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Varig e nazismo: como a companhia gaúcha praticou espionagem para Hitler

Varig e nazismo: como a companhia gaúcha praticou espionagem para Hitler
Varig apoiou o nazismo e espionou o Brasil, diz historiador

Fundada em 1927 em Porto Alegre (RS), a Viação Área Rio-Grandense (Varig) foi a primeira empresa aérea brasileira a operar jatos em sua frota e foi a pioneira em estrear aviões na América Latina, tornando-se a empresa mais visada do continente. Porém, em 1990, o professor do departamento de História da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Alexandre Fortes, descobriu que o dono da empresa e ex-militar da Força Aérea Alemã, Otto Enerst Meyer, estava envolvido diretamente com a instalação de um equipamento de espionagem alemã em solo brasileiro.

Segundo documentos do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) do Rio Grande Sul, aviões da Varig transportaram caixas com peças para montagem de um rádio-transmissor que ajudava a informar os corsários e submarinos alemães sobre as movimentações de embarcações inimigas na costa sul do Atlântico. “A instalação do rádio visava dar apoio em terra aos navios alemães que travaram batalha contra a Marinha Inglesa em Punta del Este”, conta Alexandre, em entrevista ao Regra dos Terços.

Desde antes da criação da Varig, Ottto Meyer mantinha estreita relação com o braço sindical do Partido Nazista, a Frente de Trabalho Alemã. Segundo Fortes, a instalação do rádio foi uma determinação do partido, que utilizou a Varig como apoio operacional para uma ação de espionagem em solo brasileiro. Além disso, a própria criação da companhia aérea foi uma ação estratégica do estado alemão. “Ainda na República de Weimar, a Varig surgiu visando contornar as limitações ao desenvolvimento da aviação alemã impostas pelo Tratado de Versalhes, que encerrou a Primeira Guerra Mundial”, explica Alexandre.

Varig foi protagonista no cenário nacional

Ao longo de sua história, a Varig transportou todos os presidentes da República, de Getúlio Vargas até Fernando Henrique Cardoso. Mesmo sendo uma empresa privada, seus escritórios no exterior eram considerados consulados extraoficiais do Brasil, pois prestavam apoio e forneciam diversas informações para brasileiros em viagens internacionais.

Outro aspecto da Varig que o pesquisador Alexandre Fortes ressalta é a imagem pública da companhia, que é cercada de peculiaridades históricas e ligadas ao nazismo. “A Varig distribuía propaganda e jornais do partido nazista com seus aviões, algo que nem os maiores jornais brasileiros conseguiam fazer na época. Na empresa só se falava alemão e todos os pilotos tinham que manter cidadania alemã, mesmo que tivessem nascido no Brasil ou se naturalizado.”

Aviação era vista como projeto de poder durante a Segunda Guerra Mundial 

Nos anos 1920, a aviação era vista como alvo de interesse militar, essencial para expandir a influência geopolítica e as relações internacionais dos países. A França foi a primeira potência que começou seu projeto de aviação comercial, com a empresa Aeropostale. Como viria a ser em todos os países, o envolvimento do Estado e das Forças Armadas vinha junto com a participação civil através de investimentos e sociedades.

O historiador Alexandre Fortes explica que os países passam a se preocupar mais com a ocupação do espaço aéreo a partir de 1938. “Quando a percepção de que uma nova guerra mundial estava por vir ficou mais forte, os EUA passaram a ver a rede de empresas aéreas alemãs na América do Sul como uma grande ameaça à segurança do Hemisfério Ocidental.”

Nesse contexto, Otto Meyer e um grupo de pilotos veteranos da Primeira Guerra foram enviados ao  Brasil no mesmo ano que a Alemanha (então República de Weimar, antes do Terceiro Reich) fundou sua estatal de aviação, a Deutsche Luft Hansa Aktiengesellschaft (mais tarde apenas Lufthansa). “Quando Meyer chegou ao Brasil, tinha 24 anos. Seus planos [de fundar uma companhia de aviação] não deram resultado em Recife e em Santos, mas ao chegar a Porto Alegre ele conseguiu a adesão do empresariado local e do governo do estado para criar a VARIG em 1927”, conta o pesquisador da UFRRJ.

A proposta de Otto Meyer consistia em buscar sócios para uma sociedade anônima e isenção fiscal. Além de conseguir o apoio do empresariado gaúcho, a empresa de aviação teve 25% de suas ações financiadas pelo governo do estado, na época governado por Getúlio Vargas. Além de ser acionista da Varig, o governo do Rio Grande do Sul também beneficiava a empresa com subsídios e isenções de impostos. Em suas pesquisas, Fortes ressalta que o Estado brasileiro atuava institucionalmente para beneficiar a expansão e a hegemonia da Varig nos anos 1930: “Posso dizer que o governo federal ajudou a proteger a empresa evitando que a Panair, vinculada à norte-americana PanAm se expandisse controlando rotas no sul do Brasil”.

O professor de História da UFRRJ ressalta que, curiosamente, Vargas passou de governador e apoiador da Varig para o presidente que declarou guerra à Alemanha de Adolf Hitler, em um período de quinze anos. “Como governador, Vargas apoiou a criação da empresa e a utilizou para sua campanha presidencial e como apoio logístico na Revolução de 1930. Como presidente, viu a empresa se tornar parte do problema relativo à espionagem alemã e à penetração do nazismo junto às comunidades de imigrantes no país. Por isso, apoiou a nacionalização da empresa para tirar Otto Meyer da presidência”, analisa Fortes.

Relação entre Varig e Getúlio Vargas desmorona com pressão ideológica alemã

Na década de 1930, o Partido Nazista enviou uma diretriz ao Brasil recomendando que se intensificasse a nazificação em entidades e órgãos brasileiros compostos por alemães. Segundo o pesquisador Alexandre Fortes, um dos principais pontos do processo de nazificação era cortar relações comerciais com países inimigos da Alemanha, o que fez com que muitos empresários protestassem contra as diretrizes do partido. O pesquisador cita, inclusive, o caso de um vendedor de carros de Porto Alegre que suspendeu a venda de carros fabricados nos EUA para comercializar apenas marcas nacionais, devido à pressão do consulado alemão.

Em 1934, o presidente Getúlio Vargas assinou os Acordos de Compensação com a Alemanha, concordando em exportar carne, tabaco, café, couro e algodão para a Alemanha em troca da importação de manufaturados alemães. Um ano depois, Vargas também assinou um acordo com os Estados Unidos para oferecer concessões tarifárias aos produtos importados em troca de liberação de tributos de exportações brasileiras.

Em 1940, Otto Meyer foi preso devido ao envolvimento da Varig na instalação de transmissores de rádio num navio alemão no Porto de Rio Grande. Além disso, o presidente da Varig confessou ser vinculado ao braço trabalhista do Partido Nazista, o Deutsche Arbeitsfront. “Ele ficou detido por três dias em 1940 por causa da instalação do rádio no Rio Grande do Sul. Depois, teve que se afastar da direção da empresa, mas não sofreu nenhum tipo de processo e continuou como consultor informal da empresa até morrer em 1966”, conta o historiador Alexandre Fortes.

Em 1942, o ataque do submarino alemão U-507 a seis navios mercantes brasileiros agravou a relação diplomática entre Brasil e Alemanha. Os navios foram afundados na própria costa e 600 pessoas morreram. Diante da pressão política e do luto popular, Vargas declarou guerra à Alemanha e à Itália, mas Otto Meyer manteve relações com o governo alemão. 

Aviões da Varig continuavam distribuindo propaganda nazista pelo interior do Rio Grande do Sul e Otto Meyer continuou fazendo doações regulares ao Partido, mesmo depois da proibição do governo brasileiro. “Em 1942, quando o Brasil já estava em guerra contra a Alemanha, o nome de Meyer consta da lista de contribuintes ao Partido Nazista no Rio Grande do Sul elaborada pela polícia política com base no bloco de recibos do cobrador do partido”, afirma o professor Alexandre Fortes.

Por isso, o governo utilizou sua condição de acionista da Varig e realizou uma intervenção federal na empresa, visando afastar Otto Meyer do cargo de presidente. Assim, a empresa só foi “desnazificada” por exigência dos EUA entre 1942 e 1943. Quem assumiu seu lugar foi o ex-piloto e secretário de agricultura do Rio Grande do Sul, Érico Assis Brasil. Porém, ele permaneceu pouco tempo na presidência, pois morreu em um acidente aéreo na região metropolitana de Porto Alegre. A presidência ficou com um indicado do próprio Meyer, Rubem Berta, que seguiu no Conselho da empresa até sua morte, em 1965. A Varig entrou em recuperação judicial em 2005 e decretou falência cinco anos depois, em 2010.

Letícia Fortes

Estudante de Jornalismo na PUCPR e estagiária do Regra. Escrevo para evidenciar e esclarecer assuntos que exigem nossa atenção, pois essa é minha forma de defender uma comunicação humanizada, acessível e engajada socialmente.

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