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Getúlio Vargas: de aliado à guerra contra a Alemanha nazista

Getúlio Vargas: de aliado à guerra contra a Alemanha nazista
Picture-alliance/AP Photo//U.S. Army Air

Desde 1930, Getúlio Vargas tornou-se parte da história nacional ao organizar o golpe militar que pôs fim à República Café com Leite no Brasil. Porém, sua participação política na história brasileira é cercada de controvérsias, como a posição diplomática do Brasil em relação à Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial. De acordo com documentos do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) do Rio Grande do Sul, foi em um período de quinze anos que Vargas passou de governador de seu estado natal e apoiador da Varig para o presidente da República que declarou guerra à Alemanha de Adolf Hitler. Porém, o Brasil relutou em posicionar-se na guerra e só o fez em 22 de agosto de 1942, depois de sucessivos ataques de submarinos alemães e italianos a navios da Marinha Mercante brasileira.

O primeiro contato de Vargas com o nazismo ocorreu durante sua gestão como governador do Rio Grande do Sul (1928-1930) e através da empresa Varig, cujo dono – Otto Ernest Meyer – era filiado ao braço sindical do Partido Nazista. Desde sua gestão como governador, Vargas preparava um projeto mais ambicioso de carreira política, buscando depôr a oligarquia Café com Leite na presidência da República, na qual se alternavam candidatos apenas de São Paulo e Minas Gerais. 

Considerando que a aviação era vista como um símbolo de poder desde a década de 1920, Vargas interessou-se nas ações da empresa aérea Varig, uma empresa 100% nacional que estava em plena emergência. A participação do empresariado gaúcho motivou Vargas a utilizar os recursos do Estado para financiar 25% das ações da empresa aérea desde o momento de sua criação.

Além disso, segundo o historiador da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Alexandre Fortes, o Estado brasileiro atuou institucionalmente para beneficiar a expansão e a hegemonia da Varig nos anos 1930, quando Getúlio Vargas assumiu a presidência do país após um golpe militar: “Posso dizer que o governo federal ajudou a proteger a empresa evitando que a Panair, vinculada à norte-americana PanAm, se expandisse no Brasil e controlasse rotas na região Sul”.

Vargas tornou-se aliado indireto do governo alemão por meio da empresa Varig, pensando, principalmente, de maneira pragmática. Embora não fosse tão simpatizante ao nazismo quanto Otto Meyer, o então governador do Rio Grande do Sul apoiou a criação da empresa para utilizar os aviões da companhia para sua campanha presidencial e como apoio logístico na Revolução de 1930. 

Para o professor de História Félix Norte, a aliança de Vargas com a Varig era esperada, pois o político gaúcho adotou um direcionamento nacionalista desde o início de sua carreira pública. “Getúlio era um nacional-desenvolvimentista nato, e considerando seu perfil mais oportunista e pragmático, a parceria com a Varig foi apenas mais um capítulo na carreira dele”, explica Norte.

Pragmatismo marcou a relação controversa do Brasil com os Aliados e o Eixo

Em relação à Alemanha, Vargas sempre manteve neutralidade. Em 1934, assinou os Acordos de Compensação com o govenro nazista, concordando em exportar carne, tabaco, café, couro e algodão para a Alemanha em troca da importação de manufaturados alemães. Porém, os negócios brasileiros com a Alemanha não impediram Vargas de agir pragmaticamente e estabelecer comércio com o principal adversário do governo alemão: os Estados Unidos. Um ano depois, Vargas também assinou um acordo com o país aliado para oferecer concessões tarifárias aos produtos importados em troca de liberação de tributos de exportações brasileiras.

Vargas manteve-se neutro em relação aos países do Eixo não apenas para obter vantagens econômicas, mas também devido à maior simpatia e similaridade do regime ditatorial do Estado Novo, no Brasil, em relação à Itália fascista e da Alemanha nazista do que da democracia americana, ainda que as origens da ditadura de Vargas remetam ao positivismo gaúcho e não ao fascismo europeu.

Na época da Segunda Guerra Mundial, a Alemanha era a principal fornecedora de armas para o Exército brasileiro e era essencial nas relações comerciais do país, pois era a principal origem das importações brasileiras e segundo principal destino das exportações. Até 1942, quando o Brasil declarou guerra aos países do Eixo (Itália, Alemanha e Japão), o único contato dos Aliados – principalmente dos Estados Unidos – no núcleo central do governo brasileiro era o Ministério das Relações Exteriores, presidido pelo chanceler e ex-embaixador nos Estados Unidos, Oswaldo Aranha. Aranha era um dos poucos contrapontos à forte influência alemã no Estado Novo.

O historiador Alexandre Fortes explica que a postura de Vargas em relação à Varig só mudou quando a companhia passou a atuar em prol do governo alemão. “Como presidente, Getúlio viu a Varig se tornar parte do problema relativo à espionagem alemã e à penetração do nazismo junto às comunidades de imigrantes no país. Por isso, apoiou a nacionalização da empresa. De fato, o ministro Oswaldo Aranha lidou mais diretamente com o problema”, afirma.

Enquanto Getúlio acenava publicamente para o Eixo, Oswaldo Aranha negociava nos bastidores com os Estados Unidos: foi dessa maneira que o Brasil passou todos os anos que antecederam o início da Segunda Guerra Mundial e os primeiros anos da guerra em uma posição ambígua em relação aos países Aliados e do Eixo, beneficiando-se de acordos comerciais e diplomáticos de ambos os lados. 

Neutralidade diplomática cobrou seu preço e obrigou o Brasil a posicionar-se na guerra

A neutralidade foi a maneira encontrada pelo Brasil para manter-se parceira de ambos os lados da guerra, pois até meados de 1942, o desfecho do conflito parecia imprevisível. Porém, o país só conseguiu sustentar suas controvérsias diplomáticas usando um trunfo que interessava tanto os Aliados quanto o Eixo: a importância estratégica que o Nordeste (mais precisamente Natal e Fernando de Noronha) forneciam para o apoio às operações militares no norte da África.

Usando essa região para obter vantagens econômicas, Vargas conseguiu um empréstimo do governo americano para criar o berço da  industrialização brasileira, a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em Volta Redonda. 

Porém, a condição para o empréstimo foi o alinhamento gradativo e definitivo do Brasil aos Aliados, manifesto inicialmente nas construções de bases militares americanas em solo brasileiro (Natal) e, depois, na criação da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Em 1941, com o ataque japonês à base militar norte-americana de Pearl Harbor e a entrada oficial dos Estados Unidos na guerra, a posição pró-Aliados dentro do governo brasileiro tornou-se mais forte, pois os EUA passaram a pressionar Vargas a cumprir com sua contrapartida pelo empréstimo concedido para a criação da CSN.

Por isso, o Brasil rompeu relações comerciais com os países do Eixo em 28 de janeiro de 1942, e, no final de agosto do mesmo ano, declarou guerra à Alemanha e à Itália. Em janeiro de 1943, a visita dos presidentes Franklin Delano Roosevelt e Getúlio Vargas a Natal já serviu para acertar detalhes da participação brasileira na guerra. A FEB, porém, foi criada apenas em 1943 e se uniu ao esforço de guerra em julho de 1944, ou seja, a menos de um ano do final do conflito.

Vargas corta relações com a Varig e interfere na presidência da empresa

Em 1942, diante da pressão política, Vargas declarou guerra à Alemanha e à Itália, mas Otto Meyer manteve relações com o governo alemão. Aviões da Varig continuavam distribuindo propaganda nazista pelo interior do Rio Grande do Sul e Otto Meyer continuou fazendo doações regulares ao Partido, mesmo depois da proibição do governo brasileiro. “Em 1942, quando o Brasil já estava em guerra contra a Alemanha, o nome de Meyer consta da lista de contribuintes ao Partido Nazista no Rio Grande do Sul elaborada pela polícia política com base no bloco de recibos do cobrador do partido”, afirma o professor Alexandre Fortes.

Por isso, o governo utilizou sua condição de acionista da Varig e realizou uma intervenção federal na empresa, visando afastar Otto Meyer do cargo de presidente. Assim, a empresa só foi “desnazificada” por exigência dos EUA entre 1942 e 1943. Quem assumiu seu lugar foi o ex-piloto e secretário de agricultura do Rio Grande do Sul, Érico Assis Brasil. 

Porém, ele permaneceu pouco tempo na presidência, pois morreu em um acidente aéreo na região metropolitana de Porto Alegre. A presidência ficou com um indicado do próprio Meyer, Rubem Berta, que seguiu no Conselho da empresa até sua morte, em 1965. A Varig entrou em recuperação judicial em 2005 e decretou falência cinco anos depois, em 2010.

Letícia Fortes

Estudante de Jornalismo na PUCPR e estagiária do Regra. Escrevo para evidenciar e esclarecer assuntos que exigem nossa atenção, pois essa é minha forma de defender uma comunicação humanizada, acessível e engajada socialmente.

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