MPB e Ditadura Militar no Brasil: protestos por meio da música

A liberdade de expressão foi um dos vários  direitos fundamentais cerceados na ditadura militar. Entenda como a música denunciou abusos à dignidade humana e resistiu à repressão.

A música e a poesia foram as principais formas de protesto durante a Ditadura Militar.  Mesmo sem liberdade de expressão, muitas músicas  com letras complexas e cheias de metáforas expressaram críticas indiretas e veladas à ditadura e, muitas vezes, passaram batido pela censura.

Arquivo Nacional. Fundo Correio da Manhã.

As músicas de protesto contra a ditadura eram a trilha sonora dos festivais de MPB, promovidos pela TV Excelsior e pela TV Tupi. Com espaço na televisão, essas canções se popularizaram no país.

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A Música Popular Brasileira (MPB) foi o principal movimento musical que denunciou, criticou e combateu a censura da ditadura militar no país.

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A partir de 1968, com o Ato Institucional nº 5 (AI-5), todas as obras culturais foram fiscalizadas pelos militares antes de circularem.  A censura era "justificada" com argumentos como “fere a moral e os bons costumes” até simplesmente “falta de gosto”.

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"APESAR DE VOCÊ", DE CHICO BUARQUE

Composta no auge da ditadura militar, em 1970, a música foi lançada no mesmo ano e passou batido pela censura do governo Médici. Isso aconteceu porque Chico falou metaforicamente sobre os abusos da ditadura militar, comparando-os com um relacionamento tóxico.

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Arquivo Nacional.

A cantora Clara Nunes regravou a música, inclusive, pensando que a mesma falava sobre uma briga entre namorados.

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Foi só quando o jornalista Sebastião Nery, do jornal Tribuna da Imprensa, publicou uma nota elogiando a música, que os militares perceberam a ironia da canção de Chico.  A canção foi censurada e só foi lançada oficialmente em 1978, no final do governo Geisel.

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Em "Apesar de Você",  a ditadura militar é o "você", sobretudo o governo Médici.

Hoje é você quem manda/ Falou, tá falado/Não tem discussão, não" "Apesar de você/ Amanhã há de ser/Outro dia"

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"Alegria, alegria", DE Caetano veloso

Apresentada no Festival da Record, em 1967, "Alegria, Alegria" foi um marco do movimento Tropicalista.

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Segundo o próprio Caetano Veloso no livro Verdade Tropical, a música traz "um retrato, na primeira pessoa, de um jovem típico da época andando pelas ruas da cidade com fortes sugestões visuais, criadas, se possível pela simples menção de nomes de produtos, personalidades, lugares e funções".

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O destaque de "Alegria, Alegria" é a crítica que Caetano Veloso faz sobre a alienação política da maioria das pessoas, que  não procuravam se aprofundar nos acontecimentos da ditadura, como censuras e prisões arbitrárias.

"O sol nas bancas de revista/ Me enche de alegria e preguiça/ Quem lê tanta notícia/ Eu vou"

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"pra não dizer  que não falei  das flores", DE geraldo vandré

Composta em 1968, a canção foi censurada rapidamente por se referir de maneira explícita à ditadura. Não à toa, "Pra não dizer que não falei das flores" tornou-se o hino da resistência aos militares.

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“Vem, vamos embora/ Que esperar não é saber/ Quem sabe faz a hora/ Não espera acontecer” “Há soldados armados/Amados ou não/Quase todos perdidos/ De armas na mão/ Nos quartéis lhes ensinam/ Uma antiga lição/ De morrer pela pátria/ E viver sem razão”

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"cálice", DE  chico buarque  e gilberto gil

Composta em 1973, a música foi lançada somente cinco anos depois. "Cálice" tem praticamente a mesma sonoridade que "cale-se", que é uma referência explícita à censura imposta pelos militares.

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Lia Costa Carvalho

O primeiro verso "Pai, afasta de mim esse cálice" já se refere  a uma passagem bíblica (Mc. 14:36), lembrando o sofrimento e a perseguição de Jesus antes da crucificação.

"Pai, afasta de mim esse cálice, pai/Afasta de mim esse cálice, pai/Afasta de mim esse cálice/ De vinho tinto de sangue"

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"Cálice" foi composta especialmente para o show Phono 73, que reunia os maiores artistas da gravadora Phonogram,  em duplas.

Marius Massalar

Mesmo após a censura dos militares, Chico Buarque e Gilberto Gil decidiram cantá-la, murmurando a melodia e repetindo somente a palavra "cálice".  Na ocasião, a dupla foi impedida de terminar o show e o som dos seus microfones foi cortado.

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"O bêbado e a equilibrista", DE aldir blanc  e joão bosco

Em 1977, com melodia de João Bosco inspirada pela morte de Charlie Chaplin, a letra ficou a cargo de João Bosco. Na voz de Elis Regina, surgiu um clássico da MPB conhecido como “hino da anistia”.

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A metáfora presente no título é o bêbado como a representação dos artistas que lutavam contra o regime, e a equilibrista era o símbolo de esperança em relação ao fim da ditadura militar.

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Nesses versos, Maria é uma referência à esposa do operário Manoel Fiel Filho, enquanto Clarisse identifica a viúva do jornalista Vladimir Herzog, assassinado pelos militares durante a ditadura.

“Chora / A nossa Pátria mãe gentil / Choram Marias e Clarisses / No solo do Brasil”.

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Hoje, a música popular brasileira continua pautando a conjuntura política do país, mas sem censura ou repressão. A denúncia aos excessos do governo percorrem diversos estilos musicais, como o pop rock, rap, funk e o hip hop.

Hemerson Luiz de Morais

Um dos grandes turbilhões políticos após a ditadura militar foi causado pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016.

Camila Lara

Com os desdobramentos envolvendo a prisão do ex-presidente Lula, a eleição de Jair Bolsonaro (PL) e também o assassinato não resolvido da vereadora Marielle Franco, a música brasileira voltou a ecoar as demandas da sociedade brasileira.

Renan Olaz/CMRJ

Cantores como Emicida, Criolo, Djonga, Mano Brown, Johnny Hooker, Linn da Quebrada, Adriana Calcanhotto, Arnaldo Antunes e Pitty pautam a realidade brasileira do ponto de vista de diversas lutas sociais, como a luta contra o racismo, a corrupção no governo  e o preconceito contra a comunidade LGBTQIAP+.

créditos

reportagem

Letícia Fortes

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FONTEs

Arquivo Nacional do Brasil Armazém Memória  Projeto "Brasil Nunca Mais"