eco de minha própria voz. O silêncio já me pertence, o ar está rarefeito, quantos dias mais eu hei de aguentar? Espero por um chamado qualquer, uma mão estendida em prol de me ajudar. Eu só espero que não a agarre para tentar me afundar de vez. Eu não posso lidar com todas as perdas novamente.

Continuo aqui, sem saber pra onde ir. As lágrimas escorrem soltas pelas curvas de um rosto que já esbanjou sentimentos bons por todos os lugares em que um dia passou. Os passos estão mais raros; os suspiros, mais rasos. Perdida no meio de uma desilusão, projeto minha vida sem imaginar sair daqui. Para onde quer que eu vá, sei que o vazio irá me acompanhar. Talvez o problema não seja eu afinal, mas sim tudo o que um dia já me satisfez e que hoje se desfez. Sei que daqui uns dias eu estarei longe disso, do vazio e da ausência. Mas enquanto ele não chega, escrevo palavras sem sentido pra ver se consigo me completar.

O que eu jamais desconfiaria era descobrir que não sou cheia de mim mesma. Acabei entendendo que nenhum vazio será capaz de desfrutar do que eu realmente​ sou, já que nem eu sei. Para onde vou? Algum outro tipo de buraco, eu espero. Profundo, escuro, sem ecos de um silêncio ensurdecedor.

Inúmeros silêncios

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“(…) há silêncios que realmente falam mais do que qualquer tipo de palavra.”

Me olha nos olhos e diz exatamente o que você quer dizer; o que você precisa dizer. Eu te conheço muito bem, sei que você não é tão bom com as palavras assim, ao menos as que são faladas. Porque nas escritas, bom, sei que você vai bem além se você se permitir. Aliás, essa era a palavra que queria chegar: permitir. Já parou para pensar no quanto a gente deixa de fazer por simplesmente não nos permitir? Então, por que você também não se permite em dizer? Vai, bota tudo pra fora, deixa esse monstro se libertar aí de dentro. Você já o escondeu por tempo demais, deixa que o mundo tome conta dele agora. Por favor.

Eu entendo que você não consegue. Agora. Não consegue agora. Mas eu queria tanto que você acreditasse em você mesmo, assim como eu acredito. Eu sempre acreditei, sabe? Achei que não precisava nem dizer uma coisa dessas nessa altura do campeonato. Eu sei, eu falo muito melhor do que você, é só ter uma brecha que já to contando da minha vida pra quem estiver passando pela rua. Mas será que você não faria nem um pouquinho de esforço pra tentar ser assim também? É claro que não quero que você seja igual a mim, até porque ninguém é igual a ninguém. Mas seria interessante se você tentasse, sabe? Comece treinando em frente ao espelho, olhe pra você, se encare. Fale. Vai ser difícil no início, mas ninguém disse que seria fácil certo? Na verdade, nem é pra ser. A vida tem mais gostinho de vida quando a batalha não é pequena.

Respira fundo, olha aqui, finge que eu sou o seu travesseiro. Aposto que com ele você fala, né? Mas não tem problema, eu posso esperar um tempo a mais só para te ouvir falar também. E eu quero te ouvir falar, ok? A sua voz é tão linda, tão doce, tão suave. Assim como você. Pessoas com o coração grande como o teu devem ser valorizadas e eu só to querendo que você entenda isso. Eu te valorizo, sabe? Desde o dia que você entrou em minha vida, soube te valorizar, porque percebi que você era diferente de todos os outros. Talvez eu nunca tenha te dito antes, mas é que às vezes as palavras faladas também faltam em mim. Irônico, não? Só que eu, ao contrário de você, não desisti, então por isso estou aqui falando e falando e falando de novo.

Lembre-se sempre de que você terá alguém para te ouvir e te apoiar. Lembre-se, também, que independente do horário, do dia ou até mesmo do clima que estiver lá fora, a minha porta estará aberta, assim como os meus braços para te aconchegar da forma mais calorosa que existe. Eu te entendo bem, mas queria que você me entendesse também. As palavras existem para serem jogadas ao mundo. Da maneira correta, é claro, mas mesmo assim, elas merecem ser ouvidas. Então, da próxima vez, tente um pouquinho mais, tá?

Mas, enquanto essa próxima vez não chega, eu continuo aceitando o fato de que há silêncios que realmente falam mais do que qualquer tipo de palavra.