Considerada um dos maiores avanços da ciência, a vacina evita entre dois e três milhões de mortes por ano, de acordo com a Organização Mundial de Saúde. Entenda porque vacinas não tem ideologia.

Saúde

Imunização sem polarização

Hakan Nural

Desde o surgimento da Medicina, uma questão sempre intrigou os profissionais da saúde: como prevenir a morte do maior número de pessoas por doenças altamente transmissíveis e, até então, incuráveis?

A resposta começou a surgir ainda no século X, o avanço da varíola na China originou um método chamado variolação.  A técnica transformava cascas de feridas de varíola em um pó com o vírus já inativo, o qual era espalhado nos ferimentos dos pacientes.

Sam Khams

Matthew Waring

Foi apenas em 1796 que as vacinas se tornaram parecidas com as atuais. O motivo para a descoberta do médico Edward Jenner foi a varíola, mesma doença que preocupou os cientistas chineses no século X.

CDC

Jenner percebeu que moradores de áreas rurais ficavam mais doentes do que aqueles que contraiam a varíola humana. Por isso, o médico fez um experimento com James Phipps, de oito anos.

Primeiro, Jenner aplicou uma pequena dose de varíola bovina em seu cobaia James, que ficou levemente doente. Após sua recuperação, o médico injetou na criança o vírus da varíola humana em sua forma mais fatal, retirado de uma ordenhadeira.

Jeremy Bezanger

Porém, James não desenvolveu a varíola, pois já estava imune à doença. A palavra “vacina” vem de “vacca” justamente pelo contexto histórico e pelas características do vírus da varíola que circulava nas zonas rurais, conhecido como cowpox.

Mat Napo

A varíola também foi uma epidemia preocupante no Brasil. Em 1837, ainda durante o período imperial, foi estabelecida a vacinação obrigatória contra o vírus para as crianças.

CDC

Desde 1846, o Brasil Império estimulou a produção nacional de imunizantes, como os institutos Butantan e FioCruz fazem atualmente, para facilitar a imunização coletiva através da distribuição gratuita de vacinas.

Mat Napo

Em 1903, a experiência brasileira mostrou que, mesmo com planejamento logístico e a fabricação nacional de imunizantes, qualquer campanha de vacinação torna-se ineficaz se não houver conscientização sobre o processo científico que envolve a fábricacao das vacinas.

Em 1904, quando o diretor-geral de saúde pública do Brasil, Oswaldo Cruz, tornou obrigatória a vacinação contra a varíola, a população se recusou a tomar o imunizante por desconhecer suas propriedades e benefícios, constituindo o movimento Revolta da Vacina.

Mika Baumeister

Foi apenas em 1908, quando um novo surto de varíola ocorreu, que os brasileiros aderiram em massa à vacinação. Nas décadas seguintes, a ciência evoluiu consideravelmente, fazendo com que a população compreendesse melhor a importância das campanhas vacinais.

Mat Napo

Em 1977, o governo brasileiro tomou duas medidas importantes para o controle de doenças através da imunização coletiva: criou a caderneta de vacinação e tornou obrigatórias uma série de vacinas para menores de um ano. 

Mufid Majnun

Além disso, 1977 foi o mesmo ano que os últimos casos de varíola foram erradicados internacionalmente. Quatro anos depois, em 1981, o governo federal criou o Plano de Ação Contra o Sarampo. Porém, foi apenas cinco anos depois que a campanha atingiu seu público-alvo.

Markus Spiske

Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Em 1986, a campanha contra o sarampo começou a apresentar bons resultados com a  criação do personagem Zé Gotinha, que tornou-se símbolo da vacinação infantil e auxiliou a eliminar a poliomielite no Brasil em 1989.

National Cancer Institute

Em 1999, o Brasil realizou a primeira Campanha Nacional Contra a Gripe  na população acima de 65 anos , a qual é realizada até hoje. Nesse mesmo ano, o governo federal incorporou as vacinas contra a febre amarela e o Haemophilus influenzae tipo b (Hib) no calendário nacional.

Em 2002, a vacina tetravalente (contra difteria, tétano, coqueluche e Hib) marcou os avanços científicos do novo milênio. Em 2006, o tétano neonatal foi eliminado e deixou de ser problema de saúde pública no Brasil.

Diana Poleckina

Em 2014, outras três vacinas foram introduzidas no calendário: a contra a hepatite A para crianças de até 15 meses, a contra o HPV para meninas de 9 a 13 anos e a dTpa (tétano, difteria e coqueluche acelular) para gestantes.

Mat Napo

Towfiqu Barbhuiya

Hoje, o Brasil é um dos países que oferecem o maior número de vacinas à população. Segundo o Ministério da Saúde, são 300 milhões de doses anuais de imunizantes de 43 tipos diferentes, sendo 26 vacinas e 17 soros diferentes.

Desde 1994, o Brasil erradicou a transmissão da poliomielite, recebendo certificação da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS).

CDC

CDC

Já o último caso de sarampo no Brasil ocorreu em 2015, fazendo com que o país adquirisse o certificado de erradicação da doença. Porém, em 2018, casos de poliomielite e de sarampo voltaram a acontecer no país devido à baixa cobertura vacinal.

De 2014 a 2016, o público-alvo que recebeu as doses contra poliomielite diminuiu de 98,2% para 84,4% e se manteve nesse patamar até 2019. Em 2020, a cobertura de imunização foi ainda menor: apenas 75,9% se vacinaram contra a doença.

Mohammad S.

O retorno da transmissão da poliomielite e do sarampo no Brasil mostram a importância de manter a caderneta de vacinação atualizada.

Dim Hou

Agência Brasil

Vacina alguma causa autismo ou provoca o surgimento do vírus HIV no organismo, conforme dizem notícias falsas propagadas por pesquisas científicas mal revisadas ou pelo próprio presidente do Brasil, Jair Bolsonaro (PL). 

Além disso, a pandemia de Covid-19 evidenciou que a imunização coletiva é a melhor forma de conviver em sociedade e erradicar uma doença com potencial letal.

Hakan Nural

créditos

reportagem

Letícia Fortes

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FONTEs

Instituto Butantan Ministério da Saúde Plano Nacional de Imunização (PNI)l