TELEFONE CELULAR DE DOMINGHETTI É APREENDIDO PELA POLÍCIA LEGISLATIVA

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia apreendeu, nesta quinta-feira (1), o celular do policial militar Luiz Paulo Dominguetti, que presta depoimento aos senadores. Dominghetti alega ser representante comercial da  Davati Medical Supply, que atuaria na intermediação da compra de vacinas da AstraZeneca. 

Dominghetti está sendo ouvido na CPI sobre a denúncia feita por ele ao jornal Folha de S. Paulo, afirmando que recebeu proposta de propina do diretor de logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias, exonerado do cargo na manhã de ontem (30). Dominghetti alega que procurou o Ministério da Saúde para ofertar a vacina AstraZeneca, mas recebeu a informação de que o negócio só ocorreria se pagasse propina de US$ 1 por dose importada do imunizante. 

Luiz Paulo Dominguetti Pereira. Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

Dominghetti apresentou durante o depoimento à CPI um áudio enviado à Davati pelo deputado federal Luis Miranda (DEM-DF) em 24 de junho deste ano. Segundo o policial, o deputado tentou negociar as vacinas diretamente com a empresa. O áudio, porém, não cita a palavra vacina ou qualquer sinônimo. Para esclarecer o assunto, o celular de Dominghetti foi apreendido. 

“O grande problema é que eu vou ver com o cara, o comprador meu já está de saco cheio disso, ele vai pedir a prova de vida antes e a gente não vai fazer negócio. Então, nem perde tempo, você sabe que eu tenho um comprador com potencial de pagamento, ele compra o tempo todo lá em quantidades menores, obviamente. Se o seu produto estiver no chão e trazer um vídeo falando “Luis Miranda tenho aqui o produto e tal”, o meu comprador entende que é fato e encaminha toda a documentação necessária, amarra, faz as travas, faz os contratos todos todos e bola pra frente. Eu não vou mais perder tempo com esse comprador porque ele desgastou muito nos últimos 60 dias, com muita conversa fiada no mercado. E aí eu não me sinto nem confortável: “Ó encontrei uma carga, vamos dar prosseguimento, vamos mudar toda a documentação de novo, vamos chegar na SGS”, eu não vou perder tempo. Faz uma live comigo, faz um facetime, ele pode fazer Skype, o que ele quiser. Mostra a carga ou se quiser gravar um vídeo, grava o vídeo, né. Mostra o produto pra mim e tá tudo certo, bola pra frente. Eu mando pro cara na hora e o cara fecha o negócio na hora. O cara fecha contrato na hora, o cara tem cliente fixo, entende? Ele tem recorrência, esse é o grande problema desse meu cliente, ele tem recorrência. Ele fechou alguns contratos com a Walmat, com o [inaudivel], com alguns hospitais, então ele tem recorrência”, disse Luiz Miranda no áudio.    

O telefone celular do depoente foi apreendido pela Polícia Legislativa do Senado a pedido da CPI para apuração do conteúdo do áudio. O senador e presidente Omar Aziz (DEM-AM) anunciou uma nova convocação do deputado Miranda para a sessão da próxima terça-feira (6). 

Miranda nega que o áudio seja referente à compra de vacinas e alega que a conversa ocorreu em 2020. Segundo o deputado, a negociação sequer tinha relação com o Brasil e o áudio teria sido editado. Aziz afirmou que o deputado entregou o áudio na íntegra à Polícia Legislativa para averiguação. 

AstraZeneca diz que não tem intermediários

Após a divulgação da denúncia, a AstraZeneca publicou uma nota afirmando que não negocia as doses do imunizante com empresas privadas. “No momento, todas as doses da vacina estão disponíveis por meio de acordos firmados com governos e organizações multilaterais ao redor do mundo, incluindo da Covax Facility, não sendo possível disponibilizar vacinas para o mercado privado ou para governos municipais e estaduais no Brasil”, diz a nota. 

A denúncia revelada pela Folha de S. Paulo apresenta dois graves problemas. O primeiro, o esquema de corrupção dentro do governo Bolsonaro,superfaturando vacinas que são essenciais para o enfrentamento da pandemia de covid-19 que já matou mais de 516 mil brasileiros. O segundo, a tentativa de negociação milionária com uma empresa que não teria como fornecer as doses.  

Durante a oitiva, Dominghetti afirmou que é militar da ativa e o trabalho de intermediário de vendas que ele presta à Davati Medical Supply, empresa que estava negociando a venda de doses da vacina Astrazeneca, serve como forma de complementar a renda. O encontro com Dias teria acontecido em fevereiro deste ano, em Brasília, no restaurante Vasto no Brasília Shopping. 

A proposta da Davati Medical Supply, segundo informações do portal de notícias G1, oferecia ao Ministério da Saúde 400 milhões de doses da vacina da AstraZeneca por US$ 3,50 cada, totalizando US$ 1,4 bilhão (cerca de R$ 7 bilhões). A proposta de Dias a Dominghetti acrescentava US$ 1 ao valor cobrado para que a venda seguisse. Questionado por Renan Calheiros (MDB-AL), relator da CPI, sobre como a empresa entregaria as doses, Dominghetti  afirmou que esses detalhes estão especificados no contrato. 

Segundo Dominghetti, depois da proposta de propina e da negativa dele ao pedido, a reunião acabou, mas no dia seguinte ele se encontrou com Dias no Ministério da Saúde.

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