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Subdesenvolvimento e nossa incapacidade de produzir bens com alto valor agregado: a teoria da complexidade econômica

Subdesenvolvimento e nossa incapacidade de produzir bens com alto valor agregado: a teoria da complexidade econômica
Foto: Pixabay
Coluna Professor Dabliu

Por Irineu Ribeiro dos Santos Junior e Walcir Soares da Silva Junior. Este é um ano eleitoral. E para compreender o que queremos do nosso futuro, precisamos antes entender um pouco do passado. Um dos assuntos mais comentados nesses momentos é a direção da economia já que, você querendo ou não, seus impactos e reflexos nos atingem diretamente, seja na empregabilidade ou nos preços no supermercado. E um dos aspectos que mais deixam brasileiros indignados é o fato de sermos um país ainda em desenvolvimento mesmo diante de tantas riquezas e do tamanho da nossa economia.

Entre 2000 e 2010 o Brasil vivenciou momentos marcantes de crescimento econômico e de desenvolvimento social. Com o aumento das importações e exportações, queda no desemprego, aumento de renda, aumento no investimento especulativo e queda na taxa de juros, imagina-se um cenário de desenvolvimento econômico e de aumento da industrialização. Mas tendo em vista os dados do Índice de Complexidade Econômica e sua teoria, temos uma visão contrária a essa indagação. De 2000 até 2010 o Brasil apresentou queda no ranking de complexidade econômica mundial, mesmo estando em um período extremamente profícuo para o desenvolvimento econômico da nação. 

Mas o que vem a ser a Teoria da Complexidade Econômica?

Criada em 2009 pelo economista venezuelano, diretor do Growth Lab Center da Universidade de Harvard, Ricardo Hausmann e o físico chileno que dirige o Centro de Aprendizagem Coletiva do Instituto de Inteligência Artificial e Natural da Universidade de Toulouse, César Hidalgo, a Teoria da Complexidade visa medir a sofisticação produtiva e econômica dos países. Levando em consideração a pauta exportadora de bens e serviços, a teoria analisa o funcionamento do sistema econômico dos países através da sua capacidade de produção de bens, considerando os fatores produtivos, por exemplo, de máquinas, matéria-prima, mão de obra etc., de maneira a analisar a capacidade de sofisticação, conhecimento e desenvolvimento que aquela determinada economia possui para produzir bens. O entendimento se encontra em compreender que essa diversidade de conhecimento, combinada por meio de uma rede complexa de produção, distingue os países complexos economicamente e, portanto, mais sofisticados, e os não complexos economicamente, e evidentemente menos sofisticados (QUINZANI; BORGES, 2020).

Para Hausmann (2011 apud Alencar 2017) o nível de complexidade dos bens exportados afeta incisivamente o processo de desenvolvimento econômico. Tendo em vista que, empiricamente, economias que apresentam uma pauta industrial e exportadora com bens mais complexos e, obrigatoriamente, não ubíquos, são mais desenvolvidas do que os países que produzem e exportam bens ubíquos (bens que não dependem de uma estrutura complexa para serem exportados).

Uma das principais formas de aumentar o nível de sofisticação produtiva, ou seja, complexidade econômica, está na diversificação, ou seja, na capacidade de um país produzir bens de maior valor agregado ao mesmo tempo que produz bem de baixo valor agregado, o que, na visão ampla do índice, apresenta um tecido de produção elementarmente sofisticado e possível de alçar voos maiores de crescimento e desenvolvimento econômico. Imagine a quantidade de conexões necessárias em um setor que produz smartphones, por exemplo. Agora compare essas conexões a um setor que exporta petróleo bruto. É essa diferença que explica boa parte da separação entre os países desenvolvidos e os em desenvolvimento.

Um exemplo clássico disso é a comparação Brasil X Coréia do Sul, onde de um lado temos um país que exporta, em sua grande maioria, grãos e bens agropecuários, de baixo valor agregado, e de outro lado temos um país que exporta computadores, carros e microchips. Não é preciso dizer qual terá o maior índice de complexidade econômica. 

Uma das coisas mais interessantes da Teoria da Complexidade Econômica é que ela corrobora uma teoria latino-americana há muito rechaçada por grande parte dos economistas em linha com as teorias mais ortodoxas. Na década de 1940, a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), apresentou uma abordagem estruturalista, de crítica econômica ao liberalismo com o viés produtivo e desenvolvimentista pautado na especialização. Para os estruturalistas latinoamericanos o fator especialização estaria atrelado à dependência econômica dos países periféricos aos centros comerciais. Por isso, surgiu a ideia do desenvolvimento e condição estrutural de produção e desenvolvimento econômico latino-americano, conceitos em que a mudança da estrutura produtiva e o fator diversificação, passando de uma economia que produz bens de baixo valor agregado, para uma economia que produz bens de maior valor agregado, fazia mais sentido à nossa realidade.

Em geral, os países pobres concentram suas capacidades produtivas em bens de baixo valor agregado, com uma estrutura produtiva típica de competição perfeita, contendo baixo conteúdo de pesquisa e desenvolvimento, baixa inovação tecnológica, informação perfeita, ausência de curvas de aprendizado e possibilidades diminutas de divisão do trabalho (REINERT e KATEL, 2010 apud GALA, 2017).

Portanto, mesmo com um aumento de produção, o Brasil, na década de 2010, escolheu alguns mercados estratégicos de baixa complexidade para o aumento industrial e produtivo, o que acarretou queda no ranking da complexidade econômica, que está respaldada pela crítica estruturalista cepalina, onde a perspectiva de desenvolvimento econômico é heterodoxa e vem acompanhada da produção de bens de maior valor agregado, ou de maior sofisticação produtiva. Essa escolha de mercados estratégicos e aumento de produção de bens primários pode estar vinculado ao que ficou conhecido como boom das commodities.

É interessante mantermos os olhos voltados para esta nova visão econômica pois, atualmente, “vemos o futuro repetir o passado”.

*Irineu Ribeiro dos Santos Junior é egresso do curso de graduação em Ciências Econômicas da Faculdade de Educação Superior do Paraná.

**Walcir Soares da Silva Junior é professor do curso de Ciências Econômicas da Faculdade de Educação Superior do Paraná.

REFERÊNCIAS

ALENCAR, F.L Júlia; FREITAS, Elton; P. Romero, João; BRITTO, Gustavo. “Complexidade econômica e desenvolvimento: Uma análise do caso latino-americano”. Novos estudos CEBRAP, vol. 37, n. 02, p.247 – 271, mai – ago. 2018. Em < SciELO – Brasil – COMPLEXIDADE ECONÔMICA E DESENVOLVIMENTO: Uma análise do caso latinoamericano COMPLEXIDADE ECONÔMICA E DESENVOLVIMENTO: Uma análise do caso latino-americano>. Acesso em 07/05/2022.

FURTADO, Celso. “Desenvolvimento e subdesenvolvimento”. In: Bielschowsky, Ricardo (Org.). Cinquenta anos de pensamento na Cepal. Rio de Janeiro: Record, 2000. pp.239–262.

GALA, Paulo. “Complexidade Econômica: Uma perspectiva para entender a antiga questão da riqueza das nações”. Rio de Janeiro: Contraponto: Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento, I° ed., 2017.

QUINZANI, Marcia Angela Dahmer; BORGES, Fábio. “Desenvolvimento e complexidade econômica: uma análise comparativa Brasil-China”. Orbis Latina, v. 10, n. 3, p. 151-172, 2020. Em:< https://revistas.unila.edu.br/orbis/article/view/2121/2040&gt; Acesso em: 07/05/2022.

professordabliu

Economista, Doutor em Desenvolvimento Econômico (UFPR/UCL). Atualmente é professor da Fundação de Estudos Sociais do Paraná (FESP) e na Business School da Universidade Positivo (UP). É também avaliador dos cursos de graduação pelo INEP.

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