Marchinhas ofensivas: folia e preconceito não combinam

Muitas marchinhas foram criadas em um período diferente, quando preconceitos estruturais eram invisíveis. Que tal curtir o Carnaval sem ofensas?

O Carnaval é, por definição, uma festa livre, plural e democrática, que reúne diversos gêneros e classes sociais na folia uma vez por ano. É um símbolo internacional da identidade cultural brasileira.

Ferran Feixas

As marchinhas são a trilha sonora da folia. Porém, algumas letras trazem aspectos racistas, homofóbicos e machistas, que eram mais naturalizados no Brasil quando essas canções foram compostas.

Arquivo Nacional do Brasil

Isso acontece porque as marchinhas fazem parte da cultura brasileira e, como todo produto artístico, são muito influenciadas pelo local e o período histórico no qual foram criadas.

Arquivo Nacional do Brasil

"Maria Sapatão", de João Roberto Kelly

No Brasil, é comum que uma mulher lésbica seja chamada  de "sapatão". Porém, trata-se  de uma ofensa.

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Arquivo Nacional.

"Maria Sapatão/Sapatão, Sapatão/De dia é Maria/ De noite é João"

A música também confunde gênero e sexualidade, ao dizer que Maria, por ser lésbica, "de noite é João". Uma mulher lésbica tem atração sexual por outra mulher, mas não "vira homem" por causa disso.

Arquivo Nacional do Brasil

"Cabeleira do Zezé", de João Roberto Kelly

O primeiro erro da letra é a homofobia. "Será que ele é?" debocha da possibilidade de Zezé ser homossexual.

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Marcos Paul

Olha a cabeleira do Zezé/Será que ele é?/ Será que ele é?

"Transviado" não existe. Existem pessoas transgêneras, que não se identificam com o gênero que nasceram.

Arquivo Nacional do Brasil

"Parece que é transviado/Mas isso eu não sei se ele é!/Corta o cabelo dele!"

"Viado" é uma ofensa comumente utilizada para debochar de pessoas homossexuais, que se identificam com o gênero que nasceram, mas sentem atração por pessoas do mesmo sexo.

Arquivo Nacional do Brasil

Sara Rampa

"O teu cabelo não nega", de Lamartine Babo

O primeiro erro é chamar a mulher negra de "mulata", termo derivado de mula.

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Arquivo Nacional do Brasil

"O teu cabelo não nega, mulata/Porque és mulata na cor/ Mas como a cor não pega, mulata/Mulata, eu quero o  teu amor"

Mula é uma fêmea híbrida e estéril, produto do cruzamento de burro e égua ou de cavalo e burra. Durante a escravidão, senhores de engenho mantinham relações sexuais abusivas com as escravas.

Arquivo Nacional do Brasil

Além disso, o racismo se manifesta principalmente na frase "como a cor não pega", como se ter a pele preta equivalesse a uma doença transmissível.

Arquivo Nacional do Brasil

"Índio quer apito", de Haroldo Lobo e Milton  de Oliveira

A marchinha associa os índios à selvageria, menosprezando sua história dizendo que "índio só quer apito" e nada mais.

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Acervo Funai

"Ê, ê, ê, ê, ê, Índio quer apito/Se não der, pau vai comer!"

Não se trata de "cancelar" as marchinhas em nome do "politicamente correto", e sim de cantar músicas que todos tenham o direito de dançar e serem respeitados.

Arquivo Nacional do Brasil

Um exemplo é a marchinha "Abre Alas", de Chiquinha Gonzaga. Na letra, a sensibilidade feminista de Chiquinha falou mais alto do que os preconceitos históricos do Brasil, criando uma música democrática.

Arquivo Nacional do Brasil

"Ó abre alas/Que eu quero passar Ó abre alas/Que eu quero passar" Trecho de "Abre Alas", de Chiquinha Gonzaga

Arquivo Nacional do Brasil

Outra marchinha famosa e livre de preconceitos é "Chiquita Bacana", de Braguinha e Alberto Ribeiro. Sua primeira gravação ficou imortalizada na voz da cantora Emilinha Borba.

Lembranças Congeladas - Flickr

"Chiquita Bacana/Lá da Martinica/Se veste com uma casca/De banana nanica/Não usa vestido/Não usa calção/Inverno pra ela/É pleno verão/Existencialista/Com toda razão/Só faz o que manda/ O seu coração."

Blanche Peulot

"Chiquita Bacana" é uma referência espirituosa ao existencialismo, pois a personagem "se veste com uma casca de banana" e "só faz o que manda o coração", defendendo a experiência assim como a teoria.

Vladimir Soares

Refletir sobre as letras das marchinhas não é culpar o autor das canções, mas sim sublinhar os preconceitos de um passado recente, que ainda influencia a visão preconceituosa sobre minorias no Brasil.

Ryan Wallace

créditos

reportagem

Letícia Fortes

Seta

FONTE

Arquivo Nacional do Brasil