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A vitória de Jhonny Depp é justa, mas o machismo ainda é o grande vencedor

A vitória de Jhonny Depp é justa, mas o machismo ainda é o grande vencedor
Jhonny Depp foi inocentado no julgamento do caso de Amber Heard (Foto: reprodução)

O julgamento mais famoso do ano terminou hoje e, não nego, eu vi todos os depoimentos e fiquei realmente muito interessada no caso. Já quero ver o documentário a respeito, inclusive. Mas, a vitória de Jhonny Depp, apesar de eu considerar justa, é um exemplo claro de como a falta de discernimento sobre determinados assuntos desmerecem causas muito importantes como o abuso psicológico, relacionamentos tóxicos, agressões contra mulheres e até mesmo o feminicídio.

Amber Head usou dessa pauta para incriminar uma pessoa que ela também abusou e violentou. Agora ela será eternamente o argumento para que discursos machistas sejam usados mais frequentemente quando uma vítima pede socorro ou expõe uma situação dessas: “Mas será que ele não tinha razão? Será que ele não estava só se defendendo? Você viu o caso do Jhonny Depp? Ele era a vítima de verdade…” Parece até que estou vendo as pessoas usando esse argumento nas rodinhas de gente de bem. Ainda que Depp tenha ganho a ação, nada justifica que ele também foi agressor psicológico dela, ainda que o cenário seja totalmente favorável a ele e, enfim, eu concordo que ele foi vítima também. Ali ninguém foi santo, mas a Amber sempre será a mulher mentirosa, pilantra e abusiva, porque foi só nisso que as pessoas focaram.

Quase não se fala dos vícios de Depp, quase não se fala que pessoas que têm esse tipo de problema são, em maioria, violentas, abusivas, manipuladoras. Não. Só se fala das agressões que ele sofreu, apenas. Não tirando a gravidade do sofrimento que é estar dentro de um relacionamento desses, eu só não entendo como todos os defeitos dele são anulados quando ele simplesmente sofre. Quantas mulheres no mundo passam a mesma coisa e ainda são julgadas pela roupa que usavam no momento, por seus comportamentos em redes sociais, quando não são humilhadas em audiências porque tinham uma foto de biquíni no Instagram? Sim, caso Mari Ferrer, vamos lembrar.

O que temos que tirar desse caso é uma coisa muito latente na nossa sociedade: como o machismo violenta e mata. E ele violenta e mata os dois lados, ele não distingue gênero, ele só cobra. O machismo fez Depp demorar a pedir ajuda e sair dessa relação, fez com que ele fosse abusado não somente pela namorada, mas várias vezes por outras relações que foram contadas pela mídia em um passado onde ele aprendeu que o amor machucava. Ele se posicionou de forma machista por ser criado nesse ambiente e também por ser cobrado por ele, afinal, ele é o símbolo de virilidade, homem do ano, tantos outros rótulos. Ele foi o que as pessoas queriam que ele fosse, prova disso, seus vícios todos para tentar fugir de uma realidade sufocante que é atender expectativas alheias. Mas bastou o Depp mostrar a sua fragilidade, que todos os seus pecados foram perdoados. Se houvesse uma prova concreta que ele violentou Amber, ele teria sido perdoado, apenas por ter sofrido na mão da ex-companheira. Enquanto outras mulheres pelo mundo provam por a + b que foram vítimas, mas ainda são descredibilizadas e demoram ANOS para verem justiça, quando não morrem sem atingir esse objetivo.

Por sua vez. Amber sai julgada e massacrada. Muito mais massacrada do que os agressores de Hollywood, como Kevin Spacey, acusado de estuprar 2 mulheres há 3 anos e não ter sido julgado até hoje. Outro exemplo é Ben Affleck, quando ele apalpou o seio da atriz Hilarie Burton durante uma entrevista à MTV nos anos 2000 e hoje segue sendo protagonista de filmes famosos como Batman. Amber muito provavelmente terá prejuízos em sua carreira que serão irreversíveis. Justo ou não justo, ela será muito mais prejudicada por ser mulher, isso é óbvio. Porque daqui para frente ela só será chamada de golpista e mentirosa, enquanto seus colegas estupradores assinam contratos milionários pelo mundo.

Depp, por sua vez, volta a ser enaltecido não somente por seu trabalho, mas pela causa de homens que também são vítimas de violência doméstica, abuso psicológico e relacionamentos tóxicos. Uma causa justíssima, que deve mesmo ser debatida e conversada de forma aberta. Mas também uma ótima forma de esquecer que ele também foi agressor nesse caso, que ele também foi abusivo, que ele também tem problemas sérios psicológicos, ainda que tenha ganho a causa de forma limpa.

É isso, sempre precisamos de um demônio para poder adorar um Deus, não é mesmo? O machismo nunca vai deixar de ser definidor de pautas sensíveis, infelizmente.

Eline Carrano

Jornalista por profissão, cronista por opção e neta coruja. Escrevo porque preciso justificar as ansiedades que o tarja-preta não dá conta.

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