Sobre Traumas

traumas é uma palavra grega que significa ferida. são fatos imprevisíveis e indesejáveis que, de forma violenta, nos atingem e produzem alguma forma de lesão ou dano, dor do tipo crônica ou sentimentos embaralhados e atitudes controversas, que levam a questionamentos sem respostas. no trauma não há semântica, há suposições e a continuidade de um processo chamado vida.

mas está tudo bem. você pode ir em frente. mesmo com traumas. carregá-los tornar-vos-á uma pessoa melhor. não há orgulho a ser perdido. pelo contrário. traumas ensinam para quem sobrevive. a vida merece continuar. e ir de encontro com um novo começo. afinal, a vida é uma roda e a roda nunca para de girar.

nesses meus poucos anos de vida, posso dizer que tenho a experiência de recomeçar de novo e de novo, todos os dias, sem medo de dizer que falhei, que fiz escolhas erradas. já engoli em seco o orgulho, a dor, a vergonha. eu sobrevivi e continuei em frente. não estou aqui bancando o hipócrita. também reconheço meus defeitos. tenho eles aos montes. e desconfio que esses ultrapassam as minhas qualidades. mas no final das contas, todos sabemos que são elas, as qualidades, que pesam mais na balança.

então, eu luto todos os dias com o meu leão, as vezes até com mais de um. tenho traumas que ainda guardo para mim, sem reservar o direito de outros saberem. eu sigo em frente. não me vitimizo, essa não é uma opção que me cabe. faço-me forte diariamente com dozes exageradas de coragem para esquecer destes traumas. a dor é minha e embora todos possam compreender, ninguém nunca, jamais, vai poder entender o quão doloroso pode ser olhar para trás e lembrar. nunca ninguém vai entender até isso acontecer com você.

mas esta é a pior parte: lembrar, lembrar dói; e por isso eu sigo em frente;

A dura realidade onde sempre precisamos ser fortes

Eu nunca tive medo do escuro. Nem da noite, nem da luz apagada. Não, eu nunca tive. Tive medo de altura, da morte, do mal, mas do escuro não. Nunca entendi o fato da ausência de claridade perturbar tanto alguém, talvez seja por não conseguir ver o que está ali logo adiante. Eu não entendia o porquê de ter que deixar a luz acesa ao dormir, eu não entendia o real motivo daquele medo todo. Insegurança, não sei. Na verdade, nunca soube.
 
Eu nunca tive medo de andar na rua a noite. Tive medo das pessoas que estavam na mesma rua que eu, mas isso era independente do horário. Eu nunca tive medo de bichos como barata ou aranha, mas tive da lagartixa que pode muito bem andar com seu corpo gélido sobre o meu. Eu nunca entendi direito a situação em que você deixa de lado o que mais te atormenta para simplesmente seguir em frente.
 
Nunca tive escolhas permanentes, sempre mudei muito de opinião. O que é bom pra mim hoje, pode não ser amanhã. E tá tudo bem, né? A vida é feita de mudanças. Mudanças constantes. Mudanças bruscas. Mudanças traumáticas.
 
Eu nunca entendi qual era a do trauma, até finalmente possuir um. O trauma do amor, o trauma de ser dependente de alguém. O trauma de não ser suficiente ou até mesmo o trauma de não existir mais. A gente. Nada é eterno, mas a vontade de fazer com que tudo seja é sim. Queremos ser lembrados, queremos ser reconhecidos. E disso eu sempre tive medo, de não conseguir fazer valer a pena, de não ser lembrada da maneira como gostaria.
 
Eu nunca tive medo de um dia não conseguir realizar os meus sonhos, pois no fundo sabia que iria realizá-los sim. Um a um. Um beijo, uma amizade, um show. Eu nunca tive medo de sair por aí e tentar a sorte nesse mundo tão louco que criaram. Eu até já saí, quebrei a cara, gastei dinheiro. Eu nunca tive vontade de fazer o que os outros gostariam. Casar, ter filhos, morrer junto.
 
Eu nunca tive uma relação de mãe-pai, sempre foi ela aqui e ele lá. Eu nunca entendi por que o amor acaba. Eu nunca soube o que dizer quando alguém vinha dizer que não estava bem. Eu também não estou. Aliás, alguém está?
 
Eu nunca pensei em passar por situações assim. Nunca sequer imaginei que existissem pessoas tão ruins a ponto de tirarem a minha privacidade. O meu sossego. A segurança. Eu nunca tive medo de enfrentar desafios difíceis. Mas desse eu tive. Eu to quase desistindo. Até porque eu nunca tive medo, também, de desistir.
 
Só não desisto agora porque é aquela história: alguém tem que trabalhar para que os outros tenham o que roubar.

Hoje morrerei naquela cadeira

Estou condenado à morte. Morrerei hoje naquela cadeira. Esse será o meu fim. Até aqui não tinha percebido a dimensão real do problema que tinha me metido. Eu tinha certeza de que no final tudo daria certo. Nunca me imaginei passando por esse momento, ter ciência de que esse é o seu fim é uma das piores sensações que existe em todo o mundo. Eu só tinha lido nos livros, visto nos filmes e ouvido as fofocas populares sobre como as pessoas se sentem nesse momento, mas nada disso foi tão real, tão fiel ao ponto de me adiantar um pouquinho que fosse de como me sentiria quando me encontrasse nessa situação. Tenho a oportunidade de dar o último adeus para minha família, eu choro, minha mulher tenta me acalmar me falando que voltaremos a nos encontrar em breve, mas eu não sei se acredito nessas baboseiras religiosas. Dou meu último adeus, sinto seus lábios pela última vez. Nossa, como ela é linda, e eu a deixarei aqui, sozinha, sem filhos e com um cachorro vira-lata que só sabe destruir nossos móveis. Respiro fundo, preciso manter a compostura pelo menos na frente dela. Enxugo as lágrimas, repito que a amo com todo o meu ser. Me viro, estou cercado por pessoas e ando. A cada passo que dou nesse corredor comprido, sombrio e gelado meu peito se afoga em amargura e aperto. Não há mais esperança, hoje eu morrerei naquela cadeira. Eu tinha que ter pensado nisso antes de ter feito as escolhas que fiz, mas jamais imaginava que uma simples escolha poderia ter consequências tão drásticas. Já vejo a porta por onde entrarei, minhas pernas tremem. Tenho vontade de parar, chorar, gritar, implorar perdão a Deus por ter chamado as crenças religiosas de baboseiras, mas tem muitas pessoas atrás de mim, preciso continuar. Mantenho a postura, não me permito o choro, nem a pausa na caminhada. Partirei como homem sério, que assume as consequências das suas escolhas. E eu entro no ambiente e já vejo a cadeira na qual morrerei. Sento-me. Eu mesmo aperto o sinto e respiro. Como eu nunca percebi antes o quanto é bom respirar? O ar entrando por nossas narinas, ele caminha nosso corpo adentro, enche os nossos pulmões, vitaliza nossas energias, eu deveria ter valorizado essa sensação mais vezes. Mas agora é tarde, em instantes eu morrerei nessa cadeira. Uma voz fala no auto-falante, tudo vai acontecer em instantes. Cadê o padre? Todos que estão condenados à morte tem direito de se confessarem a um padre antes de morrer. Como nunca considerei a hipótese de me confessar antes desse momento? Eu deveria ter sido mais religioso, meu lugar certamente será no inferno. Eu não quero sentir dor, já basta a vida pesada que tive até aqui, já basta o fim que por si só já é trágico, já basta estar amarrado numa cadeira, já basta eu mesmo ter escolhido as opções que me levaram até aqui, por favor, tudo menos dor. O padre não vem, mas o remédio que tomei há uma hora  começa a fazer efeito. Minhas pupilas começam a ficar cada vez mais pesadas. A cadeira treme devagar. Essa será minha última visão, em segundos eu sei que morrerei nessa cadeira. A escuridão, o silêncio, a paz. 
Sou acordado pela aeromoça, acabei de chegar no meu destino, eu estava enganado, não morri nessa cadeira. Agradeço a moça, muito linda por sinal, observo sua cintura e fico na dúvida se é fina ou afinada pela roupa, percebo seus seios volumosos e me lembro do rosto da minha mulher, não posso traí-la nem em pensamento. Temo que Deus tenha percebido o que se passou em minha mente. Fico em pé, sinto meus músculos esticando. Agradeço ao Divino por não ter me levado nessa lata que voa – nunca entendi como podem os aviões voar. Hoje mesmo vou na missa, ou amanhã, mas certamente irei antes de voltar a entrar nesse objeto perigoso e mortífero. Sempre tive pânico de avião.