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Um espaço em branco

Um espaço em branco

Eu estou passando por um luto doloroso e que eu sempre achei que estaria preparada, mas não estou. Não estava. Minha avó faleceu há 6 dias e falar isso parece um absurdo. Faleceu? Como assim? Não sei. Eu ainda acho que ela está ali no quarto cochilando com a cachorrinha e daqui a pouco vai vir com uma xícara de café, porque tudo no mundo fica melhor com café.

Eu já tomei garrafas e garrafas de café, mas essa dor não saiu de mim ainda. Dói o tempo todo, toda vez que eu penso que agora ela foi mesmo. O álbum da Adele saiu e ela não ouviu comigo. A gente amava juntas a Adele, ou Adélia, como brincávamos de chamar a nossa diva. A morte é um corte violento nos planos, na rotina, nos projetos, na vida de quem ficou. A partida da minha avó amputou tantos membros meus que, agora, nesse instante, meu vocabulário não abrange a minha dor.

A vida da minha avó foi um milagre cotidiano que me atingiu e será eternamente a chama da minha existência. Ela me escolheu, passou os infernos comigo e as doces conquistas. A gente dominou o nosso mundo e mudou a nossa trajetória, porque a gente se amava. E agora, me despedir parece pesado e difícil, enquanto para ela foi quase indolor e sutil, como ela merecia. Minha avó foi uma vela que foi se apagando lentamente, me avisando aos pouquinhos que era hora de eu seguir sozinha. E eu me sinto machucada, privilegiada e feliz e triste, tudo ao mesmo tempo. Porque a minha vó sempre foi tudo, tudo. Imensamente tudo.

Nesses picos de hora choro e hora esperança de uma vida, eu vejo o quanto a gente está o tempo todo vivendo o último dia. No último dia que vi minha avó bem, ela tomou sol e brincou com a cachorrinha. Ela comeu seus lanchinhos favoritos e viveu um dia comum. Comigo, em nossa casa, do nosso jeitinho favorito. Rolou uma conversa boa enquanto tomávamos café. Foi um dia normal e aí acabou. Agora eu estou aqui sozinha numa casa bagunçada, porque eu preciso revirar tudo e resolver tantas coisas que só de pensar eu choro de novo. Eu choro de desespero por ver a nossa vida virando pedaços. Eu amava a nossa vida, a nossa rotina, as nossas manias. Amava tudo em nós e agora está indo embora em caixas, sacolas e novos endereços. Me sinto tão vazia e com tanto espaço que é possível ouvir os ruídos do meu corpo. Minha avó faz falta em cada detalhe, cada centímetro.

E talvez daqui para frente os meus textos sejam mais tristes ainda do que já eram. Porque eu não estava pronta, mesmo me preparando tanto para essa situação atual. Ninguém está. Principalmente quando a gente está feliz, como nós duas estávamos. Mas tudo bem, é o que eu venho repetindo todos os dias: está tudo bem. Minha avó precisou seguir o caminho dela, agora eu preciso encontrar o meu. Sigo aqui, escrevendo e colocando para fora, na tentativa de não me inundar nessa dor que cada dia que passa parece maior.

Eline Carrano

Jornalista por profissão, cronista por opção e neta coruja. Escrevo porque preciso justificar as ansiedades que o tarja-preta não dá conta.

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