TEICH DIZ QUE DEIXOU MINISTÉRIO DA SAÚDE POR FALTA DE AUTONOMIA

Nesta semana a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia começou a convocar os ministros que passaram pelo Ministério da Saúde para prestar depoimentos sobre as ações do governo no enfrentamento à crise sanitária. Hoje (5) foi a vez do ex-ministro Nelson Teich, que esteve à frente da pasta entre 17 de abril e 15 de maio de 2020 e foi substituído pelo general Eduardo Pazuello. 

À CPI, Teich afirmou que deixou o governo quando percebeu que não teria autonomia para fazer o que ele achava ser necessário para que o Brasil atravessasse a pandemia.

Essa falta de autonomia ficou mais evidente em relação às divergências quanto à eficácia e extensão do uso da cloroquina.  Enquanto a minha convicção pessoal, baseada em estudos, era de que naquele momento não existia evidência para liberar, existia um entendimento diferente por parte do presidente, que era amparado na opinião de outros profissionais, até do Conselho Federal de Medicina. Isso aí foi o que motivou a minha saída. Sem a liberdade para conduzir o ministério conforme as minhas convicções, optei por deixar o cargo”, disse aos senadores.

Teich, que é médico oncologista, afirmou ao relator da Comissão, o senador Renan Calheiros (MDB-AL), que é totalmente contrário ao uso da cloroquina para tratamento da covid-19 e que a produção e distribuição do medicamento não foi comunicada e muito menos autorizada por ele. No entanto, o ex-ministro não descartou que a distribuição possa ter ocorrido, mas “nunca sob minha orientação”, apontou.

Ex-ministro da saúde Nelson Teich. Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

Um dos pontos que a CPI investiga é a produção exagerada de cloroquina nos laboratórios do Exército e Marinha Brasileira a mando do Governo Federal durante a pandemia. O medicamento utilizado no tratamento de malária e lúpus começou a ser indicado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) como “tratamento precoce” para a covid-19. A prática é totalmente condenada por médicos e especialistas e pode acarretar outros malefícios à saúde de quem faz a automedicação.

Teich também disse que era contra a distribuição de cloroquina aos povos indígenas da Amazônia. O ministro disse ainda que se tivesse sabido “não deixaria”. “Minha orientação era contrária”, disse o ex-ministro. 

Em pouco mais de um ano de pandemia, quatro ministros já estiveram à frente da pasta da Saúde. Durante o depoimento, Teich alegou que a falta de autonomia no cargo foi o motivo dele ter saído do Mistério. “Existia um entendimento diferente pelo presidente”, disse. 

Mandetta já foi ouvido na CPI

O ex-ministro Luiz Henrique Mandetta compareceu ao Senado na terça-feira (4) e também afirmou que ter que ter que argumentar com o Bolsonaro e explicar à população que o que ele fala sobre a gravidade da pandemia não é verdade é embaraçoso. 

 “É muito constrangedor para um ministro da Saúde explicar que o ministro da Saúde estava indo por um caminho e o presidente por outro”, disse. Mandetta foi primeiro ministro da Saúde durante a pandemia de coronavírus. Ele foi demitido do cargo por discordâncias com Bolsonaro sobre a condução da crise sanitária. 

Mandetta foi a primeira testemunha ouvida pela CPI. Ele contou que entregou ao presidente uma carta em que o alertava sobre o crescimento dos riscos do coronavírus enquanto ainda estava no cargo de ministro. O documento foi entregue a Bolsonaro no dia 28 de março de 2020. Mandetta entregou uma cópia da carta aos senadores da CPI. No texto, ele “recomenda expressamente que a Presidência da República reveja o procedimento adotado” para evitar “colapso do sistema de saúde e gravíssimas consequências à saúde da população”, relembrou.

Próximos depoimentos

Além de ouvir depoimentos, a CPI também já aprovou centenas de requerimentos requisitando informações ao governo federal e a outras instituições, como Polícia Federal, Ministério Público, Tribunal de Contas da União (TCU) e governos estaduais. O plano de trabalho apresentado por Renan Calheiros contém seis linhas de investigação. 

Entre elas estão as ações de enfrentamento à pandemia por parte do governo federal, como vacinação, medidas de isolamento social, testagem, aquisição e distribuição de respiradores, estruturação e habilitação de leitos clínicos e de terapia intensiva e estratégia oficial de comunicação do governo, entre outros pontos. 

Nesta quinta-feira (6), às 10h, o Senado receberá o quarto e atual ministro da saúde, o médico cardiologista Marcelo Queiroga e o diretor-presidente da Agência de Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antonio Barra Torres, às 14h.

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