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Te amo 300 vezes por dia

Te amo 300 vezes por dia

Minha família não é acostumada a demostrar amor. Quer dizer, não da forma tradicional, pelo menos. Dizer ‘eu te amo’ para meus pais – e ouvir isso deles – é coisa recente, de menos de uma década, talvez. Não que a gente não se ame, a gente só demonstra isso de outras maneiras. É menos poesia e mais prosa, digamos.

Tanto é que em 30 anos de vida eu nunca duvidei do amor dos meus pais – nem no período rebelde da adolescência. Mas eu sempre enxerguei esse amor muito mais nos atos do que nas palavras.

Mas eu achei que a falta de ‘eu te amo’ no nosso cotidiano era só falta de costume, pressão social, sei lá. Até recentemente. Minha sobrinha mais velha tem 8 anos e nasceu e cresceu ouvindo ‘eu te amo’ de todo mundo todos os dias. Em tese, portanto, deveria estar “acostumada”.

Eis que mês passado eu fui passar uma temporada na casa da minha mãe depois de nove meses sem dar as caras por causa da pandemia. Minha sobrinha, que me ama mais que qualquer outro tio que ela tenha – e eu sei disso -, fez a malinha dela largou a mãe dela pra trás para passar esses dias todinhos comigo.

Óbvio que não economizamos em abraços, beijos e ‘eu te amo’. Afinal, nove meses sem se ver e eu já estava ficando doente de saudade. Mas lá pelo terceiro ou quarto dia, ela vira pra mim, impaciente, e diz: “Tia, não precisa me dizer ‘eu te amo’ 300 vezes por dia , eu já sei. Uma vez só tá bom”. Oito anos. Nove meses sem se ver.

Nove meses sem me ver e um ‘eu te amo’ por dia basta. E ela nem é adolescente ainda. Isso não tem a ver com costume, não. Só pode ser genética. Eu me peguei pensando quantas vezes eu mesma cortei o romantismo do meu marido porque “estava demais” e eu “não tenho paciência”.

Para embasar minha teoria de que nossa dificuldade de expressar o amor em palavras – e gestos muito melados – é genética, eu conto outra história. Minha sobrinha do meio. Três anos. Mesmo pai – meu irmão -, outra mãe.

Pouco antes de viajar para a casa da minha mãe, eu contei para ela que estava indo. Ela ficou eufórica de alegria. E disse o seguinte, muitíssimo animada: “Eu vou sentar do seu lado”.

Vou te dar um abraço de urso? Dormir todos os dias abraçadinha com você? Te dar um milhão de beijos? Não. Eu vou sentar do seu lado. E tá ótimo.

Se esse comportamento, mesmo crescendo em um ambiente que já naturalizou o ‘eu te amo’, não é hereditário, eu não sei mais o que é.

Portanto, entendam. Eu não sou antipática, nem metida, muito menos tenho um coração de gelo. É só meu jeitinho. Mas eu provavelmente te amo. Talvez eu te ame 300 vezes por dia, mesmo não dizendo isso. Principalmente se eu sentar do seu lado com frequência.

Kelli Kadanus

Kelli Kadanus, jornalista, cronista, tia coruja. Escrevo para tentar me entender e entender o mundo. É assim desde que aprendi a juntar sílabas. Sonho em mudar o mundo e as palavras são minha única arma disponível.

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